Música no Brasil: 10 dados da pesquisa Globo e Quaest revelam os hábitos, contradições e tendências do consumo no país
Cultura e música aparecem como consenso nacional, mas a pesquisa revela distância entre consumo real e identidade cultural no Brasil
Por Nathália Pandeló···7 min de leitura·
A música está em praticamente todos os aspectos da vida do brasileiro, mas entender como ela é consumida exige ir além dos rankings de streaming. Um estudo inédito da Globo, em parceria com a Quaest, ajuda a organizar esse cenário ao cruzar hábitos culturais, percepção de identidade e dados socioeconômicos.
A pesquisa ouviu milhares de brasileiros em todas as regiões do país, com recorte por renda, escolaridade, idade e repertório cultural. O levantamento combina entrevistas quantitativas com análise de comportamento, buscando entender não só o que as pessoas consomem, mas também como elas interpretam a própria cultura.
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O resultado é um retrato cheio de nuances. Ele mostra um país em que a música funciona como ponto de encontro, mas também revela contradições importantes entre o que o brasileiro valoriza como identidade e o que de fato escuta no dia a dia.
10 dados que explicam como o brasileiro se relaciona com música
1. Sertanejo lidera com 26% e consolida hegemonia no consumo
Gêneros musicais mais ouvidos no Brasil, segundo a pesquisa Globo/Quaest (Crédito: Reprodução)
O sertanejo aparece como o gênero favorito para 26% dos brasileiros, liderando com folga em relação aos demais estilos. O segundo colocado, o gospel, vem bem atrás, com 16%, seguido por forró, piseiro e arrocha, com 10%.
Esse dado reforça uma tendência já observada em plataformas digitais e rankings de execução pública: o sertanejo não é apenas popular, ele domina o consumo em escala nacional. Isso se traduz em turnês de grande porte, presença massiva em playlists e alto volume de receitas tanto no digital quanto no ao vivo.
2. O sertanejo também lidera como símbolo cultural, com 25%
Tipo de música que representa o Brasil, de acordo com a pesquisa (Crédito: Reprodução)
Além de ser o mais ouvido, o sertanejo também é o gênero que mais brasileiros consideram representativo do país, com 25% das menções.
Esse alinhamento entre consumo e identidade não é comum em mercados musicais. Em muitos países, o que representa a cultura não necessariamente é o que lidera o consumo. No Brasil, o sertanejo conseguiu ocupar os dois espaços ao mesmo tempo, o que ajuda a explicar sua força comercial e sua presença em campanhas, marcas e grandes eventos.
3. Samba e pagode têm 23% de representatividade, mas só 9% de consumo
Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil
Aqui aparece um dos dados mais reveladores do estudo. Samba e pagode são vistos como altamente representativos da cultura brasileira, com 23% das menções, mas aparecem apenas em quarto lugar na preferência real, com 9%.
Na prática, isso mostra que esses gêneros seguem como pilares simbólicos da identidade nacional, mas perderam espaço no consumo cotidiano. Para o mercado, isso abre duas frentes: explorar o valor cultural desses estilos em narrativas e branding, ou tentar reconectá-los com as novas gerações em termos de consumo.
4. Gospel é o segundo gênero mais ouvido, com 16%…
Músicas mais populares por região, segundo pesquisa (Crédito: Reprodução)
As músicas religiosas aparecem como preferência para 16% dos brasileiros, consolidando o gospel como o segundo maior gênero do país em termos de consumo.
Esse número mostra a força de um público altamente engajado, com hábitos de escuta recorrentes e forte conexão comunitária. Diferente de outros segmentos, o consumo de gospel costuma ser menos volátil e mais fiel, o que cria uma base sólida para artistas e projetos do segmento.
5. … Mas o gospel tem só 5% de representatividade cultural
Apesar da força no consumo, apenas 5% dos entrevistados consideram o gospel como representativo da cultura brasileira.
