NMPA anuncia acordos com Udio e KLAY após editoras musicais dos EUA chegarem a US$ 7,29 bilhões
A NMPA negocia licenças em meio à disputa sobre IA, royalties e valorização das composições no mercado musical.
Por Nathália Pandeló···6 min de leitura·
ANational Music Publishers’ Association (NMPA), associação que representa editoras musicais dos Estados Unidos, anunciou acordos com as plataformas de inteligência artificialUdio eKLAY em um momento de forte crescimento do setor. Segundo a entidade, as editoras musicais dos EUA chegaram a US$ 7,29 bilhões em receitas em 2025, contra US$ 2,17 bilhões em 2014.
Os anúncios foram feitos porDavid Israelite, presidente e CEO da NMPA, durante a reunião anual da associação, realizada em Nova York. O movimento coloca as editoras e os compositores no centro da conversa sobre IA na música, especialmente em um ponto que vem gerando disputa: a necessidade de licenciar não só as gravações, mas também as composições usadas no treinamento de modelos.
A discussão passa por uma diferença importante. A gravação é o fonograma, ou seja, aquela versão final que chega ao streaming. A composição é a obra por trás dela, com melodia, letra e estrutura. Para a NMPA, as duas partes precisam ser tratadas com o mesmo peso quando uma empresa de IA usa música para treinar seus sistemas.
O acordo com Udio mira um novo padrão para IA na música
Segundo Israelite, o acordo com a Udio é o primeiro licenciamento setorial da NMPA com uma grande empresa de IA musical. A entidade afirma que o contrato também estabelece um ponto central para o mercado: canções e gravações devem ter o mesmo valor no treinamento de modelos.
“Canções são tão importantes quanto gravações sonoras, se não mais, quando se trata de treinamento de IA”, resume o CEO.
Ele ecoa uma cobrança antiga das editoras musicais. Em muitas negociações sobre inteligência artificial, as gravadoras acabam ganhando mais visibilidade por controlarem os fonogramas. Mas, sem a composição, não existe repertório a ser interpretado, regravado, remixado ou usado como referência por ferramentas generativas.
Israelite descreveu a Udio como uma plataforma que permite ao público reimaginar música a partir de estilos de compositores e artistas. Segundo ele, a empresa aceitou que precisa de autorização de editoras e gravadoras para operar nesse modelo. Os membros da NMPA em situação regular poderão revisar e aderir ao acordo a partir de 15 de junho.
KLAY tenta chegar ao mercado com licenças antes do lançamento
O segundo anúncio envolve a KLAY, em um acordo de princípio que deve ser apresentado aos membros da NMPA durante o verão do hemisfério norte. A plataforma trabalha com um grande modelo musical treinado inteiramente com repertório licenciado, segundo a associação.
O ponto mais relevante é o momento da negociação. Diferentemente de empresas que lançaram produtos primeiro e passaram a discutir direitos depois, a KLAY busca entrar no mercado já com autorizações em mãos. Israelite destacou justamente esse movimento ao dizer que a empresa está garantindo licenças antes de lançar sua plataforma.
“Todos nós sabemos como isso é raro no nosso negócio, onde muitas vezes as pessoas pedem perdão em vez de permissão”, apontou.
A KLAY já havia assinado acordos com as três grandes companhias musicais em novembro de 2025. Com a NMPA, a empresa tenta cobrir também o lado das editoras, o que pode criar um modelo mais completo de autorização para serviços de IA musical.
Licenciamento e processos caminham juntos
Licenciamento de composições para empresas de IA
A NMPA deixou claro que os acordos com Udio e KLAY não significam uma trégua geral para empresas de IA. Israelite afirmou que a entidade pretende seguir licenciando companhias que aceitam negociar e, ao mesmo tempo, processar aquelas consideradas problemáticas.
“Litigar contra maus agentes de IA e licenciar bons parceiros de IA não está em conflito”, diferenciou.
Em junho de 2024, a RIAA processou a plataforma e a Suno em nome de Universal Music Group, Sony Music e Warner Music Group, acusando as empresas de violação massiva de direitos autorais. Desde então, a Udio passou por uma virada no mercado.
A plataforma fechou acordo com a Universal em outubro de 2025, com a Warner em novembro, com a Merlin em janeiro de 2026 e com a Kobalt em abril. A Sony ainda não chegou a um acordo com a Udio, e sua parte no processo segue em aberto. Com isso, a empresa virou uma espécie de teste para a indústria: saiu da posição de alvo judicial e passou a se tornar parceira licenciada de parte do mercado.
Receitas crescem, mas disputa com streaming continua
Durante a reunião anual, Danielle Aguirre, diretora jurídica e de operações da NMPA, informou que as editoras musicais dos Estados Unidos alcançaram US$ 7,29 bilhões em receitas em 2025. Ela também chamou atenção para o avanço desde 2014, quando esse valor era de US$ 2,17 bilhões.
O número mostra o crescimento econômico das composições na última década. O mercado editorial é a área que cuida dos direitos das obras, ou seja, daquilo que compositores e editoras recebem quando uma música é usada em streaming, rádio, vídeos, shows, sincronizações e outros formatos.
Ainda assim, a NMPA voltou a criticar os pacotes de música e audiolivros lançados por Spotify e Amazon Music. Sob o regime de licenciamento dos Estados Unidos, esses pacotes pagam uma taxa menor do que serviços dedicados apenas ao streaming musical. Segundo Aguirre, a mudança reduziu os pagamentos dessas empresas em cerca de 30%.
A entidade também citou estimativas do próprio Spotify, segundo as quais os pacotes teriam custado quase US$ 480 milhões a compositores e editoras desde 2024. O tema continua sendo um dos principais pontos de tensão entre a plataforma e o mercado editorial norte-americano.
IA também acende alerta sobre fraude em streaming
Israelite também afirmou que a IA está acelerando a fraude em streaming. Segundo ele, a Apple Music encontrou cerca de 2 bilhões de streams fraudulentos em 2025. O executivo ainda citou dados da Deezer, que reportou 60 mil faixas totalmente geradas por IA enviadas por dia em janeiro, número que chegou a 75 mil em abril.
Para a NMPA, a combinação entre música sintética em escala, contas falsas e manipulação de plataformas cria um risco que vai além da disputa por royalties. O CEO classificou a fraude em streaming como uma questão de segurança nacional, citando a possibilidade de uso desses mecanismos para lavagem de dinheiro por organizações criminosas.
A entidade anunciou ainda a primeira edição do AI Songs Summit, marcada para setembro em Nashville. O encontro deve reunir editoras, organizações de direitos autorais e grupos de compositores para discutir boas práticas contra fraude e uso malicioso de IA.
“As grandes músicas nunca serão produzidas em massa por máquinas. Estamos aqui para lutar pelo que torna a arte cheia de sentido: a inspiração humana autêntica.”
A mensagem da NMPA é de que a inteligência artificial pode entrar no negócio da música, desde que passe pela porta do licenciamento. Para editoras e compositores, a disputa agora é garantir que essa porta não seja menor do que a aberta para gravadoras.
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