Guerreiras do K-Pop leva Globo de Ouro por “Golden” e EJAE destaca volta por cima após rejeição na indústria da música

A vitória marca um feito inédito do K-Pop no Globo de Ouro e dá visibilidade à trajetória de EJAE fora do sistema idol.
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Nathália Pandeló
EJAE recebe prêmio por Guerreiras do K-Pop
EJAE recebe prêmio por Guerreiras do K-Pop (Crédito: Reprodução)

O Globo de Ouro de 2026, realizado no último domingo (11), teve uma noite cheia de momentos marcantes. O Brasil saiu com dois dos principais prêmios, com “O Agente Secreto” levando melhor filme em língua não inglesa e Wagner Moura vencendo como melhor ator em filme de drama. Mas a cerimônia também entrou para a história da música com a vitória de “Golden”, canção do filme “Guerreiras do K-Pop”, na categoria de melhor música original. O hit se tornou a primeira faixa do gênero a conquistar o troféu, frequentemente visto como um indicativo do Oscar, e colocou o maior sucesso da história da Netflix no centro da premiação.

Mais do que a vitória em si, o momento ganhou força pelo discurso de EJAE, cantora e compositora e uma das responsáveis pela música. No palco, ela decidiu voltar o olhar para trás e falar sobre rejeição, frustração e mudança de rota em uma das indústrias mais rígidas do entretenimento mundial.

Antes mesmo do prêmio, “Golden” já era um fenômeno. Em 2025, a faixa liderou a Billboard Hot 100 por oito semanas consecutivas, um desempenho raro mesmo para artistas consolidados do pop internacional. O Globo de Ouro funcionou, assim, como um reconhecimento institucional de um sucesso que já vinha sendo validado pelo público.

EJAE, o sonho de ser idol e o funcionamento do K-Pop

Nascida Kim Eun-Jae, EJAE cresceu com o objetivo de se tornar uma idol de K-Pop, termo usado para artistas treinados por agências para cantar, dançar e atuar dentro de grupos altamente coreografados e controlados. Como milhares de jovens, ela passou por audições, treinamentos intensivos e avaliações constantes conduzidas por grandes empresas de entretenimento.

No discurso no Globo de Ouro, EJAE resumiu essa trajetória de forma direta.

“Quando eu era criança, trabalhei incansavelmente por 10 anos para realizar um sonho, o de me tornar uma idol de K-Pop, e fui rejeitada e fiquei decepcionada quando me disseram que minha voz não era boa o suficiente.”

A fala ajuda a traduzir como funciona o sistema do K-Pop na prática. As agências investem anos na formação de trainees, mas apenas uma parcela mínima estreia em grupos de alcance. O processo é seletivo, baseado em critérios vocais, visuais, comportamentais e estratégicos, e o descarte é parte estrutural do modelo.

No caso de EJAE, a rejeição não significou abandono da música, mas uma mudança de posição dentro da indústria. Fora do caminho tradicional de idol, ela passou a atuar como compositora, cantora de estúdio e colaboradora criativa, áreas menos visíveis ao público, porém essenciais para o funcionamento do pop global.

Guerreiras do K-Pop, da Netflix
Guerreiras do K-Pop, da Netflix (Crédito: Divulgação)

“Golden” e a transformação da rejeição em narrativa

Ao falar sobre o impacto da música, EJAE conectou sua experiência pessoal ao alcance coletivo de “Golden”.

“É um sonho realizado fazer parte de uma música que está ajudando outras meninas, outros meninos e pessoas de todas as idades a atravessarem suas dificuldades e se aceitarem.”

A mensagem dialoga diretamente com o enredo de “Guerreiras do K-Pop”, que acompanha um grupo feminino dividido entre a vida pública como estrelas da música e batalhas contra forças sobrenaturais. Por trás da fantasia, o filme aborda temas comuns ao K-Pop real, como pressão extrema, expectativa constante e conflitos de identidade.

A força de “Golden” está justamente em ir na contramão do discurso de perfeição que costuma cercar o gênero. Em vez de exaltar apenas vitória e excelência, a música fala de falhas, desvios e reconstrução, algo pouco explorado de forma aberta na narrativa pública das idols.

Ao dedicar o prêmio, EJAE deu destaque a esse recado.

“Este prêmio é para todas as pessoas que tiveram portas fechadas. Posso dizer com confiança que rejeição é redirecionamento. Nunca é tarde demais para brilhar como você nasceu para brilhar.”

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Além da vitória de “Golden”, “Guerreiras do K-Pop” também levou o Globo de Ouro de melhor animação, consolidando o filme como um fenômeno cultural. Produzido pela Netflix, o longa se tornou um dos títulos mais populares da plataforma e mostrou como o K-Pop pode funcionar como linguagem narrativa no audiovisual, não apenas como trilha sonora.

O filme se destaca ao apresentar personagens femininas complexas, que combinam força, humor, insegurança e desejo, fugindo de estereótipos comuns. A trilha sonora acompanha essa proposta e funciona como um projeto musical completo, capaz de disputar espaço real nas paradas globais.

A trajetória de EJAE sintetiza esse momento de transição. Sua história mostra que o K-Pop já não se limita ao caminho único da idol perfeita. Há espaço para profissionais que ficaram à margem do sistema, mas encontraram reconhecimento ao reconstruir suas trajetórias. O Globo de Ouro, então, funciona como símbolo de uma mudança silenciosa em uma das indústrias musicais mais fechadas do mundo.

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