Gravadoras independentes reduzem volume de lançamentos e priorizam elencos menores, aponta novo levantamento da MIDiA

A labels independentes entram em 2026 focadas em menos contratos e mais desenvolvimento artístico, segundo pesquisa global com 144 selos e distribuidoras.
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Nathália Pandeló
Selos independentes passam a lançar menos artistas e músicas
Selos independentes passam a lançar menos artistas e músicas (Crédito: Reprodução)

As labels independentes estão mudando de rota. Depois de anos apostando em catálogos cada vez mais extensos e agendas de lançamentos aceleradas, as gravadoras ‘indie’ começam a trocar quantidade por foco. A conclusão aparece no terceiro levantamento anual da MIDiA Research com selos e distribuidoras independentes, divulgado em janeiro de 2026.

O estudo ouviu 144 empresas que se autodeclaram independentes e mostra que o discurso do “quanto mais, melhor” perdeu força. Se 2024 foi marcado por ajustes e revisões internas, 2025 funcionou como um período de refinamento. A prioridade passou a ser estruturar catálogos mais enxutos, com maior capacidade de investimento em cada artista.

Essa mudança ajuda a entender como os independentes estão tentando se adaptar a um mercado mais caro, mais competitivo e cada vez mais saturado de lançamentos. Em vez de aumentar o número de contratos, a lógica agora é proteger o que já existe e tentar extrair mais valor de cada projeto.

Menos contratos, mais cautela no A&R

Um dos principais fatores por trás dessa guinada está no custo de contratação e desenvolvimento. Embora menos da metade dos selos afirmem que assinar artistas esteja mais caro do que há dois anos, esse grupo cresceu quase dez pontos percentuais desde 2023. O dado indica uma tendência clara de pressão financeira no A&R das labels independentes.

Ao mesmo tempo, caiu o número de selos que dizem estar lançando mais música do que antes. Após um pico em 2024, o ritmo começou a desacelerar. A percepção é que manter muitos projetos ativos ao mesmo tempo compromete o acompanhamento artístico e a construção de carreira no médio prazo.

Outro ponto central é a preocupação com o desenvolvimento artístico. Em 2025, quase três quartos dos respondentes concordaram que o foco excessivo em resultados rápidos está deixando esse processo de lado. É o índice mais alto já registrado pela pesquisa nesse quesito, reforçando a sensação de que o modelo anterior não estava se sustentando.

Saturação do streaming pressiona estratégia

Plataformas de streaming - Spotify, Apple Music, IFPI
Plataformas de streaming (Crédito: Cottonbro Studio)

O cenário de excesso de conteúdo aparece como pano de fundo dessa reavaliação. Se destacar na multidão continua sendo o maior desafio da era do streaming, mas o problema não termina quando um lançamento consegue atenção inicial. Manter o interesse do público depois disso virou outra barreira importante.

Mais de 75% das gravadoras independentes dizem que reter audiência está mais difícil hoje do que em anos anteriores. Mesmo quando um single ou álbum performa bem no início, a competição por atenção é constante e imediata. O número cada vez maior de lançamentos, que antes parecia uma vantagem estratégica, passou a trabalhar contra os próprios selos.

No início da década, a lógica era ocupar espaço nas plataformas com frequência e volume. O próprio relatório de 2023 da MIDiA usava a ideia do “jogo do volume” como síntese daquele momento. Agora, os dados mostram que essa estratégia deixou de funcionar para boa parte do mercado independente.

Prioridades mudam para 2026

A virada fica ainda mais clara quando o levantamento compara as prioridades declaradas pelos selos ao longo dos últimos três anos. Entre 2023 e 2025, a opção “assinar mais artistas” caiu dez pontos percentuais. No mesmo período, “focar em menos artistas” cresceu 16 pontos, tornando-se uma das principais diretrizes para 2026.

As estratégias mais expansivas, como buscar novos mercados ou criar novas fontes de receita, perderam espaço no curto prazo. A maioria das gravadoras independentes deixou de apontar essas frentes como prioridade imediata, preferindo fortalecer as operações já existentes.

O movimento não é exatamente novo, mas ganhou peso em 2025. O que antes aparecia como uma tendência emergente agora se consolida como uma decisão estratégica mais ampla dentro do mercado independente.

Um novo ciclo para as independentes

MIDiA

Com os ajustes feitos, 2026 surge como um ano de colheita. A expectativa dos selos é que os elencos menores permitam um planejamento mais cuidadoso, investimentos mais direcionados e relações mais consistentes com artistas e públicos.

O levantamento da MIDiA sugere que o ambiente dos independentes mudou de forma estrutural nos últimos anos. A corrida por escala deu lugar a um olhar mais pragmático sobre limites operacionais, custos e capacidade real de desenvolver carreiras.

Em vez de tentar competir em volume com grandes grupos ou com a própria dinâmica do streaming, muitas gravadoras independentes parecem dispostas a apostar naquilo que sempre foi seu diferencial: proximidade, curadoria e atenção individual aos projetos que escolhem defender.

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