O reggaeton vive um paradoxo curioso no Brasil. Enquanto domina rankings em vários países da América Latina, por aqui o gênero ainda circula de forma mais nichada. Mesmo assim, os números mostram que o consumo está avançando em modo acelerado – tal como o ritmo portorriquenho.
Dados divulgados pelo Spotify indicam que o reggaeton cresceu 38% na plataforma no Brasil em 2025. O aumento revela que, embora o ritmo ainda esteja longe de competir com gêneros locais como funk e sertanejo nos rankings gerais, existe uma audiência crescente que vem impulsionando sua presença no país.
Outro indicador que ajuda a entender esse movimento é o desempenho de artistas internacionais. No caso de Bad Bunny, um dos nomes mais populares do gênero no mundo, os streams no Brasil subiram 340% nos últimos 28 dias, segundo a plataforma. O salto reforça a ideia de que o interesse do público brasileiro pelo som latino está aumentando.
Apesar disso, o cenário brasileiro ainda é bem diferente do restante da região. Afinal, não dá para perder de vista o contexto dos shows de Bad Bunny no Brasil, logo após um Super Bowl altamente midiático, que também impulsionou o som latino para muito além do futebol americano.
Um fenômeno dominante na América Latina

Em boa parte da América Latina, o reggaeton deixou de ser um movimento alternativo para se tornar um fenômeno dominante da indústria musical. Nas plataformas digitais, o gênero lidera rankings de consumo em vários países.
Segundo dados do Spotify, o reggaeton é atualmente o gênero mais ouvido em países como Bolívia, Colômbia, Chile, Peru, Equador, Paraguai, Nicarágua e El Salvador. No México, embora não lidere de forma absoluta, o estilo cresce rapidamente entre o público jovem.
Essa presença massiva também ajuda a explicar o impacto global de artistas latinos nos últimos anos. Nomes como Karol G, Rauw Alejandro, Kali Uchis e o próprio Bad Bunny se consolidaram entre os artistas mais ouvidos do mundo, levando o som urbano latino para públicos muito além da região. Tanto que todos estes estiveram no Brasil, liderando os próprios shows ou como atrações de destaque em festivais como Lollapalooza e Rock in Rio.
O alcance internacional do gênero também se reflete nas turnês e nos grandes shows. Cada vez mais artistas latinos passam a incluir o Brasil em suas agendas, percebendo que existe um público interessado e em expansão.
No Brasil, o consumo acontece de outra forma

Mesmo com os números de crescimento, o reggaeton ainda não aparece entre os dez gêneros mais ouvidos no Brasil. Isso não significa necessariamente ausência de público, mas sim uma dinâmica de consumo diferente.
Por aqui, o gênero tende a circular em comunidades específicas, festas temáticas e playlists especializadas. O público costuma ser formado por fãs que acompanham a cultura latina de perto, além de comunidades de imigrantes e pessoas conectadas com esse universo cultural.
Essa característica faz com que o reggaeton seja muitas vezes percebido como parte de uma cena alternativa. Em vez de dominar rádios e rankings nacionais, ele ganha força em espaços culturais e eventos dedicados ao estilo.
Nos últimos anos, festas voltadas ao reggaeton passaram a se multiplicar no país, especialmente após a pandemia. Eventos como SÚBETE, em São Paulo, LatinoBREGARAVE, em Minas Gerais, Vacilo, no Amazonas, e ROMPIENDO, no Rio de Janeiro, ajudam a reunir fãs e manter a cena ativa.
Esses espaços funcionam como pontos de encontro para uma comunidade que cresce de forma orgânica, conectando música, dança e cultura latino-americana.
Artistas brasileiros também experimentam o gênero

O crescimento do reggaeton no Brasil também pode ser percebido na produção local. Mesmo sem dominar os charts, o ritmo já aparece em lançamentos de artistas brasileiros que dialogam com a estética latina.
Entre exemplos recentes estão faixas como “Piriguete”, de MC Papo, “Vidigal”, de Wiu, “Kolon”, de Carlos do Complexo, “Que Pecado!”, de Carol Biazin com Ebony, e “Habla Comigo”, de MC Maneirinho com Maru 2D.
Outro caso emblemático é “Envolver”, de Anitta, que levou o reggaeton brasileiro a um público global e chegou ao topo do ranking mundial do Spotify em 2022. O sucesso da faixa mostrou que artistas do país conseguem dialogar com o gênero de forma competitiva no cenário internacional.
Esse movimento aponta para um possível caminho de crescimento do estilo no Brasil: a mistura com sonoridades locais. Assim como o funk e o pop brasileiros se reinventaram ao longo dos anos, o reggaeton pode ganhar novas formas ao se cruzar com ritmos nacionais.
Um mercado em transformação
O avanço do reggaeton no Brasil acontece em um momento em que o mercado musical latino vive forte expansão global. Plataformas de streaming, redes sociais e colaborações internacionais têm ajudado a derrubar barreiras linguísticas e culturais.
Mesmo que ainda esteja distante do topo dos rankings brasileiros, o crescimento de 38% no Spotify mostra que existe um público interessado e cada vez mais ativo.
Somado ao aumento expressivo de streams de artistas como Bad Bunny, o cenário indica que o reggaeton pode ganhar espaço gradualmente no país. Não necessariamente replicando o domínio que tem em outros mercados latinos, mas encontrando caminhos próprios dentro da diversidade musical brasileira – uma que muitos insistem em classificar como incipiente para a música em espanhol. O momento atual indica que esse cenário pode estar mudando, aos poucos.
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