Ton Carfi passou mais de 10 anos dentro da Som Livre, consolidou músicas como “Porque Eu Te Amei”, “Minha Vez” e “Infinitamente Mais”, celebrou 20 anos de carreira em um projeto ao vivo e chegou ao Latin Grammy com o álbum “Ton Carfi 20 Anos”. Agora, o cantor e compositor inicia uma nova etapa: a criação da Rocket Music Brazil, gravadora própria voltada ao desenvolvimento de novos artistas.
O anúncio veio após o encerramento do contrato com a Som Livre, em uma despedida pública feita pelo próprio artista nas redes sociais. Mas, em entrevista exclusiva ao Mundo da Música, Ton explicou que a Rocket não nasceu de uma decisão repentina.
A gravadora já vinha sendo estruturada há meses, com artistas selecionados, músicas gravadas e videoclipes prontos para lançamento. O que faltava era o momento certo para organizar a transição entre a saída da antiga gravadora e a apresentação do novo negócio.
Para Ton, a mudança também mexe com a forma como o mercado passa a enxergá-lo. Depois de duas décadas como artista, ele agora assume uma posição de gestão, curadoria e investimento.
“É interessante, porque você fica um pouco orgulhoso da sua história, de quando você começou, de tudo aquilo que você enfrentou, daquilo que você batalhou. E aí hoje você se encontra numa outra posição, não apenas uma posição de artista, que eu continuo sendo. Mas agora você é meio que um CEO de artistas, um manager, um dono de uma gravadora que tem outros artistas que você está gerindo.”
A Rocket nasce com a proposta de oferecer uma estrutura moderna para artistas em início de carreira, com estúdios, acompanhamento artístico, marketing digital, estratégia de lançamento e contratos menos engessados. A gravadora quer atuar além do modelo tradicional, respeitando a obra, a autonomia criativa e a jornada de cada artista.
Da Som Livre à Rocket Music Brazil
A experiência de Ton dentro e fora de gravadoras é uma das bases da nova empresa. Antes de entrar na Som Livre, ele já havia vivido a realidade do artista independente. Depois, dentro de uma grande companhia, passou a observar de perto a lógica de investimento, distribuição, repertório, relacionamento com plataformas e construção de carreira.
Esse olhar duplo aparece na forma como ele descreve o mercado atual. Para o cantor, a internet reduziu algumas barreiras que antes impediam novos artistas de gravar e lançar música, mas também criou um ambiente muito mais competitivo.
“A gente vive num tempo em que tudo muda muito rápido. As coisas evoluem muito rápido. E eu sempre fiquei muito atento a isso. Qual é a direção da música? O que é necessário para você fazer um bom lançamento? O que é necessário para você construir uma carreira? Então, ao longo desses meus 20 anos de carreira, eu já fui cantor independente e já fui cantor de gravadora. E eu sei quais são as dificuldades e o que é bom dos dois lados.”
Essa leitura ajuda a explicar por que a Rocket não se apresenta apenas como uma gravadora que vai colocar músicas nas plataformas. O projeto tenta ocupar uma lacuna entre o talento que já chama atenção nas redes sociais e a estrutura profissional necessária para transformar esse interesse inicial em carreira.
Na visão de Ton Carfi, a antiga dependência das gravadoras era muito maior. Gravar era caro, os estúdios eram menos acessíveis, as rádios tinham peso decisivo e as grandes companhias concentravam uma parte importante dos caminhos de lançamento. Hoje, um artista pode gravar em casa, publicar vídeos, viralizar nas redes e subir uma música em uma plataforma digital. O problema é que isso não garante continuidade.
“Antigamente, só a gravadora tinha um estúdio. Ir gravar era muito caro. Então, um artista independente não conseguia ter dinheiro para gravar. Ele precisava de uma gravadora para estourar. Existia o lance das gravadoras com as rádios, a rádio era muito forte. Hoje, com streaming, ficou na palma da mão das pessoas. As pessoas escolhem o que elas querem ouvir.”
A partir dessa mudança, o papel da gravadora também se altera. Se antes o acesso ao estúdio e à rádio era parte central da equação, hoje a necessidade está mais ligada a investimento, planejamento, relacionamento com as plataformas, gestão de conteúdo e capacidade de fazer uma música circular em meio a um volume enorme de lançamentos.
O foco em artistas que ainda não têm música lançada
O primeiro movimento da Rocket será mirar artistas que ainda não necessariamente têm números no streaming. Ton Carfi afirma que a gravadora está interessada em nomes sem músicas lançadas, mas com presença forte em redes sociais, vídeos que circulam bem e algum tipo de conexão com público.
