Ticketmaster demite cerca de 350 funcionários em 25 países e reduz equipes de produto e design
Ticketmaster reduz 8% da equipe global após trimestre de alta na bilheteria e maior pressão jurídica sobre a Live Nation.
Por Nathália Pandeló···4 min de leitura·
A Ticketmaster cortou cerca de 350 funcionários em 25 países, o equivalente a 8% de sua força de trabalho global, em uma reestruturação que atingiu principalmente áreas de engenharia, produto e design. A informação foi publicada pela Pollstar.
O movimento chama atenção porque acontece logo depois da divulgação dos resultados do primeiro trimestre de 2026 da Live Nation Entertainment, dona da Ticketmaster. A companhia registrou receita de US$ 3,79 bilhões, alta de 12% em relação ao ano anterior, acima das estimativas do mercado. A divisão de ingressos também cresceu, com receita de US$ 765 milhões, avanço de 10% no período.
Mesmo com os números positivos, a Live Nation fechou o trimestre com prejuízo operacional de US$ 370,5 milhões, impacto ligado a uma provisão legal de US$ 450 milhões relacionada a investigações e disputas judiciais. Ou seja, a empresa segue vendendo muitos ingressos, mas opera sob um custo jurídico alto e sob forte pressão regulatória.
Corte mira tecnologia, produto e desenho da operação
Segundo a Pollstar, os cortes na Ticketmaster atingiram equipes ligadas ao desenvolvimento da plataforma e também incluíram a redução de contratados. A liderança executiva da empresa, porém, não foi alterada. A decisão foi apresentada como uma tentativa de simplificar estruturas internas e concentrar esforços em áreas consideradas prioritárias.
Saumil Mehta, presidente global da Ticketmaster, disse à Pollstar que o objetivo dos cortes está ligado a uma nova organização das equipes.
“O propósito desses cortes é uma priorização mais forte, especialmente em engenharia, produto e design”, declarou.
A fala aponta para uma reorganização menos ligada à queda de demanda e mais conectada ao tipo de empresa que a Ticketmaster quer ser nos próximos anos. Isso passa por tecnologia, inteligência artificial, combate a fraudes, busca por ingressos legítimos e melhorias na experiência de compra, pontos sensíveis para fãs, artistas e promotores.
Mehta assumiu a presidência global da Ticketmaster em novembro de 2025. Antes, trabalhou na Square, onde atuou em produtos ligados a Cash App, Afterpay e TIDAL. Em abril, durante a Pollstar Live!, ele apresentou uma visão para a empresa com foco em comércio em larga escala, redução de atritos na compra de ingressos e uso de inteligência artificial como ferramenta prática para o setor.
Bilheteria cresce, mas pressão jurídica pesa
Os dados do primeiro trimestre mostram que a operação ticketing continua forte. A Live Nation informou que a Ticketmaster movimentou 138 milhões de ingressos com cobrança de taxas até abril, alta de 9% na comparação anual. O valor bruto das transações chegou a US$ 17 bilhões, aumento de 15%.
Esse cenário ajuda a explicar por que a empresa tenta separar os cortes de uma leitura negativa sobre o desempenho recente. A mensagem da gestão é que a bilheteria segue aquecida, mas que a estrutura precisa ser ajustada para o próximo ciclo de crescimento, principalmente em tecnologia.
Questionado sobre o momento dos cortes, Mehta afirmou à Pollstar que a decisão olha para o futuro da companhia.
“Para mim, o forte desempenho reflete o passado, e isso é sobre o que estamos fazendo para nos preparar para o relatório de resultados daqui a 12 meses, 18 meses, 24 meses”, resumiu.
A frase é um sinal da contradição do momento. A Ticketmaster continua sendo uma das engrenagens mais lucrativas e estratégicas da Live Nation, mas também está no centro de debates sobre taxas, transparência, concentração de mercado e controle da cadeia de shows.
Caso antitruste coloca Ticketmaster sob nova pressão
Além da reestruturação interna, a Live Nation enfrenta um ambiente jurídico mais duro nos Estados Unidos. Em abril, um júri federal concluiu que Live Nation e Ticketmaster monopolizaram ilegalmente mercados ligados à venda de ingressos e a anfiteatros no país, em uma ação movida por 33 estados e pelo Distrito de Columbia. A empresa afirmou que pretende recorrer.
O caso se soma a outros acordos e investigações sobre práticas de venda de ingressos, taxas de serviço e transparência para o consumidor. Para o mercado da música ao vivo, esse é um ponto central porque a bilheteria deixou de ser apenas uma etapa operacional e virou parte direta da disputa por dados, margem, relacionamento com fãs e controle da jornada de compra.
Nesse contexto, o corte de 350 funcionários ganha uma leitura mais ampla. Não se trata apenas de redução de custos. A Ticketmaster tenta reposicionar sua estrutura em um momento no qual precisa responder, ao mesmo tempo, a fãs insatisfeitos, autoridades reguladoras, artistas, promotores e investidores. O desafio é provar que a tecnologia pode melhorar a experiência de compra sem aprofundar a percepção de concentração em um mercado já bastante questionado.
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