Não é novidade que a inteligência artificial (IA) virou personagem central do debate sobre o futuro da música global. O que chama atenção, no caso da China, é a velocidade e a escala dessa incorporação. Dados divulgados pelo jornal estatal People’s Daily indicam que 56,9% das músicas independentes lançadas no país no primeiro trimestre de 2025 foram geradas por inteligência artificial.
O dado aparece quase como informação lateral em um artigo mais amplo sobre o papel da IA na indústria musical chinesa. Em vez de ser tratado como alerta ou ponto de tensão, surge como parte de um panorama de transformação tecnológica já em curso. A reportagem foca em ganhos de eficiência, redução de custos e novas possibilidades criativas.
Esse enquadramento ajuda a entender como a discussão sobre IA na música assume contornos distintos conforme o mercado. Em novembro de 2025, por exemplo, a plataforma francesa Deezer estimava que cerca de 34% das músicas enviadas diariamente ao serviço já eram totalmente geradas por IA. Na Europa, esse tipo de dado costuma aparecer associado a debates sobre identificação de conteúdo, direitos autorais e impactos no ecossistema criativo.
IA como parte de uma estratégia industrial mais ampla
No contexto chinês, a IA é apresentada como um elemento integrado a uma estratégia de desenvolvimento tecnológico e industrial. No China Musical Techno Base, em Hangzhou, músicos e técnicos utilizam ferramentas de inteligência artificial em todas as etapas do processo de produção musical, da composição à finalização dos vocais.
Segundo Ma Zhiyong, diretor de operações do espaço, o objetivo não é eliminar a criação humana, mas reorganizar fluxos de trabalho e tornar a produção mais acessível.
“Na minha visão, a IA não foi criada para substituir a arte musical. Ela está abrindo possibilidades infinitas para a música.”
Antes da adoção dessas ferramentas, produzir uma única faixa podia custar entre 30 mil e 50 mil yuans. Com o uso de IA, esse valor caiu de forma expressiva, o que ajuda a explicar o crescimento da produção independente em larga escala. A tecnologia passa a funcionar como um facilitador de acesso, especialmente para criadores fora dos grandes centros ou sem estrutura tradicional de estúdio.
Essa abordagem dialoga com a visão defendida por Dai Qionghai, presidente da Associação Chinesa de Inteligência Artificial, para quem a integração entre música e tecnologia é um processo esperado dentro da evolução do setor.
Tencent Music e a criação em escala

Um dos principais vetores dessa transformação é a Tencent Music Entertainment Group. Durante a World Internet Conference 2025, a empresa apresentou seu sistema de criação musical por IA, capaz de gerar uma música completa em poucos minutos a partir de imagens, textos ou comandos conversacionais.
De acordo com Wu Bin, diretor do Lyra Lab da companhia, a tecnologia já alcançou um estágio de maturidade compatível com o uso cotidiano por diferentes perfis de usuários.
“Atualmente, a tecnologia de geração musical por IA na indústria da música é relativamente madura, capaz de criar obras completas de forma rápida e conveniente, com um nível geral alto de satisfação dos usuários.”
Os números ajudam a dimensionar esse movimento. Mais de 10 milhões de pessoas já utilizaram as ferramentas de criação da Tencent Music, gerando mais de 26 milhões de faixas, que somam mais de 1 bilhão de execuções nas plataformas do grupo.
Além da criação, a IA também aparece no consumo. O QQ Music passou a usar modelos de linguagem para refinar recomendações, cruzando dados de áudio, letras e histórico de escuta para sugerir músicas de acordo com o perfil e o momento do usuário.
Diferenças de abordagem
Em mercados ocidentais, a discussão sobre IA na música tende a se concentrar em temas regulatórios, transparência e remuneração. Na China, o foco recai mais sobre integração tecnológica, eficiência produtiva e formação de novos profissionais para um setor já transformado.
Esse movimento também chega à educação. Desde 2019, conservatórios como o Central Conservatory of Music e o Shanghai Conservatory of Music criaram cursos voltados à interseção entre música e inteligência artificial, sinalizando que o mercado passa a demandar novas competências.
Isso não significa ausência de questionamentos. Especialistas chineses defendem a criação de diretrizes mais claras sobre direitos autorais, uso de dados e divisão de receitas. A diferença é que essas discussões ocorrem com a IA já incorporada ao funcionamento do setor, e não como uma possibilidade futura.
Mais do que um dado isolado, os 56,9% indicam que a China já opera, na prática, em um cenário onde a inteligência artificial deixou de ser exceção e passou a ocupar um papel estrutural na produção musical independente.
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