A aquisição da Downtown Music pelo Universal Music Group (UMG) está sob análise da União Europeia após um pedido de referência feito pelos reguladores dos Países Baixos. A investigação pode impactar não apenas esse negócio específico, mas também a estratégia da UMG de ampliação de mercado por meio de aquisições. Nos últimos meses, a empresa anunciou também a compra da PIAS e da 8Ball Music, ambas independentes.
A Downtown é proprietária de duas das maiores distribuidoras independentes do mundo, FUGA e CD Baby, além de outros serviços essenciais para artistas e selos independentes. Isso gera preocupações sobre a possibilidade de a UMG exercer controle excessivo sobre a cadeia de distribuição musical, limitando a concorrência e o acesso a dados fundamentais do setor.
Impala critica estratégia de aquisições da UMG
A Impala, associação europeia de selos independentes, tem sido uma das principais vozes contra a estratégia de aquisição da UMG. A entidade defende que essas compras em série criam barreiras de entrada para novos concorrentes e reforçam o poder da Universal em diversas frentes, desde a edição e gravação até a distribuição e a gestão de royalties.
Helen Smith, presidente executiva da Impala, comemorou a atenção das entidades regulatórias sobre o acordo:
“Este pedido de referência é um passo fundamental para impedir a estratégia avassaladora da UMG. Isso mostra duas coisas: que os reguladores reconhecem os riscos dessa estratégia para o mercado e que as consequências vão além das fronteiras nacionais. O que está em jogo é a concorrência e a diversidade da Europa como um todo. Mais aquisições são esperadas, uma ilustração clara da natureza expansiva da estratégia da UMG, juntamente com o impacto das mudanças nos serviços digitais, como relatamos recentemente”.
Segundo a Impala, a aquisição da Downtown representa uma mudança na indústria musical, pois envolve um catálogo de artistas e a infraestrutura por onde circula grande parte da música independente globalmente. Com isso, artistas e selos menores temem perder acesso a serviços fundamentais ou enfrentar condições desvantajosas diante do domínio da Universal.
Impactos sobre acesso a dados e concorrência na aquisição da Downtown
Um dos pontos mais sensíveis da investigação é o controle sobre dados do mercado musical. A Impala alertou que a UMG, ao adquirir a Downtown, passa a ter visibilidade estratégica sobre informações de concorrentes, algo que poderia gerar uma distorção competitiva.
Francesca Trainini, presidente da Impala e vice-presidente da associação italiana PMI, destacou:
“”Estamos falando sobre um controle quase total sobre acesso e dados. Quando você mora em um prédio, precisa saber quem controla os canos, a fiação, os elevadores. Quando essa empresa já é a líder do mercado, as consequências são claras. É algo que seria inaceitável em qualquer outro mercado. A UE agora tem a oportunidade de avaliar isso e garantir um ecossistema musical justo. Confiamos que a UE tome a dianteira mais uma vez, assim como fez com sucesso quando decidiu que a aquisição da EMI pela UMG a tornaria grande demais. Sabemos que a consolidação continuará se nada for feito”.
A entidade compara a situação com a decisão da União Europeia que limitou a aquisição da EMI pela UMG em 2012, alegando que a fusão tornaria a companhia grande demais.
“”Estamos falando sobre um controle quase total sobre acesso e dados. Quando você mora em um prédio, precisa saber quem controla os canos, a fiação, os elevadores. Quando essa empresa já é a líder do mercado, as consequências são claras. É algo que seria inaceitável em qualquer outro mercado. A UE agora tem a oportunidade de avaliar isso e garantir um ecossistema musical justo. Confiamos que a UE tome a dianteira mais uma vez, assim como fez com sucesso quando decidiu que a aquisição da EMI pela UMG a tornaria grande demais. Sabemos que a consolidação continuará se nada for feito”, acrescentou Trainini.

Pressão para investigações no Reino Unido
O impacto da aquisição também está sendo discutido no Reino Unido, onde a Associação de Música Independente (AIM) pede que a Autoridade de Concorrência e Mercados (CMA) investigue o caso.
Gee Davy, CEO da AIM e membro da diretoria da Impala, ressaltou a importância dessa análise:
“Esta referência à Comissão Europeia é totalmente justificável e esperada, e pedimos que autoridades de outras regiões impactadas pela estratégia agressiva da UMG também ajam. Estamos encorajando a CMA a analisar o impacto no Reino Unido e a adotar uma postura firme. Eles já concluíram que mais consolidação seria motivo para investigação quando avaliaram o mercado em relação ao streaming, então os chamamos a agir agora para proteger o mercado do Reino Unido para o benefício de todos – consumidores de música, artistas e pequenas e médias empresas musicais independentes”.
Dario Draštata, presidente da Impala e diretor da Dallas Records, enfatizou o impacto global da aquisição:
“A Downtown Music é um ator fundamental. Sua aquisição pela UMG daria à maior empresa musical do mundo um controle sem precedentes sobre os principais canais pelos quais artistas e selos chegam ao seu público, além de visibilidade sobre os dados de seus concorrentes. Esta referência feita por uma autoridade nacional de concorrência é um passo essencial para bloquear o acordo”.
A decisão da Comissão Europeia pode definir os próximos passos para o mercado musical independente e determinar se novas fusões desse porte serão permitidas no futuro. Com um histórico de intervenção em consolidações anteriores, a União Europeia terá um papel central na definição dos rumos da concorrência no setor musical.
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