No Dia Mundial do Compositor, autores falam ao Mundo da Música sobre desafios para 2026

Dados globais ajudam a dimensionar a realidade econômica da categoria, enquanto compositores brasileiros refletem sobre direitos e reconhecimento.
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Nathália Pandeló
João Ferreira e Fernanda Takai falam sobre o Dia do Compositor
João Ferreira e Fernanda Takai falam sobre o Dia Mundial do Compositor (Crédito: Divulgação)

O Dia Mundial do Compositor, celebrado a cada 15 de janeiro, chega em um momento de contraste para a indústria da música. Em 2026, o consumo global segue em alta, impulsionado pelo streaming, mas a sustentabilidade financeira de quem escreve as canções continua sendo um ponto sensível. Pesquisas recentes mostram que a maioria dos compositores ainda enfrenta dificuldades para transformar criação em renda estável.

Segundo o relatório “Music Creators’ Earnings Gap”, publicado pela CISAC, a distância entre o crescimento do mercado musical e a renda efetiva de compositores e autores segue aumentando, especialmente na era do streaming. O estudo analisa dados de sociedades autorais em mais de 30 países e aponta que a maior parte do crescimento da receita global não chega proporcionalmente a quem cria as obras.

O levantamento mostra que os direitos autorais pagos a compositores crescem em ritmo mais lento do que o faturamento geral da indústria e menos de 15% deles conseguem viver exclusivamente da composição musical. Em termos práticos, isso significa que mesmo com mais consumo de música, a renda média da categoria permanece pressionada, com forte concentração em um número reduzido de catálogos de alto desempenho.

Criação no centro, remuneração nas bordas

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Os dados ajudam a explicar por que o debate sobre reconhecimento do compositor voltou a ganhar força. Para além da renda, os relatórios da CISAC apontam uma assimetria estrutural entre quem cria as obras e os agentes que concentram visibilidade, poder de negociação e acesso aos grandes fluxos de receita da indústria.

Essa percepção também aparece na percepção de João Ferreira, compositor da Warner Chappell Music Brasil e primeiro brasileiro indicado ao prêmio de Melhor Compositor no Latin Grammy. Ao falar sobre o momento da classe, João destaca a importância do fortalecimento coletivo e do reconhecimento cultural do compositor brasileiro, temas que dialogam diretamente com os alertas feitos pelos estudos internacionais.

“Um feliz 2026 para todo mundo e especialmente para os compositores. Que a gente continue nessa busca por palavras bonitas, frases que fazem sentido pra gente e para outras pessoas, melodias e harmonias maravilhosas, e que nesse e nos próximos anos a nossa classe se fortaleça, a gente consiga ter trocas entre todos nós, que o compositor brasileiro seja cada vez mais reconhecido. Eu acho que a gente tem uma cultura muito rica e a gente carrega ela nas nossas mãos agora também, enquanto compositores dessa geração atual. Então, eu desejo que a gente absorva e catalise tudo que já aconteceu para novas coisas, para que a gente mantenha e enriqueça ainda mais a música brasileira, que é essa coisa tão linda que a gente é apaixonado.”

Streaming aumenta o alcance, mas não resolve a equação

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Crédito: Pavel Danilyuk

O crescimento do streaming, documentado anualmente nos relatórios da IFPI, elevou o alcance da música e transformou hábitos de consumo em escala global. Ainda assim, o relatório “Rebalancing the Song Economy”, da MIDiA Research, mostra que a divisão de receita no ambiente digital segue desfavorável aos compositores.

O estudo aponta que, mesmo com aumento do consumo, a participação autoral cresce em ritmo inferior ao do mercado como um todo. Isso explica por que a maioria dos compositores precisa combinar direitos autorais com outras atividades, como produção musical, aulas, shows ou trabalhos paralelos.

Nesse contexto, a fala de João Ferreira sobre troca entre compositores e fortalecimento da classe ganha um sentido prático. Os dados indicam que redes colaborativas, editoras estruturadas e acesso a mercados internacionais seguem sendo fatores decisivos para reduzir a vulnerabilidade econômica da profissão.

A indicação de João Ferreira ao Latin Grammy funciona como um marco simbólico, mas também expõe o contraste entre reconhecimento artístico e realidade estrutural. O compositor assina canções que alcançaram grande circulação, como “Flores da Rua”, gravada por Samuel Rosa, “Água-Viva”, em parceria com Ana Caetano, além de colaborações com Vitor Kley e Lagum.

Ainda assim, os relatórios internacionais deixam claro que trajetórias bem-sucedidas convivem com um cenário em que a maioria dos compositores permanece distante de estabilidade financeira. O desafio, portanto, não é apenas individual, mas estrutural.

Inteligência artificial destaca a tensão sobre direitos

inteligência artificial processo, UMG

Além das questões históricas de remuneração, a inteligência artificial aparece como um novo eixo de preocupação para 2026. Um estudo econômico da CISAC alerta para o risco de impacto relevante na renda autoral caso o uso de obras humanas no treinamento de sistemas de IA continue sem licenciamento adequado.

Essa apreensão é compartilhada por Fernanda Takai, cantora, compositora e diretora vogal da UBC, que conecta o avanço tecnológico à necessidade permanente de vigilância sobre direitos.

“O ano de 2026 começa com o grande desafio de mantermos nossos direitos reconhecidos e respeitados, já que a ampliação do uso da inteligência artificial se mostra evidente. Isso não significa ficarmos desanimados, afinal esse papel nunca foi simples. Espero que as compositoras mostrem cada vez mais sua força e novas parcerias sejam feitas pra multiplicar o talento das mulheres, amplificado em belas canções.”

Organização, troca e futuro da composição

Compositor 3, Udio, UCNA
Crédito: Cottobro Studio

Os relatórios internacionais e as falas dos compositores convergem em alguns pontos centrais: fortalecimento coletivo, atualização das regras de direitos autorais e maior presença dos autores nos debates regulatórios e institucionais. A preocupação com inteligência artificial se soma a desafios antigos, como distribuição de receita e reconhecimento profissional.

Entre dados, depoimentos e análises, o Dia Mundial do Compositor de 2026 expõe um cenário em que a criação segue sendo o ponto de partida da indústria da música, mas ainda distante de uma remuneração equilibrada. O desafio colocado para os próximos anos é transformar esse protagonismo criativo em condições mais justas para quem escreve as canções.

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