O consumo de bebidas alcoólicas está caindo nos clubes de Berlim, mas isso não significa que o público tenha deixado de sair. Um estudo da Clubcommission mostra que 73% dos gestores consultados percebem uma redução na compra de álcool. Ao mesmo tempo, 60% registram aumento na procura por opções sem álcool.
Os números não indicam que o consumo de bebidas alcoólicas tenha diminuído exatamente 73%. O percentual representa a parcela dos clubes e organizadores que identificou essa mudança entre seus frequentadores: 52% observaram uma queda moderada e 21%, uma redução acentuada.
A pesquisa ouviu agentes da cena de Berlim, como clubes, coletivos, produtores, bares musicais e centros socioculturais. Dos 163 participantes da etapa quantitativa, 102 completaram o questionário, aplicado entre março e abril de 2026. O levantamento também realizou entrevistas com 12 frequentadores de 22 a 28 anos e uma oficina com especialistas.
Menos bebidas, mais peso sobre os ingressos

O relatório identifica uma mudança na forma como o público organiza a noite. Muitos jovens passaram a controlar mais os gastos, beber antes de chegar ao clube, evitar a compra de bebidas no local ou procurar alternativas mais baratas. A busca por bem-estar, o desejo de manter maior controle e a tentativa de evitar ressacas também aparecem entre as razões para a redução do álcool.
O custo de vida completa esse cenário. O aumento dos gastos com moradia e necessidades básicas diminui o dinheiro disponível para lazer. Entre os gestores ouvidos, 60% notaram perda de poder de compra do público, 57% disseram que os frequentadores ficam menos tempo nos espaços e 71% observaram queda nos gastos por pessoa.
Essa combinação alterou a estrutura financeira dos clubes. Em 2017, a venda de bebidas e a gastronomia respondiam por 60% das receitas, contra 21% dos ingressos. Em 2025, a proporção praticamente se inverteu: os bilhetes passaram a representar 59% do faturamento, e o bar, 20%.
A mudança faz com que a programação cultural dependa cada vez mais da bilheteria. Com isso, os clubes enfrentam um dilema: elevar os preços ajuda a cobrir as despesas, mas também pode afastar parte do público. O estudo mostra que 92% dos entrevistados consideram os ingressos uma barreira de acesso para determinados grupos.
Pistas cheias não garantem lucro

A demanda pela vida noturna continua presente. Entre os participantes, 83% registram ocupação de pelo menos metade da capacidade, e um terço supera 75%. Ainda assim, apenas 30% terminaram 2025 com lucro, 31% empataram receitas e despesas e 39% fecharam o ano no prejuízo.
Em 2017, 79% dos clubes conseguiam ao menos cobrir seus custos. Em 2025, essa parcela caiu para 61%. O cenário acompanha uma pressão que também atinge outros segmentos da música ao vivo, diante do aumento de aluguéis, salários, despesas operacionais e cachês artísticos.
“A demanda é alta, as pistas de dança estão lotadas e, ainda assim, muitas empresas estão sob pressão financeira. A cultura de clube de Berlim é única no mundo e um ativo valioso para nossa cidade. É uma expressão de liberdade e diversidade, uma força motriz por trás das indústrias criativas e um importante fator econômico. Queremos garantir que os clubes mantenham seu lugar em Berlim a longo prazo como parte integrante do desenvolvimento econômico e urbano. O estudo destaca onde a estrutura atual precisa de melhorias”, afirma Michael Biel, secretário de Estado de Assuntos Econômicos do Senado de Berlim.
Clubes adaptam preços, horários e programação

Entre as respostas adotadas, 67% dos gestores aumentaram os preços das bebidas, 47% reajustaram os ingressos e 40% diversificaram os cardápios. Os clubes também mexeram na programação: 62% expandiram a orientação musical, 60% alteraram a curadoria e a contratação de artistas e 50% ajustaram os horários dos eventos.
A oferta de festas diurnas, eventos comunitários e noites sem álcool cresceu, mas o relatório evita tratar essas opções como substitutas da experiência tradicional. As entrevistas indicam que a música, a atmosfera e o senso de pertencimento continuam no centro da relação do público com os clubes, independentemente do consumo de álcool.
Para a Clubcommission, a adaptação dos estabelecimentos não será suficiente sem mudanças estruturais. O documento recomenda reconhecimento jurídico dos clubes como espaços culturais, redução da burocracia para acessar recursos públicos, políticas para garantir imóveis e proteção a públicos com menor renda.
O debate se conecta a outras iniciativas voltadas à manutenção do circuito independente, como os fundos criados para apoiar turnês e casas de shows. Em Berlim, 95% dos gestores acreditam que a existência de muitos clubes ficará ameaçada no longo prazo se as condições atuais permanecerem.
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