Relatório da Luminate aponta Ásia como força central da indústria da música global
O estudo detalha números da Ásia em streaming, formato físico, ao vivo e novos modelos de monetização em 2025.
Por Nathália Pandeló···5 min de leitura·
Não é de hoje que o mercado de música na Ásia é uma força de exportação e muito consumo. O novo relatório “Asia: A Global Force in Music”, divulgado em fevereiro de 2026 pela Luminate Intelligence, apresenta um panorama detalhado sobre como alguns dos principais polos – Coreia do Sul, Japão, Índia e China – estão redefinindo o eixo de crescimento do setor.
Os dados mostram que o continente cresce acima da média mundial em streaming, mantém participação relevante em música física e avança em modelos de monetização voltados para superfãs. Mais do que exportar artistas, os mercados asiáticos começam a exportar formatos de negócio e estratégias culturais.
Streaming avança em ritmo superior ao global
Quanto cada usuário da Ásia gera em receita por país (Crédito: Divulgação)
Segundo o levantamento da Luminate, países como Índia, Indonésia e Filipinas registraram alguns dos maiores crescimentos anuais em streams premium sob demanda em 2025. A Índia teve alta de 38,9% em relação ao ano anterior, enquanto a Indonésia cresceu 19,7% e as Filipinas 17,5%. No mesmo período, a média global foi de 7%.
Em volume absoluto, a Índia atingiu 489,9 bilhões de streams sob demanda em 2025, tornando-se o segundo maior mercado do mundo em consumo, atrás apenas dos Estados Unidos.
Mesmo com o avanço do digital, o físico segue relevante. A IFPIaponta que a região respondeu por 45,1% da receita global de música física em 2024. Japão, China e Coreia do Sul aparecem entre os dez maiores mercados fonográficos do planeta, com a China figurando entre os que mais crescem no ranking internacional.
Coreia do Sul: transição do K-pop e força do ao vivo
aespa (Crédito: Divulgação)
A Coreia do Sul segue como referência em exportação cultural. O K-pop registrou 22,1 bilhões de streams globais no quarto trimestre de 2025, queda de 25% em relação ao ano anterior, em parte devido à menor quantidade de grandes lançamentos.
Ao mesmo tempo, o setor ao vivo ganhou protagonismo. As quatro principais empresas de entretenimento do país reportaram crescimento de receita impulsionado por shows e turnês, e 2026 é projetado como um ano de forte recuperação com novos álbuns e grandes circuitos internacionais.
O modelo também evolui. O grupo KATSEYE, formado a partir do sistema de treinamento coreano, mas baseado em Los Angeles, acumulou 2,6 bilhões de streams globais sob demanda em 2025, crescimento de 566% em relação a 2024. A estratégia aponta para uma expansão do método K-pop em mercados como América Latina, Índia e África, com grupos locais estruturados sob lógica coreana.
Japão: potência interna e busca por internacionalização
Crédito: Sunket Mishra
O Japão mantém posição de destaque como segundo maior mercado fonográfico do mundo, mas ainda fortemente voltado ao consumo doméstico. A banda Mrs. GREEN APPLE, por exemplo, acumulou 6,8 bilhões de streams em 2025, sendo aproximadamente 95% originados dentro do próprio país.
A internacionalização passa principalmente por duas frentes. A primeira é o anime, que funciona como plataforma de exposição global. A cantora Ado alcançou 212,1 milhões de streams nos Estados Unidos em 2025 e realizou turnê mundial com arenas esgotadas fora do Japão.
A segunda frente é o ao vivo. Em 2025, 25,7% da geração Z japonesa declarou ter ido a um evento musical nos últimos 12 meses, crescimento em relação aos anos anteriores. O desafio está na infraestrutura, com escassez de grandes venues devido a reformas e limitações estruturais.
Índia: enorme volume, baixa conversão premium
Média de gastos com música por país (Crédito: Reprodução)
A Índia se consolidou como um dos maiores mercados em consumo, com 489,9 bilhões de streams sob demanda em 2025. No entanto, 84% desse total foi sustentado por anúncios, enquanto apenas 16% vieram de assinaturas pagas.
O relatório também destaca a diferença na receita média por usuário. Enquanto mercados desenvolvidos como Estados Unidos e Reino Unido operam acima de US$ 30 por usuário, a Índia registra média de US$ 3.
Há também uma transformação cultural em curso. Em 2020, 80% do consumo musical indiano estava ligado a trilhas de filmes. Em 2024, essa participação caiu para 63%, indicando crescimento de artistas independentes e cenas regionais.
O caso de Hanumankind ilustra essa transição. A música “Big Dawgs” alcançou a 23ª posição na Billboard Hot 100, e o artista foi o segundo mais ouvido nos Estados Unidos entre nomes baseados na Índia em 2025, com 137,6 milhões de streams de áudio sob demanda.
China: modelo Super VIP e avanço da tecnologia
Na China, a Tencent Music Entertainmentapostou no plano “Super VIP”, que custa cerca de 40 yuans por mês e oferece áudio de alta qualidade, conteúdos exclusivos e acesso antecipado a eventos. Em agosto de 2025, o serviço contava com 15 milhões de assinantes desse nível, contribuindo para crescimento de 17,2% na receita de assinaturas no terceiro trimestre.
O comportamento do consumidor também chama atenção. Pesquisas citadas no relatório indicam que os superfãs chineses têm maior propensão a comprar produtos digitais, participar de experiências virtuais e interagir financeiramente com artistas em comparação com consumidores norte-americanos.
A tecnologia é outro eixo central. Dados apontam que 56,9% das músicas independentes lançadas na China em 2025 têm base em inteligência artificial. No mercado ao vivo, o crescimento foi de 46,6% em 2024, alcançando 38,7 bilhões de yuans, o equivalente a aproximadamente US$ 5,6 bilhões.
Um novo centro de crescimento
Plataformas de streaming (Crédito: Cottonbro Studio)
O panorama consolidado pelo estudo indica que a região se tornou um dos principais vetores de expansão da indústria musical. Isso por que o streaming cresce acima da média global em vários países, o físico ainda tem peso relevante, o ao vivo se expande rapidamente e novos modelos de monetização voltados a superfãs ganham escala.
Mais do que acompanhar tendências, os mercados asiáticos passam a influenciar a dinâmica global. O relatório da Luminate sugere que o próximo ciclo de inovação do setor pode nascer justamente nesses territórios, onde cultura local, tecnologia e estratégia comercial caminham juntas.
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