Morre Luiz Carlini, guitarrista de Rita Lee e fundador do Tutti Frutti, aos 73 anos

Luiz Carlini marcou o rock brasileiro com o Tutti Frutti, gravou mais de 400 discos e criou solos ligados à obra de Rita Lee.
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Nathália Pandeló
Luiz Carlini
Luiz Carlini (Crédito: Divulgação)

Luiz Carlini, um dos guitarristas mais conhecidos do rock brasileiro, morreu nesta quinta-feira, 7 de maio, aos 73 anos, em São Paulo. A informação foi confirmada pelo perfil oficial do músico nas redes sociais. A causa da morte não foi divulgada.

O velório e o enterro acontecem nesta sexta-feira, 8 de maio, no Cemitério da Lapa, na Zona Oeste da capital paulista, entre 12h e 16h30. A notícia mobilizou fãs, músicos e artistas que acompanharam a trajetória de Carlini desde os anos 1970, quando ele se tornou uma peça central na fase roqueira de Rita Lee após a saída dela de Os Mutantes.

Nascido em São Paulo e criado na Pompeia, bairro com forte presença na história do rock paulistano, Carlini começou a circular pela música ainda jovem. Antes de assumir o protagonismo nos palcos, trabalhou como roadie dos Mutantes e acompanhou de perto uma cena que ajudaria a moldar sua própria carreira. Pouco depois, virou um dos nomes por trás do Tutti Frutti, banda que teve papel decisivo em uma das fases mais populares de Rita.

O guitarrista que ajudou a moldar a fase roqueira de Rita Lee

A parceria entre Luiz Carlini e Rita Lee ganhou força nos anos 1970, quando o guitarrista liderou o Tutti Frutti, grupo que acompanhou a cantora em discos e shows após sua saída dos Mutantes. O encontro marcou um ponto de virada para a artista, que passou a se aproximar de uma sonoridade mais direta, elétrica e ligada ao rock.

Carlini esteve ligado a registros que atravessaram gerações, especialmente o álbum “Fruto Proibido”, lançado em 1975. O disco reúne faixas como “Ovelha Negra” e “Agora Só Falta Você”, duas músicas que seguem entre as mais lembradas da carreira de Rita. Em “Ovelha Negra”, o solo de guitarra ao fim da gravação original se tornou uma assinatura sonora de Carlini e um dos momentos mais citados da história do rock nacional.

Além de guitarrista, ele também assinou composições em parceria com Rita. Entre os créditos estão “Agora Só Falta Você”, “Lá Vou Eu”, “Com a Boca no Mundo” e “Corista de Rock”. Esse lado autoral ajuda a explicar por que Carlini não ficou lembrado apenas como músico de apoio, mas como parte ativa da construção artística daquele período.

A força dessa fase está justamente na combinação entre canções populares, atitude de palco e arranjos de guitarra que deram peso à obra de Rita Lee sem tirar sua identidade pop. Para o público geral, Carlini talvez seja mais lembrado pelos solos. Para o mercado musical, porém, seu nome também aparece como arranjador, compositor, diretor musical e músico de estúdio.

Mais de 400 discos e uma presença constante no rock brasileiro

Depois do fim do Tutti Frutti, no início dos anos 1980, Luiz Carlini seguiu como um dos guitarristas mais requisitados do país. Ao longo da carreira, participou de mais de 400 discos, número que mostra sua presença em diferentes fases da música brasileira e ajuda a medir sua importância além da parceria com Rita Lee.

O músico trabalhou com nomes como Erasmo Carlos, Guilherme Arantes, Titãs, Barão Vermelho, Supla, Lobão, Marcelo Nova, Camisa de Vênus, As Frenéticas e Vanguart. Também colaborou com Eric Burdon, vocalista britânico do The Animals, sinal de como sua guitarra circulou por repertórios e gerações diferentes.

Essa trajetória fez de Carlini uma referência para músicos que vieram depois, sobretudo dentro do rock brasileiro. Em 2012, a Rolling Stone Brasil o incluiu na lista dos 30 maiores ícones da guitarra no país, reconhecimento que consolidou uma imagem já presente entre guitarristas, produtores e fãs do gênero.

Antes da internação, Carlini seguia na ativa e integrava a turnê “50 Anos-Luz”, de Guilherme Arantes. A presença nos palcos até os últimos anos mostra como sua carreira não ficou presa à memória dos anos 1970. Ele continuou atuando em shows, discos e projetos, mantendo contato com diferentes públicos.

Um nome ligado à memória afetiva do rock nacional

Luiz Carlini (Crédito: Stephanie Veronezzi)
Luiz Carlini (Crédito: Stephanie Veronezzi)

A morte de Luiz Carlini ocorre em uma semana marcada por perdas importantes para a música brasileira. Poucos dias antes, o produtor e diretor musical Guto Graça Mello também morreu, aos 78 anos. No caso de Carlini, a comoção tem um peso especial entre fãs de rock, porque sua guitarra está associada a gravações que fazem parte da memória afetiva de várias gerações.

No Brasil, onde muitas vezes os instrumentistas ficam menos visíveis do que os intérpretes, Carlini foi uma exceção. Seu nome circulava com força entre músicos e ouvintes justamente porque seus solos eram reconhecíveis, mesmo por quem não acompanhava os créditos técnicos dos discos. Esse é um ponto raro: quando a guitarra deixa de ser apenas parte do arranjo e passa a ser lembrada como personagem da música.

A ligação com Rita Lee será sempre uma das marcas centrais de sua carreira, mas não resume tudo. Carlini atravessou décadas de estúdio, palco e parcerias, ajudou a dar corpo ao rock brasileiro em um momento de afirmação do gênero no país e seguiu trabalhando com artistas de diferentes estilos.

Com sua morte, o rock brasileiro perde um músico que esteve nos bastidores e no centro de alguns de seus momentos mais conhecidos. Luiz Carlini deixa uma obra espalhada por centenas de gravações, por canções que seguem no repertório popular e por uma escola de guitarra que ajudou a definir o som de uma época.

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