O Spotify deu mais um passo na disputa por atenção e retenção de usuários ao anunciar o “Taste Profile”, uma nova ferramenta que permite visualizar e editar diretamente o algoritmo de recomendações da plataforma. A novidade foi apresentada durante o SXSW 2026 e marca uma mudança relevante na forma como o streaming lida com personalização.
O Spotify sempre teve como base a curadoria automatizada, mas agora começa a abrir essa “caixa preta” para o usuário. A proposta é simples na teoria: permitir que cada pessoa entenda como o sistema interpreta seu gosto e, mais importante, consiga corrigir isso em tempo real. Inicialmente, o recurso será lançado em versão beta para assinantes Premium na Nova Zelândia, com previsão de expansão para outros mercados na sequência.
O que muda com o “Perfil de Gosto”
O Taste Profile reúne todo o histórico de consumo do usuário dentro da plataforma. Isso inclui músicas, podcasts e até audiolivros (em mercados onde o recurso está disponível), além de padrões como horários de escuta e tipos de conteúdo consumido em diferentes momentos do dia.
Ou seja, é como se o Spotify mostrasse um “resumo” do gosto musical e de áudio de cada usuário. A diferença é que, agora, esse resumo pode ser editado. A empresa explica que cada pessoa poderá indicar preferências de forma ativa, pedindo mais ou menos de determinados artistas, estilos ou “vibes”. Também será possível sinalizar quando o algoritmo errar na leitura do gosto.
Esse input ajuda a determinar o que ganha prioridade, o que é reduzido e o que o ouvinte descobre em seguida na página inicial do Spotify. Outro ponto importante é a inclusão de contexto. O usuário pode informar situações específicas, como treinar para uma maratona ou ouvir podcasts durante o trajeto para o trabalho. Esses dados entram na equação para ajustar as recomendações.
Mais controle sobre o algoritmo

Esse movimento não surge do nada. Segundo o próprio Spotify, mais de 80% dos usuários dizem que a personalização é o principal valor da plataforma.
O problema é que, até agora, esse sistema era majoritariamente automático e pouco transparente. O máximo de controle disponível era remover músicas específicas ou evitar que as playlists influenciassem o algoritmo.
Com o Taste Profile, a lógica muda. O usuário passa a ter um papel ativo na curadoria. Isso tenta resolver um problema comum: as recomendações “poluídas”. Quem tem filhos, por exemplo, frequentemente vê o algoritmo dominado por músicas infantis. O mesmo vale para sons de meditação ou playlists funcionais que não refletem o gosto real do usuário. Agora, esses conteúdos podem ser reduzidos ou até ignorados na construção das sugestões futuras.
IA e personalização viram estratégia central
O Taste Profile não é um recurso isolado. Ele faz parte de um pacote maior de iniciativas do Spotify baseadas em inteligência artificial. Nos últimos anos, a empresa lançou funcionalidades como o AI DJ, que simula um apresentador personalizado, e playlists geradas por texto, nas quais o usuário descreve o que quer ouvir.
Outro exemplo é o “Prompted Playlist”, que também entrou em fase de testes e permite criar playlists a partir de comandos escritos. A ideia é transformar a linguagem natural em curadoria musical.
Essas ferramentas têm algo em comum: todas colocam o usuário mais próximo do controle do algoritmo. Isso sinaliza uma mudança importante no modelo das plataformas de streaming. Em vez de depender apenas de dados passivos, como cliques e tempo de escuta, o Spotify passa a considerar intenções explícitas.
O impacto para artistas e para o mercado
Do ponto de vista da indústria, essa mudança tem efeitos diretos. Se o usuário passa a interferir mais no algoritmo, a lógica de descoberta musical também muda.
Hoje, boa parte da audiência depende de recomendações automatizadas. Com mais controle nas mãos do público, artistas e gravadoras podem ter que repensar estratégias para aparecer nesses fluxos.
Ao mesmo tempo, a tendência pode melhorar a qualidade das recomendações, reduzindo a rejeição e aumentando o engajamento. Isso tende a manter o usuário mais tempo dentro da plataforma, o que é essencial para o modelo de negócio do streaming.
Também existe um ponto de atenção: quanto mais o usuário “edita” seu gosto, maior o risco de bolhas ainda mais fechadas. Ou seja, menos diversidade e descoberta espontânea. Por outro lado, o Spotify aposta que a combinação entre IA e intervenção humana pode equilibrar esse cenário.
Ao permitir que o usuário ajuste o algoritmo, a plataforma tenta resolver uma tensão antiga do streaming: até que ponto a recomendação deve ser automática ou guiada pela vontade de quem está ouvindo. Ainda não há informações de quando o recurso deve ser lançado no Brasil.
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