A música latina ultrapassou a marca de US$ 1 bilhão em receita nos Estados Unidos em 2025, consolidando um ciclo de crescimento que já dura uma década. O dado da Recording Industry Association of America (RIAA) chama atenção não só pelo valor absoluto, mas pelo ritmo: o segmento cresce acima da média da indústria fonográfica americana ano após ano.
Segundo o relatório da associação que representa a indústria fonográfica nos Estados Unidos, a receita total chegou a US$ 1,009 bilhão, alta de 4,2% em relação a 2024. No mesmo período, o mercado fonográfico dos EUA cresceu 3,1%, o que reforça o avanço consistente do repertório latino dentro do maior mercado do mundo.
Esse movimento não acontece isoladamente. Ele reflete mudanças estruturais na forma como a música circula globalmente, impulsionadas principalmente pelo streaming e pela capacidade de artistas latinos alcançarem públicos fora de seus países de origem.
Streaming domina e define o crescimento

O dado mais direto do relatório da RIAA é também o mais revelador: 98,2% de toda a receita da música latina nos EUA vem do streaming. Isso coloca o segmento ainda mais dependente do digital do que o próprio mercado americano como um todo, onde o streaming representa cerca de 82%.
Dentro desse universo, o principal motor é a assinatura paga. Só essa modalidade gerou US$ 557,5 milhões em 2025, com crescimento de 9,8%. Ou seja, mais da metade de toda a receita latina nos EUA já vem diretamente de usuários que pagam por plataformas como Spotify, Apple Music e YouTube Music.
Ao mesmo tempo, o streaming gratuito, sustentado por publicidade, caiu 2,4%. Esse contraste ajuda a entender uma mudança importante: o crescimento do segmento está cada vez mais ligado a públicos engajados, que consomem música de forma recorrente e paga.
Outros formatos seguem em queda ou têm peso residual. A mídia física representa apenas 0,8% da receita, enquanto o download digital, embora tenha crescido 12,7%, continua pouco relevante no total.
Participação recorde no mercado americano
Além do crescimento em valor absoluto, a música latina também bateu recorde de participação no mercado dos EUA. Em 2025, ela representou 8,8% de toda a receita fonográfica do país.
Esse número pode parecer pequeno à primeira vista, mas ganha peso quando colocado em perspectiva histórica. Em 2016, o segmento gerava cerca de US$ 149 milhões. Hoje, já ultrapassa US$ 1 bilhão, multiplicando sua presença dentro da indústria .
Isso significa que a música latina deixou de ser um nicho e passou a ocupar um espaço estruturante no mercado americano. E isso acontece em paralelo ao crescimento de artistas que não necessariamente cantam em inglês, o que indica uma mudança de comportamento do público.
“Música latina” não é um gênero

Um ponto importante para entender esses números da RIAA é não tratar “música latina” como um gênero musical único. O próprio crescimento do segmento está diretamente ligado à diversidade de estilos que ele reúne.
Trata-se de um grande guarda-chuva que engloba diferentes ritmos e tradições. Dentro dele estão o reggaeton e o trap latino de Porto Rico, o regional mexicano, o pop latino, a música urbana colombiana, o funk brasileiro, a bachata dominicana e a música andina, entre muitos outros.
Ou seja, o que o relatório da RIAA mede não é um estilo específico, mas o desempenho combinado de várias cenas musicais diferentes que compartilham idioma, origem cultural ou circuito de consumo.
Nesse processo, o Latin Grammy tem um papel importante ao ajudar a estruturar essa diversidade dentro de uma lógica de mercado. A premiação, organizada pela Academia Latina da Gravação, funciona como uma ponte entre a América Latina e os Estados Unidos, dando visibilidade a artistas de diferentes países e conectando esses repertórios a players da indústria global.
Mais do que reconhecer sucessos, o Latin Grammy contribui para legitimar gêneros e cenas locais dentro de um circuito internacional. Isso ajuda a aumentar o alcance de artistas e a estruturar uma narrativa de mercado que vai além de um único estilo dominante.
Essa diversidade ajuda a explicar por que o segmento cresce de forma consistente. Enquanto alguns gêneros ganham força em determinados momentos, outros sustentam a base de consumo, criando um ecossistema mais resiliente do que mercados baseados em um único estilo dominante.
Crescimento contínuo e efeito global
O relatório da RIAA também destaca que esse é o décimo ano consecutivo em que a música latina cresce acima da média do mercado americano. Isso não é um pico pontual, mas uma tendência consolidada.
Esse avanço está diretamente ligado ao alcance global desses artistas. As plataformas digitais permitem que músicas lancem simultaneamente em vários países, enquanto as redes sociais aceleram a circulação de hits entre diferentes culturas.
Além disso, há um efeito de retroalimentação. À medida que artistas latinos ganham espaço nos EUA, aumentam investimentos, parcerias e visibilidade internacional, o que gera novos ciclos de crescimento.
No fim, o dado de US$ 1 bilhão é mais do que um marco financeiro. Ele sinaliza uma reorganização do mercado, em que a música em espanhol, português e outros idiomas passa a disputar espaço em igualdade com o repertório anglo-americano dentro da maior indústria do mundo.
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