Esse descolamento revela um ponto interessante: o gospel é extremamente relevante no dia a dia, mas ainda não ocupa o mesmo espaço no imaginário coletivo. Isso indica um potencial de crescimento não apenas em números, mas também em presença simbólica, especialmente fora dos ambientes religiosos.
6. Forró, piseiro e arrocha somam 10% de consumo e 12% de identidade
João Gomes no audiovisual “Pé de Serrita” (Crédito: Divulgação)
Os gêneros ligados ao Nordeste aparecem com 10% de preferência e 12% de representatividade, um equilíbrio raro dentro do estudo.
Isso mostra que esses estilos conseguem dialogar tanto com o consumo quanto com a percepção cultural. O dado também reforça o papel do Nordeste como um dos principais polos criativos do país, influenciando tendências que depois ganham escala nacional.
7. MPB aparece com apenas 8% de preferência
Violão segue relevante entre os jovens – Crédito: Quoc Bao
A MPB, historicamente associada à ideia de música brasileira, surge com apenas 8% das preferências, ficando atrás de gêneros populares mais recentes.
Esse número indica uma mudança geracional importante. A MPB segue relevante como referência cultural e artística, mas já não ocupa o mesmo espaço no consumo de massa. Ela passa a funcionar mais como repertório de formação do que como produto dominante no mercado.
8. Música está entre os maiores consensos do país
O estudo Globo/Quaest é abrangente, dialogando com diferentes aspectos culturais. Ao lado da culinária, a música aparece como um dos poucos pontos de consenso entre os brasileiros.
Isso é especialmente relevante em um país marcado por desigualdades e diferenças regionais. A música funciona como um território comum, capaz de atravessar classes sociais, idades e contextos culturais. Para marcas e plataformas, isso reforça o potencial da música como ferramenta de conexão em larga escala.
9. Cultura religiosa e mídia definem o consumo musical
O estudo aponta que as culturas mais vividas no Brasil são a religiosa e a de mídia. Isso ajuda a explicar dois fenômenos claros: o crescimento do gospel e a centralidade de plataformas digitais e televisão na formação de hits.
Isso significa que o consumo musical no Brasil é altamente influenciado por dois eixos: comunidade e exposição. O que circula nesses ambientes tende a ganhar escala mais rapidamente.
10. Formação cultural depende mais da família do que da renda
Alunos têm aulas na sede do Espaço Cultural da Grota (Crédito: Divulgação)
Um dos dados mais interessantes do estudo mostra que a escolaridade da mãe e o hábito de leitura na infância são fatores mais determinantes para o repertório cultural do que a própria renda.
Isso muda a forma de olhar para o consumo musical. Não se trata apenas de acesso financeiro, mas de formação ao longo da vida. Pessoas com maior repertório cultural tendem a consumir mais diversidade, explorar novos artistas e sair do circuito mais óbvio.
O que os dados revelam sobre o fã de música brasileiro
O estudo mostra que o fã de música no Brasil não pode ser entendido apenas pelo que ele ouve. Existe uma diferença clara entre consumo, identidade e formação cultural, e essas três dimensões nem sempre caminham juntas.
De um lado, o consumo real é dominado por gêneros como sertanejo, gospel e ritmos populares do Nordeste, que concentram grande parte da audiência e movimentam a indústria. De outro, a identidade cultural ainda está ancorada em referências históricas, como samba e MPB, que seguem fortes no imaginário coletivo.
Ao mesmo tempo, há um fator estrutural que atravessa tudo isso. O repertório cultural é construído desde cedo, dentro de casa, e influencia diretamente o tipo de música que cada pessoa vai consumir ao longo da vida. Isso significa que o futuro da indústria musical passa não só por lançamentos e algoritmos, mas também por educação, acesso e formação de público.
No fim das contas, o retrato que emerge é o de um país múltiplo, em que tradição e consumo convivem, mas nem sempre se encontram. Entender essa dinâmica é o que separa estratégias genéricas de decisões realmente eficazes dentro do mercado musical.
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