Antares lança novo AutoTune que preserva vibrato dos cantores durante correção de afinação
Nova versão do AutoTune identifica o vibrato do cantor para evitar que a correção de afinação elimine movimentos intencionais da interpretação.
Por Nathália Pandeló··4 min de leitura·
A Antares Audio Technologies lançou uma nova geração do AutoTune que tenta enfrentar uma questão presente na produção musical desde que a correção digital de afinação se popularizou: como ajustar uma voz sem apagar características da interpretação do cantor. O AutoTune Advanced estreia um sistema capaz de identificar o vibrato natural e preservá-lo durante o processamento.
A mudança é relevante porque mexe justamente em um dos limites mais discutidos desse tipo de tecnologia. As ferramentas de afinação conseguem corrigir pequenas imprecisões ou transformar completamente uma voz, mas uma intervenção mais intensa também pode eliminar oscilações que não são erros. São movimentos intencionais que fazem parte da maneira como determinado artista canta.
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É nessa diferença que a Antares concentra a principal novidade da atualização. Chamado DVA, o novo mecanismo procura distinguir uma variação involuntária de afinação do vibrato produzido pelo intérprete. Assim, o software pode corrigir uma nota sem necessariamente deixá-la completamente reta.
Correção vocal busca ficar menos perceptível
O lançamento aponta para uma mudança interessante no desenvolvimento das ferramentas de produção vocal. Durante anos, parte da evolução desse mercado esteve concentrada em aumentar a precisão da correção. Agora, a Antares coloca como prioridade da atualização a capacidade de reconhecer quais “imperfeições” devem ser corrigidas e quais movimentos precisam permanecer.
O vibrato ajuda a entender essa diferença. Trata-se da pequena oscilação de altura que acontece quando um cantor sustenta uma nota e que pode variar bastante entre intérpretes. Quando a correção é aplicada de maneira intensa, o software pode reduzir esse movimento, produzindo a sonoridade mais rígida frequentemente associada ao AutoTune. A própria Antares reconhece que esse comportamento esteve entre os principais pedidos recebidos de engenheiros, produtores e artistas.
“Desde 1997, a reclamação sobre a correção de afinação tem sido a mesma: ela tira o cantor do canto. Esse é o problema que o DVA foi criado para resolver. Ele consegue diferenciar um erro de afinação de uma decisão que o vocalista tomou e deixa essa decisão intacta”, afirmou Jeff Wright, CEO da Antares Audio Technologies.
Essa distinção também mostra como a correção vocal passou a ocupar funções diferentes dentro da música. Em algumas produções, a intenção é justamente tornar o processamento audível e usá-lo como elemento estético. Em outras, a tecnologia precisa passar praticamente despercebida. O novo sistema foi desenhado para oferecer mais controle sobre essa segunda situação, sem eliminar a possibilidade de alterar deliberadamente o vibrato.
AutoTune também mira o uso da correção em tempo real
Alteração de vibrato no AutoTune Advanced (Crédito: Divulgação)
Outra mudança acompanha a presença cada vez maior do processamento vocal fora da etapa final de produção. O AutoTune Advanced ganhou um modo voltado ao uso em tempo real que, segundo a Antares, mantém a latência abaixo de 1 milissegundo entre 44,1 kHz e 192 kHz.
A latência é o intervalo entre o momento em que o artista canta e aquele em que escuta a voz já processada. Mesmo um atraso pequeno pode interferir na interpretação, especialmente durante uma apresentação ou gravação. Reduzir esse intervalo permite que a correção seja aplicada enquanto o cantor está performando, em vez de ficar restrita ao tratamento posterior do áudio.
O software também permite gerar artificialmente um vibrato ou modificar aquele captado na gravação. Há ainda três modos de processamento voltados a situações diferentes: apresentações e monitoramento em tempo real, gravação em estúdio e mixagem.
Tecnologia tenta separar correção de escolha artística
A direção adotada pela Antares ajuda a mostrar um desafio maior para as empresas de tecnologia musical. Quanto mais precisas ficam as ferramentas de edição, maior também é a necessidade de reconhecer elementos que não deveriam ser tratados simplesmente como falhas.
No caso da voz, isso significa diferenciar uma nota fora da afinação de uma decisão interpretativa. É uma fronteira especialmente delicada porque características consideradas tecnicamente imperfeitas podem ser justamente aquelas que tornam uma performance reconhecível.
O AutoTune Advanced também chega com atualizações em ferramentas de formantes, edição de escalas e controle via MIDI, além de configurações desenvolvidas por profissionais como Ann Mincieli, Tom Norris, Benjamin Thomas, David “Yungin” Kim e Jess Jackson.
Mais do que adicionar uma nova forma de corrigir notas, portanto, a atualização coloca uma questão conhecida da produção musical quando o assunto é o desenvolvimento do AutoTune: até onde a tecnologia deve interferir antes que a correção comece a modificar aquilo que pertence à interpretação do artista?
Na produção vocal, porém, a fronteira entre erro e escolha artística nem sempre é clara. O que pode ser entendido tecnicamente como uma imperfeição também pode ser parte da naturalidade e da identidade de uma voz. Ao tentar reconhecer essa diferença, ferramentas de correção como o AutoTune caminham para diminuir a distância entre a precisão oferecida pelo software e as particularidades que fazem uma interpretação soar humana, justo quando a robotização da música está mais evidente do que nunca.
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