A lógica é diferente da adotada por muitas grandes gravadoras, que costumam olhar primeiro para métricas já consolidadas, como ouvintes mensais, plays, histórico de lançamentos e capacidade comprovada de gerar receita. Ton quer observar outro tipo de sinal: o artista que ainda não tem catálogo, mas já demonstra apelo.
“Nosso foco é o artista que está começando. É um cara que não tem nenhuma música lançada. Em termos de linguagem musical, a gente não tem um nicho definido. Dentro do mundo gospel, eu tenho cantoras no estilo pentecostal, tem uma cantora no estilo MPB, um outro cantor no estilo mais worship. Mas o que eu procuro são artistas que não têm nenhuma música lançada, mas têm uma presença forte nas redes sociais.”
Essa escolha também reflete a própria trajetória de Ton, que sempre transitou por diferentes linguagens dentro do gospel. O artista começou em ambientes ligados ao black gospel, passou por grupos como Raiz Coral, Link4 e APC 16, construiu carreira solo com forte presença de R&B e soul, e depois se aproximou de elementos do pop, do rap, do trap e do funk.
Na Rocket, essa abertura estética deve se repetir. Ton citou, por exemplo, um artista ligado ao universo fitness, com base no rap, que chega à gravadora com um projeto que envolve trap, funk e participações de nomes populares. Ao mesmo tempo, o selo também terá artistas de linhas mais tradicionais do gênero.
A proposta é olhar menos para um formato fechado e mais para a capacidade de comunicação do artista. Nesse sentido, a Rocket tenta combinar curadoria artística com leitura de comportamento digital.
Contrato mais flexível como estratégia

Um dos pontos mais fortes dessa virada é a visão de Ton sobre contratos. Segundo ele, a Rocket não pretende trabalhar com contratos artísticos longos, que prendem o artista à gravadora por vários anos. O modelo descrito pelo cantor prevê que a empresa banque e detenha o fonograma, pague royalties artísticos e trabalhe o projeto, mas sem impedir que o artista siga outro caminho no futuro.
“Um diferencial da nossa gravadora é que a gente não tem contrato artístico com um artista. A gente vai gravar o álbum dessa pessoa, vamos lançar esse álbum, esse fonograma que a gente vai bancar, que a gente vai investir. É tudo nosso. O fonograma é nosso. O artista ganha um royalty artístico. A diferença é que eu não coloco contrato artístico com esse cantor.”
Para Ton, esse formato tenta resolver um problema comum para artistas em início de carreira. Quando um artista assina um contrato longo sem ainda ter força de negociação, pode ficar preso por anos a percentuais baixos. Se a música cresce, o contrato não acompanha a nova realidade. Se a música não cresce, o artista pode ficar parado dentro de uma estrutura que não investe mais nele.
O cantor faz questão de dizer que não está se posicionando contra as gravadoras. Ele reconhece que uma empresa faz investimento e precisa de retorno. Mas, como artista, diz ter pensado em um modelo que não coloque novos nomes em uma posição de dependência tão longa.
“Se esse cantor estoura uma música e ele já vira um artista relevante, ele vai ainda ter que viver dez anos, nove, oito, com um percentual pequeno de royalties, porque ele não tem poder de negociação. Por outro lado, se ele não estoura nenhuma música nos primeiros dois, três anos, a gravadora bota ele numa geladeira. Ele não pode assinar com ninguém. A gravadora não grava mais ele e ele fica preso por dez anos nessa gravadora”, pontua.
A Rocket, portanto, não se coloca apenas como uma nova marca no gospel, mas como uma tentativa de mexer na relação entre artista iniciante, investimento e liberdade contratual. Esse ponto pode ser um diferencial importante em um mercado em que muitos talentos chegam ainda sem equipe, sem repertório testado e sem conhecimento jurídico ou estratégico.
Marketing digital no centro da operação
Além do modelo contratual, Ton aponta o marketing digital como o motor da Rocket. A gravadora nasce com estrutura de conteúdo, gravação, produção musical, vídeo, tráfego, automação e relacionamento com plataformas como Spotify, Deezer e Amazon Music.
Na avaliação dele, o artista atual não depende apenas de cantar bem ou ter uma boa música. É preciso saber lançar, testar comunicação, criar conteúdo, entender plataforma e manter consistência depois do primeiro pico de atenção.
