O relatório Sounds of 2026, desenvolvido pela Splice em parceria com a MIDiA Research, parte de um ponto aparentemente simples: para entender para onde a música vai, é preciso observar quem a está criando agora. Em vez de olhar apenas para charts ou consumo final, o estudo analisa dados de downloads e buscas de samples usados por produtores ao redor do mundo ao longo de 2023, 2024 e 2025.
O resultado é um retrato claro de um mercado em transição. A lógica de um gênero central que domina o mainstream perde força, dando lugar a um ecossistema cada vez mais fragmentado, sustentado por microtendências, cenas regionais e cruzamentos culturais. O Brasil aparece não apenas como consumidor, mas como referência estética que atravessa gêneros e fronteiras.
A leitura de “Sounds of 2026” ajuda a entender por que a indústria vive um momento de reorganização. O crescimento de estilos distintos ao mesmo tempo, muitas vezes até opostos entre si, mostra que a ideia de um único “som da vez” já não explica o funcionamento do mercado musical global.
O fim do som dominante e a ascensão das microtendências

Segundo o estudo, a música vive uma mudança estrutural que ocorre poucas vezes por década. O gosto se fragmentou a ponto de o mainstream deixar de ser um espaço homogêneo. Em seu lugar, surgem dezenas de movimentos paralelos, impulsionados por criadores que se conectam diretamente a nichos altamente engajados.
Esse processo é reforçado por sistemas de distribuição cada vez mais personalizados. As plataformas não entregam mais a mesma música para todo mundo, e isso favorece a proliferação de cenas menores, com identidade própria e ciclos mais rápidos. O relatório resume esse movimento com uma ideia central: o “micro” passa a valer mais do que o “macro”.
Na prática, isso significa que vários gêneros podem crescer ao mesmo tempo, sem que um anule o outro. O mercado deixa de buscar um sucessor único para estilos que dominaram a década passada, como o trap, e passa a conviver com múltiplos centros de atenção.
Afro house lidera Sounds of 2026, mas não sozinho
O Afro house foi eleito o “Som do Ano” do relatório, com crescimento de 778% em downloads em 2025. Esse avanço puxou o house da quinta para a segunda posição entre os gêneros mais baixados da Splice, superando pop, R&B e trap. Ainda assim, o estudo deixa claro que o sucesso do Afro house não representa um novo monopólio sonoro.
Enquanto o Afro house cresce com sua abordagem melódica e orgânica, outros estilos avançam em direções distintas. Gêneros mais acelerados, como speed garage e hard dance, também registram um crescimento expressivo. O dado-chave não é apenas quem cresce mais, mas o fato de que crescem juntos, atendendo a públicos diferentes.
Essa convivência reforça a ideia de um mercado plural, em que as tendências não se substituem automaticamente. Elas se sobrepõem, se cruzam e dialogam, criando um ambiente mais complexo para artistas, selos e plataformas.
Brasil como referência estética global

Dentro desse cenário fragmentado, o Brasil aparece em “Sounds of 2026” como um polo de influência. O relatório destaca o crescimento de buscas e downloads ligados a Brazilian funk e Brazilian phonk, além da presença dessas sonoridades em gêneros globais como o phonk e a música eletrônica.
O caso citado no estudo de uma faixa de K-pop construída a partir de referências brasileiras ajuda a ilustrar esse movimento. Não se trata mais de exportação direta de artistas, mas da circulação de elementos rítmicos, timbres e estéticas que passam a integrar produções feitas em outros mercados.
Esse protagonismo dialoga com a busca por autenticidade apontada pelo relatório. Sons associados a contextos culturais específicos ganham espaço em detrimento de estilos mais genéricos. Nesse processo, o Brasil surge como um repertório sonoro reconhecível e valorizado por criadores globais.
Criadores no centro da transformação
Outro ponto central do Sounds of 2026 é o papel dos criadores como motores da mudança. A análise mostra que produtores seguem tendências e ajudam a antecipá-las. O crescimento de buscas costuma preceder picos de downloads, funcionando como um termômetro do que está prestes a ganhar escala.
Ao mesmo tempo, o relatório aponta uma reação ao excesso de tecnologia. O sucesso de packs com vocais e instrumentos orgânicos indica uma demanda por sons mais humanos, em contraste com a automação crescente. Essa busca por equilíbrio ajuda a explicar tanto o avanço do Afro house quanto a valorização de estéticas ligadas ao DIY, como o bedroom pop.
No fim, o estudo sugere que o futuro da música não será definido por um único estilo dominante, mas pela capacidade de artistas e mercados navegarem um ambiente diverso, fragmentado e profundamente conectado. Para o Brasil, o recado é direto: sua influência já faz parte dessa equação global.
Leia mais:
- Lei Rouanet movimentou R$ 25,7 bilhões e sustentou 228 mil empregos em 2024, aponta estudo da FGV
- Sounds of 2026: Estudo da Splice com MIDiA coloca o Brasil no centro das novas microtendências globais
- 19 feiras e conferências do mercado da música para profissionais se atualizarem em 2026
- Sicoob UniCentro Br lança edital com R$ 400 mil para projetos culturais em 2026
- Rio2C abre inscrições para os mercados de audiovisual, música, editorial e soluções criativas









