A inteligência artificial deixou de ser meramente uma promessa tecnológica e passou a ocupar espaço concreto nos hábitos de escuta. Uma nova edição da pesquisa anual de consumo de áudio do Morgan Stanley indica que mais da metade dos jovens adultos nos Estados Unidos consome, semanalmente, músicas geradas por IA.
É a primeira vez que o levantamento inclui perguntas específicas sobre esse tipo de conteúdo. Segundo os analistas do banco, os resultados surpreenderam: entre 50% e 60% dos entrevistados de 18 a 44 anos afirmaram ouvir músicas feitas com inteligência artificial, dedicando de 2,5 a 3 horas por semana a esse consumo.
Os números ajudam a entender por que o debate sobre IA na música ganhou tração em 2025 e entrou de vez na agenda de gravadoras, plataformas e investidores. O consumo já existe, acontece em volume relevante e, em grande parte, fora do circuito tradicional do streaming.
Geração mais jovem concentra maior volume de escuta
O recorte etário mostra diferenças claras. Entre os entrevistados de 18 a 29 anos, 60% disseram ouvir músicas geradas por inteligência artificial, com média de três horas semanais. No grupo de 30 a 44 anos, o percentual cai para 55%, com cerca de 2,5 horas por semana. Já entre pessoas de 45 a 64 anos, apenas 25% relataram esse hábito, com média de 1,1 hora.
Para dar dimensão ao dado, o próprio relatório faz uma comparação simples: três horas correspondem, aproximadamente, à duração do filme “Avatar”. Ou seja, não se trata de um contato pontual ou curioso, mas de um tempo de escuta que já disputa espaço com artistas, álbuns e playlists tradicionais.
A leitura do mercado é que públicos mais jovens tendem a encarar com naturalidade conteúdos criados por algoritmos. Para esse grupo, o fator decisivo costuma ser o contexto em que a música aparece, e não necessariamente quem, ou o que, a produziu.
YouTube e TikTok concentram esse consumo

Outro ponto central do estudo é onde essas músicas estão sendo ouvidas. De acordo com o Morgan Stanley, YouTube e TikTok são as principais fontes de consumo de músicas criadas por inteligência artificial.
Esse dado ajuda a explicar a aparente contradição com números divulgados por serviços de streaming. A Deezer, por exemplo, informou que faixas totalmente geradas por IA já representam 34% dos novos uploads na plataforma. Ainda assim, esse conteúdo responde por apenas 0,5% do total de streams, sendo que até 70% dessas execuções são consideradas fraudulentas, feitas por bots.
Na prática, isso indica que a escuta humana desse tipo de música é baixa dentro do streaming tradicional. O consumo acontece majoritariamente em ambientes de vídeo e redes sociais, onde as trilhas sonoras funcionam como apoio para vídeos curtos, memes e outros formatos, muitas vezes sem identificação clara de autoria.
Leitura financeira vê IA como fator estrutural
Além dos hábitos de escuta, o relatório traz uma análise sobre impactos no mercado financeiro. Os analistas do Morgan Stanley mantêm uma visão otimista sobre o Spotify, apontando a inteligência artificial como base da próxima fase de personalização da plataforma a partir de 2026.
Segundo o banco, a combinação entre escala global, histórico de inovação e uso avançado de aprendizado de máquina coloca o Spotify em posição favorável para transformar a IA em vantagem competitiva, especialmente na curadoria e recomendação de conteúdo.
No caso do Warner Music Group, a análise é mais cautelosa. O relatório aponta que o crescimento da música gerada por algoritmos pode valorizar catálogos consolidados, vistos como ativos escassos, ao mesmo tempo em que cria concorrência adicional para lançamentos recentes.
Ainda assim, o banco destaca como movimento relevante a parceria da Warner com a Suno, voltada à monetização de conteúdos criados com inteligência artificial. Para os analistas, parte dos riscos associados à tecnologia já estaria refletida no desempenho das ações da companhia em 2025.
Um hábito que cresce fora do radar tradicional
O principal recado do estudo é que a inteligência artificial já faz parte da rotina musical de uma parcela expressiva do público jovem, mesmo que isso ainda não apareça com força nos relatórios de streaming pagos. O fenômeno se desenvolve fora dos modelos tradicionais de distribuição, em plataformas onde a música circula de forma fragmentada e contextual.
Para a indústria, o desafio passa a ser entender como capturar valor desse consumo, lidando ao mesmo tempo com direitos autorais, transparência e modelos de remuneração. Para artistas, editoras e gravadoras, o cenário indica que a disputa pela atenção do público já inclui conteúdos criados por máquinas, ainda que o impacto econômico direto siga concentrado fora do streaming.
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