Nova pesquisa de Anita Carvalho sobre empresariamento artístico aponta desigualdade de gênero e queda de satisfação entre artistas

A pesquisa de Anita Carvalho mostra que nenhuma artista mulher da amostra fatura acima de R$ 10 mil mensais com shows. A pesquisa foi apresentada na Casa UBC.
Foto de Nathália Pandeló
Nathália Pandeló
Anita Carvalho apresentou pesquisa na Casa UBC
Anita Carvalho apresentou pesquisa na Casa UBC (Crédito: Vera Donato)

Anita Carvalho lançou a 5ª edição da Pesquisa Empresariamento Artístico com um dado que ajuda a dimensionar uma das principais desigualdades do mercado musical brasileiro: nenhuma artista mulher da amostra declarou faturar acima de R$ 10 mil mensais com shows. Entre os homens, 17,2% chegaram a essa faixa.

Produzido em parceria com o Laboratório de Economia Criativa da Escola Superior de Propaganda e Marketing (LEC/ESPM), o estudo foi realizado entre fevereiro e março de 2026 com 198 profissionais do setor. A pesquisa é conduzida desde 2017 e chega à quinta edição como uma das poucas séries históricas contínuas sobre gestão de carreiras artísticas no Brasil.

O novo relatório foi apresentado na Casa UBC, no Rio de Janeiro, e trouxe pela primeira vez um recorte de gênero. A análise ajuda a mostrar que as diferenças não aparecem apenas entre artistas, mas também na estrutura de empresariamento, nos modelos de trabalho e no acesso a faixas mais altas de faturamento.

Gênero expõe diferença de escala no mercado

Estudo de Anita Carvalho mostra as diferenças de gênero entre empresários
Estudo de Anita Carvalho mostra as diferenças de gênero entre empresários (Crédito: Divulgação)

Segundo a pesquisa, as mulheres representam 44% do total de empresários e produtores entrevistados. À primeira vista, o número sugere certo equilíbrio. Mas a divisão muda quando o estudo separa profissionais independentes e escritórios estruturados.

Entre empresários e produtores independentes, as mulheres são maioria, com 51,1%. Nos escritórios, que concentram os maiores faturamentos, a presença feminina cai para 37%. A diferença aparece também na escala do negócio: 71,4% dos escritórios faturam acima de R$ 20 mil mensais, contra 36,4% das profissionais independentes.

Anita Carvalho resume o ponto central do recorte de gênero:

“O modelo independente parece ser a porta de entrada predominante das mulheres no empresariamento artístico, mas é também o modelo de menor faturamento”, compara.

Entre artistas, a diferença fica ainda mais direta. Nenhuma mulher declarou faturar acima de R$ 10 mil por mês com shows, enquanto 17,2% dos homens atingem esse patamar. Ainda assim, as artistas mulheres apresentam satisfação superior à dos homens, com nota de 2,77 em 5, contra 2,34.

Esse cruzamento revela um paradoxo importante: as mulheres demonstram maior satisfação subjetiva com a carreira mesmo quando aparecem em faixas menores de retorno financeiro. Para o mercado, o dado mostra que falar de desigualdade de gênero na música não é apenas discutir presença, mas entender onde essas profissionais conseguem chegar em termos de estrutura, receita e acesso a oportunidades.

Artistas estão menos satisfeitos com a carreira

A pesquisa também registra o menor índice de satisfação dos artistas desde o início da série histórica. Em 2025, a nota média ficou em 2,48 em uma escala de 5. Em 2021, era 2,9.

O dado chama atenção porque a amostra reúne profissionais experientes, com tempo médio de carreira concentrado entre 10 e 30 anos. Ou seja, a insatisfação não está restrita a artistas em início de trajetória. Ela aparece em um grupo que já conhece o funcionamento do setor e, em muitos casos, já passou por diferentes fases do mercado.

A principal fonte de renda também mudou. Em 2019, os shows ao vivo eram apontados como principal receita por 57% dos artistas. Em 2025, esse percentual caiu para 21,4%. Ao mesmo tempo, 50% declararam que sua principal fonte de renda vem de atividades fora da música, como emprego formal, outra profissão ou aposentadoria.

O dado ajuda a explicar por que a retomada do mercado ao vivo não resolve, sozinha, a vida financeira dos artistas. Os shows podem ter voltado a movimentar a economia da música, mas essa receita não chega de forma equilibrada a todos os profissionais.

Ter empresário melhora indicadores, mas ainda é exceção

Respondentes da nova pesquisa de Empresariamento Artístico de Anita Carvalho (Crédito: Divulgação)
Respondentes da nova pesquisa de Empresariamento Artístico de Anita Carvalho (Crédito: Divulgação)

Outro ponto da pesquisa é o impacto da representação profissional. Artistas com empresários registram maior satisfação com a carreira, com nota de 3,2 contra 2,38 entre aqueles sem representação.

O grupo representado também realiza mais shows: todos fazem ao menos uma apresentação remunerada por mês. Entre artistas sem empresária, 47% realizam menos de um show remunerado mensal. O acesso a editais de fomento também aparece em condição melhor entre quem conta com representação.

O problema é que apenas 12,5% dos artistas da amostra têm empresário. Além disso, encontrar um empresário ou produtor aparece empatado como a segunda maior dificuldade relatada pelos artistas, atrás apenas da capacidade de investir financeiramente no próprio projeto.

Isso mostra uma contradição do setor: a representação profissional melhora indicadores importantes, mas ainda é pouco acessível. Na prática, muitos artistas precisam lidar sozinhos com planejamento, negociação, gestão financeira, divulgação, editais e estratégia de carreira.

Comissão segue como ponto de tensão

A relação entre artistas e empresários também passa por uma diferença cada vez maior de percepção sobre comissões. Os empresários cobram, em média, 25,5% sobre as receitas dos artistas, mas consideram que o percentual justo seria 32%.

Do lado dos artistas, a régua é mais baixa. O percentual considerado justo para pagar caiu de 28% em 2021 para 23,7% em 2025. A diferença mostra que os dois lados continuam enxergando o valor da mediação profissional de formas distintas.

Em outra fala sobre a importância da série histórica, Anita Carvalho afirma:

“Pouquíssimos estudos no mercado da música conseguem acumular dados de forma contínua. Isso nos permite observar transformações reais e desafios que persistem”, analisa.

A continuidade da pesquisa ajuda justamente a separar problemas pontuais de tendências de longo prazo. Ao reunir dados sobre gênero, receita, satisfação, comissões e formalização, o relatório mostra um mercado em transformação, mas ainda marcado por desigualdades de escala, falta de acesso à gestão profissional e uma distância entre expectativa e entrega nas relações de empresariamento.

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