Um novo projeto que revisita a obra de Chico Buarque está em desenvolvimento e propõe uma conexão direta entre diferentes gerações da música brasileira. Idealizado por Felipe Poeta em parceria com o produtor e maestro Alê Siqueira, o trabalho reúne nomes da música urbana contemporânea para reinterpretar um dos repertórios mais importantes do país.
Poeta é fundador da Tha House, hub criativo que atua no desenvolvimento de projetos musicais e culturais conectados à cena funk e trap, o que ajuda a entender a base conceitual por trás da iniciativa. Ela parte de um ponto claro: transformar a escuta de Chico para o presente sem descaracterizar a essência de suas composições.
Com participações já confirmadas como Xamã, Budah, Wiu, Cabelinho, Melly, MC Tuto, Nega Gizza e Vandal, o projeto se estrutura como uma ponte entre tradição e linguagem atual, com decisões estratégicas que atravessam curadoria, produção e direção artística. Até o momento o repertório específico que será revisitado ainda não foi divulgado e o álbum segue em fase de definição final das faixas, ainda sem previsão de lançamento.
Um projeto que nasce com propósito definido
A ideia de revisitar Chico Buarque não surgiu de forma casual. Segundo Felipe Poeta, o projeto começa com uma leitura muito direta sobre o papel desse repertório hoje e sua capacidade de dialogar com diferentes contextos sociais.
“A obra de Chico Buarque é referência histórica tanto no aspecto das letras e narrativas quanto na musicalidade única. Fazer parte da concepção e produção de um projeto que dialoga com gerações diversas e ao mesmo tempo com temas que se mantém tão atuais na sociedade é o que acredito enquanto propósito e o que foi a mola propulsora.”
Esse ponto de partida orienta toda a construção estética. Não se trata apenas de reinterpretar canções conhecidas, mas de reposicioná-las dentro de uma escuta contemporânea, considerando como a música circula hoje e quem são os artistas que dialogam com o público atual.
Isso posiciona o projeto dentro de uma tendência mais ampla da indústria, em que catálogos clássicos vêm sendo reinterpretados por novos nomes para alcançar públicos que consomem música majoritariamente via streaming e playlists editoriais.
Sobre o processo criativo e os desafios do projeto, Ale Siqueira destaca:
“Esse disco é muito desafiador porque parte de uma missão delicada: aproximar dois universos distintos da música brasileira, a música popular e a nova geração do funk, do trap e da música urbana contemporânea. O grande desafio é fazer essa conexão de forma natural, unindo diferentes momentos e vivências da nossa música. Até aqui, estou muito satisfeito com o que vem sendo construído.”
Curadoria colaborativa para construir unidade
Com artistas de universos distintos envolvidos, a curadoria se torna um dos pilares do projeto. A estratégia adotada foi dividir essa responsabilidade entre diferentes agentes com visões complementares.
“O processo de curadoria está sendo colaborativo. Alê Siqueira e eu, bem como Preto Zezé e Celso Athayde, que são pessoas fundamentais nessa construção. Dividimos impressões em busca de termos o que entendemos como grandes representantes para cada interpretação. A música urbana tem muitos talentos que dialogam com a sociedade de forma direta e com extrema capacidade de penetrar nas mais distintas nuances da sociedade”, afirma Felipe Poeta.
Essa construção coletiva indica uma preocupação em garantir coerência artística. Mais do que reunir nomes relevantes, o projeto busca formar um conjunto que funcione como narrativa, com cada artista ocupando um papel específico dentro do todo. A presença de nomes como Zezé e Athayde, ligados historicamente à CUFA (Central Única das Favelas), também aponta para uma preocupação em conectar o projeto com territórios e narrativas que hoje impulsionam a música urbana no país.
O cuidado com a obra original como base da estratégia

Trabalhar com um repertório amplamente reconhecido exige escolhas cuidadosas. Nesse caso, a estratégia passa por preservar elementos centrais da musicalidade de Chico enquanto novas camadas sonoras são incorporadas.
“Quem guiou mais de perto todo o processo de estudo e de referências foi o Alê Siqueira, que, para mim, é um dos maiores produtores da música brasileira na atualidade. A discografia dele é impressionante. Logo no começo do projeto, eu pude observar como ele pensa e articula as referências. Isso, somado aos músicos, cada um trazendo a sua própria visão, foi fundamental para o resultado”, conta Felipe Poeta.
“Ao mesmo tempo, buscamos dialogar com sonoridades contemporâneas — seja por meio de sintetizadores, seja substituindo linhas de baixo orgânicas por timbres de 808, por exemplo. O Alê trouxe ideias excepcionais dentro do estúdio durante a semana em que estivemos juntos no Rio, o que ajudou a consolidar essa identidade sonora”, ele complementa.
Esse equilíbrio entre preservação e atualização aparece como um dos principais diferenciais do projeto, evitando tanto a reprodução literal quanto a descaracterização do material original.
A música urbana como linguagem estruturante
A presença da música urbana no projeto não é meramente estética, mas estrutural. Felipe Poeta e Alê Siqueira têm histórico nesse campo, o que influencia diretamente a forma como as canções estão sendo reconstruídas.
“Tanto eu quanto o Alê somos apaixonados pela cultura urbana. Ele, inclusive, produziu o RZO, então carrega essa vivência não só com grandes nomes da MPB, mas também com a música urbana. Essa tem sido a grande magia da construção desse projeto, não ser uma coisa ou outra, mas encontrar um meio-termo, em que as harmonias dialogassem com timbres contemporâneos”, ele pontua.
“Toda a complexidade de acordes e modulações presentes na obra do Chico está sendo traduzida para uma estética sonora moderna, que hoje vemos tanto em produções urbanas brasileiras”, completa.
Ao incorporar esses elementos, o projeto se alinha a uma lógica atual de consumo, em que gêneros e referências se misturam de forma mais fluida, sem fronteiras rígidas.
Um projeto que mira impacto além do lançamento
Embora estruturado como álbum, o projeto nasce com uma ambição mais ampla. A proposta é se inserir em um movimento contínuo de troca entre gerações dentro da música brasileira.
“Antes de qualquer coisa, este projeto é brasileiro, é Chico Buarque. Na música urbana, e na música como um todo, existe sempre uma espécie de interpolação contínua: um artista bebe na fonte do outro, um ritmo mescla com outro e deriva em outro e assim a história segue. Acredito que este álbum faz algo semelhante ao que já foi feito no passado com artistas que gravaram projetos únicos pela Motown: uma releitura respeitosa, viva!”, conclui Felipe Poeta.
A construção aponta para um projeto que não olha para trás de forma nostálgica, mas como matéria prima e pulsante. Ao aproximar Chico Buarque da linguagem da música urbana, o trabalho sugere um caminho possível para a continuidade da música brasileira: aquele em que tradição e presente não disputam espaço, mas se atravessam e seguem em transformação.
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