A presença de profissionais negros nos espaços decisórios da música continua desproporcional, mesmo em um setor profundamente marcado por referências e contribuições da cultura preta. Os números mais recentes mostram que a estrutura de liderança avança de forma lenta, enquanto os debates sobre representatividade racial ganham força dentro e fora do mercado.
O cenário brasileiro também evidencia essa distância. Embora artistas pretos tenham papel histórico na formação estética da música no país, e mesmo com o crescimento de gêneros ligados a essa herança, a visibilidade e o alcance desse repertório ainda não se traduzem de maneira equilibrada em festivais, plataformas e equipes de bastidores. A data de 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, intensifica essa reflexão, ao lembrar que a participação preta na indústria não acompanha a centralidade de sua contribuição cultural.
O retrato internacional da liderança musical

O relatório internacional produzido pela Annenberg Inclusion Initiative avaliou 106 empresas da indústria musical, incluindo gravadoras, editoras, distribuidoras e grupos de entretenimento. O estudo analisou 2.793 executivos a partir do nível de vice-presidência e constatou que os cargos mais altos continuam altamente concentrados em um único perfil.
Entre CEOs e presidentes das 37 maiores companhias avaliadas, apenas 7,9 por cento pertenciam a grupos raciais ou étnicos sub-representados. Dentro desse recorte, mulheres não brancas ocupavam somente 5,3 por cento das posições. Homens brancos compunham 84,2 por cento dessas funções, indicando pouca mudança desde 2021, quando o estudo realizou uma edição anterior.
Nos níveis logo abaixo da presidência, como vice-presidências, diretorias gerais e cargos de chefia, a diversidade aumenta, mas permanece limitada. Pessoas de grupos sub-representados ocupavam 22,9 por cento dos cargos e mulheres, 38,7 por cento. Mulheres negras apareciam em apenas 10 por cento do total. Esses números mostram que as posições de decisão permanecem distantes da pluralidade que caracteriza a criação musical contemporânea.

Mercado brasileiro e sua desconexão estrutural
No Brasil, onde 55,5 por cento da população se declara preta ou parda, a desigualdade nos bastidores da música é percebida de forma ainda mais direta. A presença negra domina gêneros como samba, pagode, funk, rap e R&B, mas as equipes responsáveis por curadoria, produção, marketing e direção continuam formadas majoritariamente por pessoas brancas, principalmente quando se considera estruturas mais tradicionais da indústria.
Grandes festivais apresentam line-ups que valorizam artistas pretos, mas as decisões de programação, contratação e estrutura permanecem sendo tomadas por equipes pouco diversificadas. Plataformas digitais, agências e selos independentes apresentam caminhos mais diversos, porém o impacto ainda não alcança a estrutura de poder das grandes empresas do setor.
Essa distância revela um cenário em que a força cultural e comercial da música de origem preta não se traduz automaticamente em representatividade nos espaços onde as decisões são tomadas.

A gerente de parcerias com artistas e gravadoras no Spotify no Brasil, Luciana Paulino, observa que essa realidade aparece tanto no catálogo quanto nas equipes que fazem o mercado girar.
“A diversidade é uma das maiores riquezas da música brasileira, e vemos cada vez mais artistas pretos e não-brancos ocupando espaços de destaque e influenciando tendências. No entanto, ainda existe um desafio quando olhamos para os bastidores, equipes, gestão e tomada de decisão. No Spotify, trabalhamos para mudar esse cenário com iniciativas como o EQUAL, que amplifica vozes femininas, e o Amplifika, que celebra e dá visibilidade à cultura negra e seus criadores. Essas ações reforçam nosso compromisso em garantir que a representatividade não se limite ao palco, mas também esteja presente nas estruturas que definem estratégias e oportunidades.”
Avanços e limites

A diretora de A&R Mariana Abreu, do selo Sony Music Brasil, acompanha essa transformação há mais de uma década e observa mudanças importantes na entrada de novos profissionais.
“O panorama de consumo musical mostra que queremos estar cada vez mais próximos de quem somos, um país em que pessoas negras representam 55,5 por cento da população.”
Mariana destaca a adoção de iniciativas internas no setor.
“Na própria Sony Music Brasil, foi implementado um programa de contratação voltado para aumentar o quadro de estagiários e funcionários negros. Sabemos que ingressar pela primeira vez no setor fonográfico pode ser um desafio, por isso ter esse programa de inclusão no momento da contratação é uma porta de entrada fundamental para que pessoas negras tenham a oportunidade de construir uma carreira na indústria da música.”
Ela também aponta a necessidade de continuidade para superar barreiras que persistem nos cargos de maior responsabilidade.
“Ainda é visível que a maior parte dos cargos de liderança no setor é ocupada por pessoas brancas, fato que ressalta a importância de manter e estimular a implementação de programas de contratação e desenvolvimento de profissionais negros.”
Mariana reforça que profissionais em posições de liderança podem contribuir diretamente para aumentar essas oportunidades.
“Como líder do setor, entendo também minha responsabilidade de dar cada vez mais visibilidade e oportunidade a outros profissionais negros que desejam se desenvolver e alcançar posições de liderança.”
O relato de Luciana reforça que as mudanças visíveis na superfície ainda não se traduzem de forma consistente nas estruturas de liderança.
“Avançamos em termos de visibilidade e valorização de artistas pretos, com movimentos que ampliaram narrativas e abriram espaço para diferentes gêneros e vozes. Também vemos mais discussões sobre inclusão nas empresas, o que é positivo. No Spotify, temos ações internas de treinamento em diversidade, grupos de afinidade e políticas para ampliar oportunidades. Mas ainda há um desafio na indústria da música e estamos trabalhando para mudar. Isso exige alterar políticas, programas de desenvolvimento e um compromisso real das organizações para transformar a cultura e criar oportunidades equitativas.”
Caminhos para incorporar diversidade aos espaços de decisão
O estudo internacional aponta direções que também fazem sentido para o mercado brasileiro. Entre elas estão critérios claros e mensuráveis para promoções, trilhas de desenvolvimento acessíveis e políticas voltadas para realidades locais.
No Brasil, a porta de entrada se tornou mais ampla graças a iniciativas de contratação focada e projetos de formação profissional. O desafio agora está em garantir continuidade nessa trajetória, criando ambientes onde talentos negros tenham acesso a funções estratégicas e possam influenciar diretamente a forma como a música é produzida, distribuída e apresentada ao público.
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