Filipe Toca transforma “Muita Sede” em um retrato afetivo de suas raízes nordestinas

No álbum, Filipe Toca reúne Duda Beat, Mariana Aydar e Agnes Nunes em um disco de afeto, forró e memória.
Foto de Nathália Pandeló
Nathália Pandeló
Capa de Muita Sede, de Filipe Toca
Capa de "Muita Sede", de Filipe Toca (Foto de Ian Rassani)

Em “Muita Sede”, Filipe Toca transforma o primeiro álbum da carreira em uma espécie de declaração de identidade. O cantor e compositor potiguar já havia lançado singles, EPs e escrito para outros artistas, mas é neste trabalho que organiza, pela primeira vez, um universo próprio em formato de disco. 

As dez faixas costuram forró, MPB, canção pop e referências nordestinas em uma narrativa sobre amor, desejo, saudade, família e pertencimento. O lançamento reúne participações de Duda Beat, Mariana Aydar e Agnes Nunes, além da produção musical de Juliano Valle, responsável por dar unidade sonora ao repertório.

O álbum também mostra uma decisão clara de construção sonora. A ficha técnica aponta Juliano Valle como produtor musical de todas as faixas, além de arranjador do repertório completo. Em boa parte do disco, ele também assina gravação, mixagem e masterização. Isso ajuda a entender que “Muita Sede” não nasceu como uma reunião solta de canções, mas como um projeto desenvolvido a partir de uma parceria criativa longa.

O próprio Filipe Toca descreve o disco como uma virada. A estreia em álbum chega depois de anos de experimentação, composições e lançamentos avulsos, mas com uma ambição diferente: dar forma a um trabalho com conceito, unidade e cara de palco.

“Esse trabalho significa pra mim uma espécie de novo começo. Estou sentindo como se estivesse começando uma coisa na minha vida, porque é o meu primeiro álbum. Eu já lancei EP, já lancei singles, já escrevi música para diversos artistas, mas este é o meu primeiro álbum. É a primeira vez que eu pego um trabalho e escrevo um conceito nele, que eu realmente coloco uma alma ali, uma coisa que tem cara de show, cara de trabalho completo. Para mim, ele significa uma vida nova”, resume.

A produção como ponto de partida

A presença de Juliano Valle na ficha técnica de “Muita Sede” chama atenção pela recorrência. Ele aparece como produtor de todas as faixas, de “Mangaba Menina” à música-título, além de assinar os arranjos do disco inteiro. Na maioria das canções, também responde pela engenharia de gravação, mixagem e masterização.

Esse acúmulo de funções não é apenas uma concentração técnica. No caso de “Muita Sede”, ele revela uma relação de confiança construída ao longo dos anos. Filipe conta que Juliano acompanha sua trajetória desde 2018, quando o artista lançou sua primeira música no Spotify. Desde então, o produtor se tornou uma presença constante nas decisões de linguagem, timbre e direção estética.

“Juliano tem sido uma espécie de co-criador de todo esse trabalho. Todas as ideias que eu tenho eu vou trocando com ele. Quando eu quero me aproximar um pouco mais do regional, um pouco mais do Nordeste, Juliano é sempre essa pessoa que faz acontecer”, aponta Toca.

A partir dessa parceria, o álbum encontra um caminho entre a canção popular e a música nordestina contemporânea. A sanfona, o violão, a percussão e os elementos do forró aparecem em diálogo com estruturas mais próximas do pop, sem que uma camada anule a outra. O disco busca soar íntimo e acessível ao mesmo tempo, com arranjos que deixam as letras em primeiro plano, mas sustentam uma identidade rítmica reconhecível.

Juliano também funciona como elo entre os músicos que entram no álbum. Filipe atribui a ele boa parte da articulação sonora do projeto, inclusive na escolha de instrumentistas e na forma como cada participação instrumental se encaixa no repertório.

“Todo mundo que gravou uma guitarra, uma sanfona ou alguma coisa no disco chegou por influência de Juliano. Ele também mixou e masterizou o disco, com exceção de ‘Foi no São João’, com Mariana Aydar, que teve mixagem de João Milliet, que também é um amigo meu e de Juliano. Ou seja, todo mundo nesse disco passa muito pela influência de Juliano”, admite Filipe.

