A Suécia se tornou, nesta semana, o centro de um dos debates mais sensíveis da indústria musical em 2026: até onde vai o limite para músicas criadas com inteligência artificial participarem de rankings oficiais. O caso envolve a faixa “Jag vet, du är inte min”, que ficou no topo do Spotify no país, mas acabou barrada das paradas nacionais.
A decisão partiu da IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica) local, entidade que organiza o ranking oficial sueco, após a confirmação de que parte relevante da canção foi criada com auxílio de ferramentas de IA. O episódio escancara um descompasso cada vez maior entre o consumo nas plataformas digitais e os critérios adotados por instituições tradicionais da indústria.
Mais do que um caso isolado, o veto abre precedentes importantes em um país que, ao mesmo tempo, é a base do Spotify e se posiciona como polo de inovação em IA e abriga uma das economias musicais mais organizadas da Europa.
O caso Jacub e a exclusão das paradas suecas
A música foi creditada a Jacub, apresentado nas plataformas como um cantor folk-pop de estética minimalista, com imagem ilustrada e nenhuma presença pública consistente fora do streaming. A faixa acumulou mais de 5 milhões de streams globais, cerca de 200 mil apenas na Suécia, e chegou ao topo do Spotify no país.
Mesmo assim, foi retirada da Sverigetopplistan, parada oficial compilada pela IFPI Sweden. O motivo: a obra não atende aos critérios atuais para músicas majoritariamente geradas por inteligência artificial.
“Se a música é principalmente gerada por IA, ela não tem direito de estar na lista”, afirmou Ludvig Werner, diretor da entidade. A regra vale apenas para o ranking oficial, já que a canção segue aparecendo normalmente nos charts internos do Spotify.
Investigação jornalística e o papel da Stellar
A origem do projeto veio à tona após investigação do jornalista Emanuel Karlsten, que identificou o registro da obra ligado à editora dinamarquesa Stellar. Dois dos profissionais creditados no fonograma atuam diretamente no departamento de IA da empresa.
Em resposta, a Stellar confirmou que a voz e partes da música foram geradas com auxílio de inteligência artificial, mas destacou que o processo foi conduzido por compositores e produtores humanos, com direção artística definida. A empresa afirmou ainda que não se trata de conteúdo gerado automaticamente ou em escala industrial.
Segundo a Stellar, o projeto Jacub foi concebido como um experimento artístico, não como tentativa de explorar o universo de “AI music slop”, termo usado para descrever faixas massivas e sem curadoria criativa feitas apenas para capturar royalties.
O que esse veto revela sobre o momento da indústria

O caso da Suécia evidencia uma fratura clara entre três frentes da indústria: plataformas de streaming, entidades de charts e o debate regulatório. Hoje, o Spotify não exige que faixas sejam rotuladas como criadas por IA, embora venha combatendo o spam automatizado que gera receitas artificiais.
Ao mesmo tempo, organizações como a IFPI optam por critérios mais restritivos, tratando a autoria humana como pré-requisito simbólico para legitimação institucional. Já rankings internacionais como a Billboard seguem outra lógica: se o público consome, a música entra, independentemente da ferramenta usada na criação.
Esse choque de visões tende a se intensificar à medida que músicas híbridas, parcialmente assistidas por IA, se tornem mais comuns e sofisticadas.
Direitos autorais, transparência e o futuro dos charts
A discussão também envolve direitos autorais e distribuição de receita. O compositor e ativista Ed Newton-Rex defende rotulagem obrigatória para músicas geradas por IA, argumentando que a falta de transparência desvia streams e pagamentos de artistas humanos.
Na contramão, a Suécia também tem buscado caminhos institucionais para lidar com o tema. A sociedade de gestão coletiva STIM lançou, em 2025, um sistema de licenciamento que permite o treinamento legal de modelos de IA sobre obras protegidas, mediante pagamento de royalties.
Independente disso, o veto a “Jag vet, du är inte min” não resolve o debate sobre música feita com IA, mas cria um marco claro. Ao barrar um hit de grande audiência, a Suécia estabelece um precedente que pode orientar a análise de outros casos semelhantes nos próximos meses, à medida que faixas híbridas se tornem mais comuns nas plataformas. A decisão indica que, a partir de agora, o uso de IA não será apenas uma questão criativa ou tecnológica, mas também um critério institucional a ser avaliado pelas paradas oficiais.
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