“Nós somos especializados em marketing digital. Eu tenho até um curso de canto, de técnica vocal, em que a gente usa muito isso. E essa expertise, que é a expertise hoje que faz com que o artista estoure, é o marketing digital. Não é mais igual lá atrás”, avalia.
Ton compara esse cenário ao período em que a rádio era o grande termômetro de sucesso. Hoje, uma música pode crescer por redes sociais, playlists, vídeos curtos, campanhas pagas e comunidades digitais. Por isso, a Rocket pretende oferecer um pacote mais completo, do estúdio ao lançamento.
“Hoje é automação. É tráfego. É estratégia de lançamento. A gente tem estúdio para criação de conteúdo, estúdio de gravação, produção, produção de vídeo, marketing digital e relacionamento com as lojas. Todo esse suporte a gente vai ter para que o artista e a música dele estourem, alcancem mais pessoas.”
Essa fala toca em um ponto central do mercado brasileiro: a profissionalização de artistas que nascem nas redes sociais. Muitos já têm público, mas não têm equipe. Muitos viralizam, mas não sabem como transformar isso em catálogo. Muitos lançam, mas não têm estratégia para sustentar o interesse depois da primeira música.
Gospel e descentralização
A criação da Rocket também entra em uma discussão maior sobre o mercado gospel. Durante muito tempo, o segmento teve forte concentração em poucas gravadoras, rádios e canais de visibilidade. Ton reconhece essa história, mas avalia que o cenário já mudou bastante, especialmente com a entrada de majors, distribuidoras e novas estruturas independentes no segmento.
Segundo ele, o gospel não está mais restrito às gravadoras gospel. Além de empresas como MK Music, Musile Records e OniMusic, companhias como Sony Music, Universal Music, Warner Music, The Orchard e a própria Som Livre passaram a ter artistas cristãos em seus catálogos.
Mesmo com essa abertura, Ton defende a criação de mais estruturas independentes. Para ele, a descentralização aumenta as possibilidades para artistas novos, reduz gargalos e cria caminhos fora dos poucos centros tradicionais de decisão.
“Eu acho muito bom descentralizar, porque nenhum monopólio é bom. O monopólio encarece, dá menos oportunidade, dificulta para quem está começando. Então eu acho muito bom descentralizar. Artistas têm que conseguir ter uma carreira independente ou dentro de gravadora.”
Essa defesa da descentralização se conecta à inspiração que Ton cita para a Rocket: Jay-Z e a Roc-A-Fella Records. Guardadas as proporções, o cantor vê no rapper e empresário americano um exemplo de artista que criou uma estrutura para abrir portas a nomes que talvez não tivessem espaço imediato nas grandes empresas.
No caso da Rocket, a ambição é olhar para artistas que ainda não aparecem nos indicadores mais tradicionais da indústria, mas já demonstram potencial em redes sociais.
“Como as gravadoras estão cheias, o casting está muito robusto, às vezes elas não conseguem enxergar um cara que está viralizando os vídeos dele no TikTok e no Instagram, ele cantando. Ela não enxerga isso porque só olha o número que tem no Spotify.”
Uma nova função dentro da carreira de Ton Carfi
A Rocket Music Brazil coloca Ton Carfi em uma função que vai além da carreira artística. Ele segue como cantor, mas passa a atuar também como empresário, curador e operador de mercado. Depois de duas décadas construindo repertório, público e relacionamento com a indústria, ele tenta usar essa bagagem para desenvolver artistas em uma fase anterior à consolidação.
Esse movimento é importante porque o gospel brasileiro vive uma fase de maior presença nas plataformas, nos eventos, nas redes sociais e nas grandes gravadoras. Ao mesmo tempo, ainda há espaço para novas estruturas de descoberta, principalmente para artistas fora dos grandes centros, sem equipe profissional ou sem números suficientes para chamar atenção das companhias maiores.
Ao encerrar o ciclo com a Som Livre, Ton Carfi não abandona a lógica de gravadora. Ele cria a própria versão dela, com menos dependência, mais foco em marketing digital e uma leitura direta das mudanças no consumo de música. A Rocket ainda terá que provar sua força no mercado, mas nasce com uma tese clara: o próximo artista relevante pode não estar nas plataformas ainda. Pode estar em um vídeo, em uma igreja, em um perfil pequeno ou em uma comunidade que a indústria ainda não olhou de perto. E é justamente nesse ponto cego do mercado que Ton Carfi quer posicionar a Rocket Music Brazil: antes do hype, antes dos números e antes da disputa das grandes gravadoras.
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