Um disco escrito durante o caminho

“Muita Sede” não nasceu de uma vez. Embora a ficha técnica registre o período de gravação entre 2025 e 2026, Filipe conta que o processo começou ainda no fim de 2024 e passou por mudanças até chegar à versão final. Algumas músicas foram gravadas, outras descartadas, e parte do repertório surgiu enquanto o álbum já estava em andamento.

Esse tipo de percurso aparece no resultado. O disco tem canções que parecem nascer de momentos muito específicos, como se cada faixa guardasse uma cena, uma lembrança ou uma tentativa de traduzir um estado emocional. Em vez de seguir uma linha narrativa fechada, “Muita Sede” se organiza por imagens afetivas: o desejo de reconexão, a memória familiar, a festa, a saudade e a sensação de pertencer a um lugar.

“Esse álbum demorou um tempão, porque eu comecei a gravar ele no final de 2024 e comecei a gravar por partes. Então eu gravei uma música, depois gravei outra e aí desisti de uma música que já tinha gravado, depois compus uma outra. Muitas das músicas que hoje estão no álbum foram escritas no processo, então demorou aproximadamente uns dois anos”, recorda Filipe Toca.

A faixa foco, “Outro Áudio Meu”, resume bem essa forma de escrever a partir de gestos cotidianos. A música parte de uma situação reconhecível para qualquer pessoa que vive relações atravessadas pelo celular: gravar, apagar e regravar uma mensagem de voz tentando encontrar as palavras certas para alguém que ainda mexe com a memória e com o afeto. A canção transforma esse detalhe em narrativa amorosa, com sanfona, violão e percussão conduzindo o clima de vulnerabilidade.

Outras faixas expandem esse campo emocional. “Mangaba Menina”, parceria de Filipe com Leão Neto, abre o disco em uma chave solar e afetiva. “Fiapinho de Amor” e “Quinta, Quase Sexta” seguem por uma linguagem de romance, desejo e cotidiano. “Pai e Mãe” e “Bença” deslocam o álbum para um território mais familiar, ligado às raízes, à proteção e ao pertencimento. Já “Muita Sede”, a faixa que dá nome ao projeto, concentra a ideia de intensidade que atravessa o repertório.

Duda Beat entra na faixa de maior balanço

Entre as participações vocais, Duda Beat aparece em “Olhar de Quem Não Presta”, uma das faixas mais pop do disco. A escolha não foi casual. Filipe enxergava na música um balanço que se aproximava da artista pernambucana, especialmente pela forma como Duda transita entre o pop, a música brasileira e uma estética de pista com um toque próprio.

“Duda é uma pessoa de quem eu sou fã há muito tempo. Quando tive a oportunidade de chamá-la para fazer esse feat, eu já sabia que tinha que ser com essa música, porque, dentro do meu disco, ‘Olhar de Quem Não Presta’ é a música que mais tem balanço, mais tem esse groove que é a cara dela. Eu enxergo Duda como essa artista que traz um molho do Brasil”, elogia o cantor.

A participação dela ajuda a deslocar o álbum para um ponto de maior movimento. A faixa preserva o universo afetivo de Filipe, mas ganha outra temperatura com a entrada de Duda. A combinação das vozes reforça a ideia de que “Muita Sede” não trata o forró e a canção pop como campos separados, mas como linguagens que podem conviver dentro de uma mesma narrativa.

Duda também fala da música a partir da força da composição. A cantora conta que aceitou o convite logo depois de ouvir a faixa:

“Que música linda! Quando eu ouvi a música pela primeira vez, fiquei muito emocionada, muito feliz. Eu gosto de canção e essa canção me pegou de um jeito que eu não sei nem te dizer. Na hora que eu recebi e ouvi, falei: óbvio que eu vou gravar, vamos embora, estou junto. Adoro o Filipe, um super compositor, um super cantor, que agora está lançando o álbum novo. Escutem bastante”, convida Duda.

A artista também ajuda a localizar Filipe dentro de uma geração de compositores que usa elementos regionais sem tratar a regionalidade como ornamento. Em “Muita Sede”, o Nordeste não aparece apenas como referência sonora, mas como memória, forma de escrever, jeito de narrar e de organizar os afetos.

