O que ainda não entrou na conta dos catálogos musicais?

O contexto também entrou no valuation dos catálogos musicais
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Raquel Lemos
Catálogo musical
Crédito: Reprodução

Nos últimos anos, tenho acompanhado auditorias de catálogos musicais e assessorando operações de aquisição de ativos que exigem um alto grau de confidencialidade. São negociações naturalmente cercadas por expectativas, projeções e diferentes percepções de valor entre compradores e vendedores. Em todas elas, porém, existe um ponto de partida comum.

A avaliação continua passando pelos pilares clássicos de uma boa due diligence. Analisa-se a regularidade fiscal da operação, a existência de passivos trabalhistas e previdenciários, o histórico de litigiosidade envolvendo os catálogos, a consistência da cadeia de titularidade dos direitos, a governança documental, a validade e não apenas a vigência dos contratos, sobretudo diante dos recentes entendimentos do Judiciário brasileiro. Soma-se a isso a verificação dos registros, a segurança da cadeia de cessões, a inexistência de limitações contratuais à exploração econômica, a apuração dos resultados fonomecânicos, a performance de arrecadação em execução pública perante o ECAD e outros indicadores que, há anos, estruturam o mercado.

Até aqui, quase nada mudou. Ou seja, seguimos discutindo a perenidade do repertório, a volatilidade do consumo, os desafios da transição entre vendedor e comprador sem interrupção do fluxo de receitas e a solidez jurídica dos ativos negociados. Tudo isso continua sendo parte indispensável de qualquer operação bem conduzida.

Os novos ativos da música não são os catálogos

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A questão que me parece surgir agora está em outro lugar porque tenho a impressão de que ainda avaliamos catálogos como se o valor estivesse exclusivamente no repertório, quando talvez ele já tenha migrado para aquilo que permite que esse repertório continue produzindo valor.

É o que costumo chamar de “contexto dos catálogos”, ou seja, metadados organizados, histórico de sincronizações, qualidade da documentação que sustenta novos licenciamentos, políticas contratuais relacionadas ao uso de inteligência artificial, restrições previamente assumidas em contratos de management, compromissos sobre experiências ao vivo, limitações territoriais ou tecnológicas de exploração. São elementos que não costumam aparecer como protagonistas nos modelos tradicionais de valuation, mas que determinam, na prática, o potencial econômico daquele ativo nos próximos anos.

Essa mudança acontece de forma silenciosa. Em nenhuma das operações que acompanhei até aqui a inteligência artificial ocupou, propriamente, um espaço relevante na definição do preço de aquisição. E isso é compreensível, em especial, porque o mercado ainda se apoia em métricas consolidadas porque projetar receitas futuras derivadas de tecnologias, novas formas de licenciamento ou modelos comerciais ainda em construção exige um exercício que naturalmente produz desconforto.

Mas talvez seja justamente aí que resida a próxima etapa de maturidade dessas operações.

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A palavra “ativo” vem do latim activus, aquilo que age, que produz efeitos, que está em movimento. Um ativo, por definição, não é algo estático. Quando falamos de ativos intangíveis, essa ideia ganha ainda mais força, porque seu valor nunca está restrito ao presente, ele depende da capacidade de continuar produzindo efeitos econômicos ao longo do tempo. E é justamente por isso, que acredito que as aquisições de catálogos precisem ampliar seu campo de observação.

Não apenas perguntar quanto aquele repertório arrecadou até hoje, mas compreender de que forma ele poderá continuar sendo explorado e esse exercício passa pelos metadados, mas não se restringe a ele. Passa pelas possibilidades de sincronização ainda não exploradas, atravessa as políticas de inteligência artificial incorporadas aos contratos mais recentes, passa pelos compromissos assumidos em contratos de artistas que podem ampliar ou restringir novas receitas. Passa, sobretudo, pela capacidade de aquele catálogo dialogar com modelos de negócios que ainda estão sendo construídos.

Costumo dizer que os relatórios fonomecânicos têm uma característica admirável, os números quase sempre se explicam, contam a história dos catálogos. O que passa a interessar, porém, é também a capacidade de esse ativo continuar produzindo valor em um mercado que muda mais rápido do que os próprios contratos.

Uma boa auditoria sempre explicou o patrimônio que um catálogo acumulou, mas o exercício que começa a se impor agora é outro, compreender quanto desse patrimônio ainda é capaz de produzir futuro.

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