Rio2C 2026 debate IA quântica e alerta para nova disputa por direitos autorais na música

IA quântica foi tema de painel da UBC com Bia Ambrogi, Fernanda Takai, Karina Callai e Bruna Campos no Rio2C 2026.
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Nathália Pandeló
Bia Ambrogi, Fernanda Takai, Bruna Campos e Karina Callai em painel da UBC no Rio2C (Crédito: Igor Ventura)
Bia Ambrogi, Fernanda Takai, Bruna Campos e Karina Callai em painel da UBC no Rio2C (Crédito: Igor Ventura)

A IA quântica entrou na pauta do Rio2C 2026 como um dos próximos desafios da música, em um debate que conectou tecnologia, direitos autorais, publicidade, streaming e remuneração de criadores. No painel “O Som do Futuro: IA Quântica, Música e Direitos”, realizado com proposta da UBC, profissionais do setor discutiram como a nova geração da inteligência artificial pode mudar a criação, a circulação e a monetização de obras musicais.

Com mediação de Bruna Campos, representante da UBC, o encontro reuniu Bia Ambrogi, presidente da Apro+Som, Fernanda Takai, diretora da UBC, e Karina Callai, advogada da Callai & Advogados Associados. O ponto de partida foi: a indústria ainda não encontrou uma resposta fechada para a pergunta que atravessa artistas, editoras, gravadoras, associações e plataformas. Como remunerar autores quando sistemas de inteligência artificial usam obras humanas como insumo?

O avanço da IA quântica entra na pauta da música

Bia Ambrogi abriu o painel com uma contextualização sobre a evolução da inteligência artificial. Ela lembrou que a tecnologia passou por etapas como a IA simbólica, a IA estatística, o aprendizado de máquina e o aprendizado profundo, até chegar aos modelos generativos usados hoje em ferramentas como ChatGPT, Suno e ElevenLabs.

A explicação teve uma função prática: mostrar que a IA quântica não aparece como ficção distante, mas como parte de um avanço que já pressiona o mercado criativo. Bia explicou que computadores quânticos já existem, embora ainda dependam de estruturas muito específicas, como unidades de processamento quântico operando em temperaturas extremamente baixas.

No centro dessa mudança está a diferença entre o bit clássico, que trabalha com 0 ou 1, e o qubit, que pode operar com 0 e 1 ao mesmo tempo. Traduzindo para o mercado da música, a preocupação é que esse tipo de capacidade possa acelerar a leitura de padrões, prever tendências e orientar decisões de lançamento com uma precisão muito maior.

Bruna Campos conectou esse cenário à curadoria musical. Segundo ela, se os algoritmos atuais já estimulam a repetição de fórmulas, uma IA quântica nas mãos de plataformas e grandes empresas poderia levar essa lógica a outro nível:

“Eu não sou muito otimista, mas eles vão impulsionar o que eles quiserem, seja feito por humano ou não”, disse.

Direitos autorais viram ponto central da regulação

Bia Ambrogi, Fernanda Takai, Bruna Campos e Karina Callai em painel da UBC no Rio2C (Crédito: Igor Ventura)
Bia Ambrogi, Fernanda Takai, Bruna Campos e Karina Callai em painel da UBC no Rio2C (Crédito: Igor Ventura)

O debate também tratou da regulação da inteligência artificial no Brasil. A advogada Karina Callai defendeu que a discussão não interessa apenas a quem trabalha com música, fonogramas ou audiovisual, já que qualquer pessoa pode se tornar criadora, influenciadora ou autora nas redes. A ideia central é que, se a autoria perde valor, o problema passa a atingir toda a economia criativa.

Na avaliação apresentada no painel, uma das grandes tensões está no uso de obras humanas para treinar sistemas de IA sem alinhamento com autores, editoras, intérpretes e demais titulares. Bia citou que a economia criativa representa uma fatia relevante do Produto Interno Bruto, mas ainda enfrenta dificuldade para garantir remuneração quando seus conteúdos abastecem empresas de tecnologia.

O caso das ferramentas de criação musical foi usado como exemplo. Bia mencionou termos de uso de plataformas como o Suno, em que o usuário pago pode usar comercialmente o material gerado, mas sem garantia de que não haja disputa de direitos sobre o resultado final. Em outras palavras, o sistema entrega a obra, mas o risco jurídico pode ficar com quem usa.

Esse ponto levou à discussão sobre campanhas publicitárias. Como artista, Fernanda Takai revelou o caso de uma campanha que licenciou uma canção do Pato Fu, mas, com a suspeita de que tivessem usado vozes sintéticas, ela exigiu comprovação de que uma cantora humana havia de fato gravado a faixa. Ela recomendou que os artistas passem a incluir cláusulas para que anunciantes não possam usar inteligência artificial ao regravarem seus trabalhos.

Voz sintética e obras geradas por IA já chegam aos tribunais

A fala de Fernanda Takai trouxe a discussão para a experiência concreta de artistas. Ela contou que antes recebia músicas para avaliar e, eventualmente, gravar. Agora, passou a receber canções já produzidas com sua própria voz gerada artificialmente, muitas vezes com letras e escolhas artísticas que não combinam com sua identidade:

“A pessoa do outro lado acha legal, a pessoa quer me vender para mim mesma”, revelou, provocando risos da plateia.

Para Fernanda, esse tipo de abordagem mostra como a tecnologia pode invadir a relação entre compositores, intérpretes e repertório. A artista relatou ainda que já recebeu até versões em inglês com sua voz clonada, em um nível de realismo que tornou a situação ainda mais desconfortável.

O painel também citou o risco de judicialização envolvendo vozes sintéticas. A discussão não se limita a artistas conhecidos. A percepção apresentada é que qualquer pessoa pode questionar o uso de uma voz parecida com a sua, principalmente quando não há transparência sobre gravação, autorização e origem do material.

Na música ambiente, Callai citou um caso envolvendo um parque que tentou usar trilhas geradas por IA para argumentar que não precisaria pagar execução pública ao Ecad, Escritório Central de Arrecadação e Distribuição. Segundo o relato, o Ecad identificou semelhanças entre as faixas da playlist e músicas reais, ponto que levou a uma decisão favorável à cobrança.

Transparência passa a ser disputa de mercado

A conversa também avançou para o impacto da IA na visibilidade das fontes. Bruna citou o movimento do Google para transformar a busca em uma experiência conversacional baseada em inteligência artificial, com respostas diretas em vez de uma lista de links. Para criadores, jornalistas e veículos, isso abre uma questão econômica: se o público não chega à fonte original, quem sustenta a produção do conteúdo?

Bia associou esse tema à necessidade de transparência algorítmica. Para ela, entender como uma resposta é formada, quais fontes foram usadas e quais interesses aparecem antes na curadoria será parte essencial da regulação. A discussão passa por música, mas também por publicidade, jornalismo e circulação de informação.

No fim, o painel mostrou que a IA quântica ainda pode parecer distante para o público geral, mas seus efeitos já começam a ser debatidos por quem trabalha com música. A preocupação não é apenas com a qualidade das obras geradas por máquinas, mas com a estrutura econômica que define quem aparece, quem recebe e quem controla os caminhos da criação.

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