Harry Styles, Coldplay, Katy Perry e mais apoiam fundo para financiar turnês de novos artistas

O fundo LIVE Trust destina recursos para reduzir custos de turnê de artistas e bandas independentes e fortalecer a música ao vivo.
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Nathália Pandeló
Harry Styles, Coldplay, Sam Fender e Katy Perry estão entre artistas que apoiam o fundo LIVE Fund
Harry Styles, Coldplay, Sam Fender e Katy Perry estão entre artistas que apoiam o fundo LIVE Fund

O fundo LIVE Trust surgiu no Reino Unido como uma resposta da própria indústria à crise que afeta a música ao vivo nos últimos anos. Com custos de produção cada vez mais altos e menos espaço para artistas iniciantes circularem, representantes do setor passaram a discutir formas de redistribuir parte da receita gerada pelas grandes turnês para fortalecer a base do ecossistema musical.

A solução encontrada foi criar um fundo financiado por shows de grande porte. Artistas que realizam apresentações em arenas e estádios contribuem com cerca de £1 (ou R$ 6,92, na cotação atual) por ingresso vendido, valor que passa a alimentar programas voltados para artistas emergentes, casas de shows independentes, promotores e festivais de menor porte. O objetivo é manter ativo o circuito onde surgem novos talentos.

Desde que começou a operar, o fundo já acumulou cerca de £5 milhões. Entre os artistas que já contribuem para o fundo estão Harry Styles, Coldplay, Sam Fender e Katy Perry. Parte desse dinheiro começa agora a chegar diretamente aos artistas por meio de programas específicos de apoio à circulação ao vivo, um dos principais gargalos da indústria no momento.

Como funciona o fundo que ajuda artistas a sair em turnê

Músico e artista independente toca na rua - turnê é inviável para 82% dos músicos independentes
Crédito: Josh Appel/Unsplash

Um dos principais programas financiados pelo fundo LIVE Trust é o UK Artist Touring Fund, criado para reduzir o impacto financeiro das turnês de artistas em início ou meio de carreira. A iniciativa oferece contribuições complementares para cobrir déficits no orçamento de shows já planejados.

Os artistas podem solicitar até £7.000, valor que pode cobrir até 40% dos custos elegíveis da turnê. Para se qualificar, é necessário realizar ao menos três shows como atração principal no Reino Unido em casas com capacidade entre 75 e 2 mil pessoas, além de ter lançado música original nos últimos três anos.

Segundo David Martin, diretor executivo da Featured Artists Coalition, a iniciativa nasceu a partir de conversas com representantes do setor sobre as dificuldades crescentes para levar artistas à estrada.

A lógica do programa é complementar recursos que artistas ou equipes já tenham mobilizado. Muitas turnês são planejadas mesmo com previsão de prejuízo, já que os shows funcionam como uma ferramenta essencial de divulgação e construção de público. O fundo atua justamente para reduzir essa diferença entre custo e receita.

A crise que levou à criação do fundo

Informalidade no setor musical - Caixa de guitarra com moedas e notas de dinheiro

O aumento de custos no setor ao vivo se tornou um problema para a indústria britânica. Isso porque os gastos com transporte, hospedagem, equipamentos e equipes técnicas cresceram nos últimos anos, pressionados também pela crise do custo de vida no país.

Um relatório do Parlamento Britânico sobre o setor cultural apontou que o número de artistas capazes de sair em turnê pelo Reino Unido e pelo exterior caiu até 74% em comparação com os níveis anteriores à pandemia. A redução não está ligada apenas à demanda do público, mas principalmente ao custo de produção dos shows.

Dados da Music Venue Trust mostram que mais da metade das casas de música independente do Reino Unido não registrou lucro em 2025. Esse cenário afeta diretamente a circulação de artistas, já que esses espaços funcionam como a base do circuito de shows.

Com isso, muitos artistas passaram a reduzir o número de cidades visitadas durante as turnês. Em vez de percorrer diferentes regiões do país, as agendas acabam concentradas em grandes centros como Londres, Manchester ou Birmingham, onde a venda de ingressos tende a ser mais previsível.

Um fundo que financia todo o ecossistema da música ao vivo

shows ao vivo, Eventim

O fundo LIVE Trust não se limita a apoiar artistas. Parte dos recursos também é direcionada a programas que fortalecem diferentes pontos da cadeia da música ao vivo, incluindo venues, promotores e festivais independentes.

Entre as primeiras iniciativas financiadas estão programas de apoio a casas de show em dificuldades financeiras, bolsas para promotores iniciantes e projetos voltados à formação de profissionais do setor. A ideia é garantir que o circuito independente continue funcionando, permitindo que novos artistas tenham onde se apresentar.

Segundo Jon Collins, CEO da organização LIVE, o objetivo é direcionar recursos para áreas onde o impacto pode ser mais imediato. O modelo parte da ideia de que investir na base da indústria beneficia toda a cadeia no longo prazo. Ou seja, os artistas que hoje recebem apoio podem se tornar atrações maiores no futuro e eventualmente contribuir para o fundo que ajudará a próxima geração.

O que essa discussão revela sobre a realidade brasileira

Público jovem curte festival - ingressos

No Brasil, a realidade de artistas independentes que tentam construir uma carreira na música não é muito diferente da observada em outros países. Para muitos, os primeiros anos envolvem equilibrar diferentes fontes de renda enquanto o projeto artístico ainda está em desenvolvimento. É comum que os músicos conciliem shows, gravações e atividades paralelas até que a carreira consiga gerar receita suficiente para sustentar a própria estrutura.

Essa dinâmica faz parte da própria lógica da indústria musical. Em diversos mercados, os artistas iniciantes dependem de um período de investimento pessoal e de apoio de equipes, selos, produtores ou parceiros até que a base de público se consolide. A circulação ao vivo costuma ser um dos principais caminhos para construir essa trajetória, já que os shows funcionam tanto como fonte de renda quanto como forma de conquistar novos ouvintes.

No contexto brasileiro, mecanismos públicos e institucionais são indispensáveis nesse processo. Leis de incentivo à cultura, editais de circulação e programas culturais patrocinados por empresas ajudam a viabilizar turnês, festivais e circuitos de shows que aumentam o acesso do público a novos artistas. Esses instrumentos se tornaram importantes para a manutenção de uma agenda de apresentações em diferentes regiões do país.

Ao mesmo tempo, o Brasil possui desafios específicos. As dimensões continentais do território tornam a logística de turnês mais complexa e cara, especialmente para artistas em início de carreira. Deslocamentos longos, transporte de equipamentos e custos de produção podem limitar a circulação regular fora dos grandes centros.

Mesmo assim, a diversidade regional do país também cria um ambiente fértil para a música ao vivo. Festivais independentes, circuitos culturais, casas de show e eventos locais continuam sendo pontos de encontro entre artistas e público, contribuindo para a descoberta de novos talentos e para a renovação constante da cena musical.

Iniciativas internacionais como o fundo LIVE Trust ajudam a evidenciar um debate mais amplo sobre como diferentes setores da indústria podem colaborar para manter saudável o ecossistema da música ao vivo. Independentemente do modelo adotado em cada país, o objetivo costuma ser o mesmo: garantir que novos artistas consigam chegar ao palco e encontrar o público que pode acompanhar suas carreiras nos anos seguintes.

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