As participações como parte da paisagem afetiva

Filipe Toca - Crédito Ian Rassani
Filipe Toca (Crédito: Ian Rassani)

Além de Duda Beat, “Muita Sede” reúne Mariana Aydar e Agnes Nunes. As três participações ocupam lugares diferentes dentro do disco e não soam como entradas isoladas. Cada uma aparece em uma região específica do repertório, ajudando a desenhar as variações emocionais do álbum.

Mariana Aydar participa de “Foi no São João”, faixa que olha diretamente para o universo das festas juninas. A canção abraça o forró e a tradição popular sem perder o tom de narrativa íntima. Na ficha técnica, é também a principal exceção ao domínio técnico de Juliano Valle na etapa final do som: a faixa teve gravação de Juliano e Caê Rolfsen, com mixagem e masterização de João Milliet.

A presença de Mariana cria uma ponte natural com a música popular brasileira e com a tradição do forró. Sua voz entra em uma faixa que fala de memória, festa e encontro, temas centrais para um disco que se apoia tanto no afeto quanto na ideia de território. O São João, aqui, não é apenas cenário. É um espaço emocional onde a lembrança ganha corpo.

Agnes Nunes aparece em “Borboleta Furta-Cor”, uma das faixas mais delicadas do álbum. A canção abre um lado mais contemplativo de “Muita Sede”, com uma atmosfera menos expansiva e mais voltada à escuta da interpretação. A participação de Agnes conversa com esse lugar de suavidade, sem tirar da música sua força emocional.

Na sequência do disco, essas participações ajudam a evitar que o álbum fique preso a uma única temperatura. Há faixas mais rítmicas, canções de memória, momentos de festa, passagens familiares e um olhar constante para o amor em suas formas mais simples. A ficha técnica deixa claro que, por trás dessa variedade, existe uma espinha dorsal: a composição de Filipe.

Os bastidores do primeiro álbum de Filipe Toca

A ficha técnica de “Muita Sede” mostra um projeto enxuto em número de faixas, mas concentrado em relações criativas de longa duração. Filipe aparece como compositor em todas as músicas. Em “Mangaba Menina”, divide a autoria com Leão Neto. Em “Outro Áudio Meu”, assina com Gustavo Tibí. Nas demais, é o único compositor creditado.

Esse dado é importante para entender o álbum como afirmação autoral. Mesmo com participações de nomes conhecidos, o centro do trabalho continua sendo a escrita de Filipe. As convidadas entram para dialogar com o repertório, e não para deslocar o foco do disco. Também aparecem na ficha nomes como Lux Ferreira, engenheiro de gravação em “Olhar de Quem Não Presta”, e Caê Rolfsen, engenheiro de gravação em “Foi no São João”. 

No conjunto, “Muita Sede” apresenta Filipe Toca como um artista que chega ao primeiro álbum sem apagar o caminho anterior. O disco carrega o compositor que já vinha escrevendo para si e para outros, mas agora organiza esse repertório em uma obra com começo, meio, fim e assinatura própria. A sede do título pode ser lida como desejo, falta, intensidade e movimento. Na ficha técnica, ela também aparece como método: reunir pessoas, lapidar canções e transformar vivências em som.

Ficha Técnica: Filipe Toca – “Muita Sede”

Artista: Filipe Toca

Álbum: “Muita Sede”

Data de lançamento: 28 de maio de 2026

Período de gravação: entre 2025 e 2026

Período de composição: entre 2025 e 2026

Produção musical: Juliano Valle

Arranjos: Juliano Valle

Mixagem: Juliano Valle; João Milliet em “Foi no São João”

Masterização: Juliano Valle; João Milliet em “Foi no São João”

Composição: Filipe Toca, com Leão Neto em “Mangaba Menina” e Gustavo Tibí em “Outro Áudio Meu”

Engenharia de gravação: Juliano Valle; Lux Ferreira em “Olhar de Quem Não Presta”; Caê Rolfsen em “Foi no São João”

Participações vocais: Duda Beat em “Olhar de Quem Não Presta”; Mariana Aydar em “Foi no São João”; Agnes Nunes em “Borboleta Furta-Cor”

Tracklist: “Mangaba Menina”; “Outro Áudio Meu”; “Olhar de Quem Não Presta”; “Fiapinho de Amor”; “Pai e Mãe”; “Foi no São João”; “Quinta, Quase Sexta”; “Borboleta Furta-Cor”; “Bença”; “Muita Sede”

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