Warner fecha acordo com a Paramount para levar artistas como Madonna e Dua Lipa aos cinemas

A Warner está de olho no cinema com a Paramount após acordo com a Netflix e aposta em filmes sobre artistas, compositores e catálogos.
Foto de Nathália Pandeló
Nathália Pandeló

O Warner Music Group (WMG) deu mais um passo para transformar seu catálogo em propriedade audiovisual. A empresa fechou uma parceria de vários anos com a Paramount Pictures para desenvolver filmes baseados na vida, na obra e no repertório de artistas e compositores ligados ao grupo.

O acordo chega pouco depois de uma movimentação parecida com a Netflix, também em parceria com a produtora Unigram, e mostra como as gravadoras passaram a tratar biografias, documentários, filmes-concerto e animações como uma nova frente de negócio. Não se trata apenas de licenciar músicas para trilhas: a ideia é transformar histórias de artistas em projetos pensados desde a origem para o cinema e o streaming.

A lista de nomes possíveis ajuda a explicar o interesse. O catálogo da Warner inclui artistas como Madonna, David Bowie, Cher, Aretha Franklin, Fleetwood Mac, Led Zeppelin, Joni Mitchell, Frank Sinatra, Dua Lipa, Charli xcx, Coldplay, Bruno Mars e Cardi B. Ainda não há projetos oficialmente em desenvolvimento, mas o acordo dá à Paramount prioridade para trabalhar com esse universo.

O que está no acordo entre Warner e Paramount

Robert Kyncl, CEO da Warner
Robert Kyncl, CEO da Warner

Pelo contrato, Warner, Paramount e Unigram vão desenvolver projetos em colaboração com os artistas, compositores ou seus espólios. A Unigram é liderada por Amanda Ghost e Gregor Cameron, e aparece como parceira de produção tanto no acordo com a Paramount quanto na parceria anterior com a Netflix.

O desenho é importante porque tenta dar mais controle criativo aos artistas e seus representantes. Em vez de Hollywood apenas comprar direitos para contar uma história, a proposta é que o desenvolvimento dos filmes nasça em diálogo com quem viveu a trajetória ou com quem administra esse legado.

Robert Kyncl, CEO da WMG, afirmou que a parceria busca uma nova abordagem para o segmento.

“Todo artista merece contar as histórias por trás de sua vida e de sua música à sua própria maneira criativa, e estamos animados para fazer parceria com nosso talento incrível e cineastas de primeira qualidade para levar essas histórias às telonas, fazendo seus públicos crescerem ao redor do mundo.”

Pela Paramount, os copresidentes Josh Greenstein e Dana Goldberg também destacaram a aposta em experiências para cinema.

“Estamos animados em fazer parceria com a WMG e seus artistas extraordinários para criar experiências teatrais poderosas inspiradas por música e talento que definiram gerações.”

Por que os catálogos viraram matéria-prima para Hollywood

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Crédito: Prostooleh/Magnific

A parceria aparece em um momento de forte disputa por conteúdo musical nas telas. Cinebiografias, documentários e filmes-concerto ganharam peso porque conversam com públicos já formados, carregam repertórios conhecidos e podem gerar novas ondas de consumo nas plataformas.

Nos últimos anos, Hollywood viu o impacto comercial de filmes como “Bohemian Rhapsody”, “Elvis”, “Bob Marley: One Love”, “Back to Black”, “Um Completo Desconhecido” e “Rocketman”. A lógica é simples: quando uma história musical chega ao cinema, ela não vende apenas ingresso. Ela recoloca músicas nas buscas, nas playlists, nos vídeos curtos e nas conversas sobre legado.

É impossível ignorar também o desempenho recente de “Michael”, filme da Lionsgate sobre Michael Jackson, com quase US$ 200 milhões nos Estados Unidos e US$ 450 milhões globalmente após duas semanas em cartaz. Mesmo quando a recepção crítica varia, o potencial de bilheteria e de catálogo mantém o interesse de estúdios e gravadoras.

No fim de semana de estreia de “Michael”, o catálogo solo de Michael Jackson cresceu 95% nos Estados Unidos em relação ao fim de semana anterior. Foram 31,7 milhões de streams entre 24 e 25 de abril, contra 16,3 milhões entre 17 e 18 de abril. O efeito também chegou ao repertório do The Jackson 5, que subiu 85%, de 1,3 milhão para 2,4 milhões de streams no mesmo recorte. 

Esse movimento também ajuda a entender por que a Warner decidiu costurar acordos diferentes para janelas diferentes. Com a Netflix, o foco é em documentários, séries e filmes documentais. Com a Paramount, a aposta está nos longas de cinema, incluindo projetos roteirizados e animações.

A música como personagem central

Sala de cinema, Lei Aldir Blanc
Crédito: Freepik

Amanda Ghost resume o tom do acordo: a música não entra apenas como trilha, mas como parte da narrativa. Para a executiva, a parceria cria novas formas de levar os mundos criativos dos artistas para a tela.

“Esta parceria encontra novas maneiras de empoderar artistas icônicos e levar seus mundos criativos para a tela com a música como personagem central”, explica.

Isso pode abrir espaço para formatos mais variados do que a cinebiografia tradicional, aquela estrutura linear de infância, sucesso, crise e redenção. Catálogos como os de Bowie, Madonna ou Fleetwood Mac permitem histórias sobre cenas musicais, estética, turnês, composição, bastidores de discos ou até narrativas ficcionais construídas a partir de repertórios.

Para uma gravadora, esse tipo de projeto prolonga a vida econômica de obras antigas e apresenta artistas a novas gerações. Um filme bem-sucedido pode mexer no streaming, nas vendas físicas, no interesse por sincronização, nas redes sociais e na negociação de catálogos.

A Paramount chega ao acordo com histórico nesse território. O estúdio esteve por trás de filmes como “One Love”, sobre Bob Marley, e “Rocketman”, sobre Elton John. Agora, com a Warner, passa a ter acesso preferencial a um dos catálogos mais fortes da música global. Para a WMG, a parceria indica que o audiovisual deixou de ser apenas vitrine e virou parte da estratégia para monetizar repertórios, proteger legados e transformar artistas em franquias culturais.

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