Data Favela: pesquisa inédita revela hábitos de consumo de música nas periferias brasileiras

Data Favela divulga levantamento nacional com quase 4 mil entrevistas que detalha gêneros preferidos, artistas mais ouvidos e plataformas usadas nas favelas.
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Nathália Pandeló
Capa de Raio-X da Vida Real, estudo do Data Favela
Capa de Raio-X da Vida Real, estudo do Data Favela (Crédito: Reprodução)

A Data Favela acaba de divulgar uma pesquisa inédita que joga luz sobre os hábitos de consumo de música nas favelas e periferias brasileiras, trazendo dados que ajudam a entender como esses territórios se relacionam com artistas, gêneros e plataformas. O estudo, de alcance nacional, ouviu quase 4 mil pessoas em 23 estados e oferece um retrato detalhado de preferências musicais que, muitas vezes, só aparecem de forma fragmentada nas análises de mercado.

A pesquisa parte de um ponto central da atuação da Data Favela ao longo dos últimos 14 anos: produzir dados a partir do olhar de quem vive nesses territórios. O instituto é o primeiro do Brasil dedicado exclusivamente a ouvir, traduzir e transformar em números a realidade social, econômica e cultural das favelas, apostando na formação de moradores como pesquisadores locais.

Embora o levantamento tenha como base um estudo mais amplo sobre a vida real nas periferias, os recortes relacionados à música revelam padrões claros de consumo, comportamento e identificação cultural, com impacto direto para artistas, gravadoras, plataformas digitais e marcas que atuam no mercado musical.

Metodologia e representatividade nacional

A pesquisa foi realizada por meio de entrevistas presenciais, com questionário estruturado de 84 perguntas, aplicadas entre 15 de agosto e 20 de setembro de 2025. Ao todo, foram feitas 3.954 entrevistas, com margem de erro de 1,56 ponto percentual e nível de confiança de 95%.

A distribuição da amostra seguiu rigorosamente os dados do Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), respeitando a proporção de moradores de favelas nas cinco regiões do país. O Sudeste concentrou 43% dos entrevistados, seguido pelo Nordeste (29%), Norte (20%), Sul (6%) e Centro-Oeste (2%).

O perfil sociodemográfico ajuda a contextualizar o consumo musical. A maioria dos entrevistados é formada por homens (79%), pessoas negras (74%) e jovens entre 13 e 26 anos (50%). Cerca de 63% declararam renda de até dois salários mínimos, e 80% nasceram e cresceram na favela, o que reforça a ligação direta entre identidade territorial e preferências culturais.

Onde e como a música é consumida

Como a música é consumida nas periferias, de acordo com o Data Favela
Como a música é consumida nas periferias, de acordo com o Data Favela (Crédito: Reprodução)

Quando o assunto é plataforma, o YouTube aparece com folga como principal meio de consumo musical. Metade dos entrevistados, 50%, afirmou que costuma ouvir música pela plataforma de vídeos, que combina acesso gratuito, clipes, letras e apresentações ao vivo.

Na sequência, os serviços de streaming de áudio, como Spotify, Deezer, Amazon Music e Apple Music, somam 37% da preferência. Rádio e SoundCloud aparecem empatados, com 6% cada. Os números mostram que, apesar do avanço do streaming pago e gratuito, o YouTube segue central no dia a dia musical das periferias, especialmente pela facilidade de acesso e pelo uso em celulares.

Esse dado ajuda a explicar por que muitos artistas com forte presença nas favelas acumulam números expressivos em vídeo, nem sempre refletidos de forma proporcional em rankings tradicionais de streaming.

Gêneros musicais mais ouvidos nas favelas

Os gêneros de origem negra lideram com folga as preferências musicais apontadas pela Data Favela. O pagode e o samba aparecem em primeiro lugar, citados por 23% dos entrevistados, seguidos de perto pelo funk, com 21%.

Na sequência surgem forró, piseiro e sertanejo, com 13%, e o rap, com 12%. Trap aparece com 7%, enquanto o gospel soma 3%. O retrato mostra um consumo plural, mas fortemente ancorado em gêneros que dialogam diretamente com o cotidiano, a linguagem e a vivência das periferias.

Mais do que modas passageiras, os dados indicam uma continuidade cultural, em que o pagode, o samba e o funk seguem como trilhas sonoras centrais da vida nesses territórios.

Artistas mais admirados pelo público

Entre as cantoras preferidas, Ludmilla lidera com cerca de 20% das menções, consolidando sua posição como um dos principais nomes da música brasileira nas periferias. Em seguida aparecem Marília Mendonça e Alcione, mostrando a convivência entre artistas contemporâneas e nomes consagrados.

Também figuram entre as mais citadas Anitta, Ivete Sangalo, Iza, Simone Mendes, Manu Batidão e Joelma, além de uma lista ampla que inclui Ana Castela, Negra Li, Beth Carvalho e Karol Conká.

No ranking masculino, Belo aparece como o cantor mais lembrado, com 11,6% das citações. Logo atrás vêm Oruam e MC Poze do Rodo, reforçando a força do funk e do rap no imaginário musical das favelas. Também se destacam Zeca Pagodinho, Racionais MC’s, Thiaguinho, Péricles e Mano Brown.

Os dados mostram que o consumo musical nas periferias combina nostalgia, representatividade e identificação direta com narrativas de origem popular, oferecendo pistas valiosas para entender tendências que muitas vezes nascem nesses territórios antes de chegar ao mainstream.

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