O mercado de música ao vivo e eventos no Brasil vive um momento de expansão, mas com sinais claros de pressão no modelo de negócios. Dados recentes da Associação Brasileira dos Promotores de Eventos (ABRAPE) indicam que o setor movimentou R$ 25,33 bilhões no primeiro bimestre de 2026, o maior valor da série histórica iniciada em 2019.
Ao mesmo tempo, o estoque de empregos formais no core business de eventos chegou a 205.538 vagas em fevereiro, um crescimento de 84,5% em relação ao período pré-pandemia. Mesmo com esse cenário positivo, produtores e executivos apontam um mercado mais complexo, com aumento de custos, distorções em cachês e mudanças no comportamento do público.

Crescimento histórico contrasta com desafios operacionais
Os números da ABRAPE mostram um setor em plena expansão. Além do avanço no consumo, todos os segmentos operam hoje acima do nível pré-pandemia. No chamado hub setorial, que inclui áreas como turismo, alimentação e infraestrutura, o total de empregos chegou a 4,27 milhões, um crescimento de 23,8% em relação a 2019.
Apesar disso, a leitura de quem atua diretamente no mercado é mais cautelosa. Para Potyra Lavor, CEO da IDW Company, o cenário exige análise detalhada de cada projeto.
“Hoje, o mercado de entretenimento ao vivo vive um momento de transformação, com múltiplas variáveis tornando o cenário mais complexo e desafiador. Não dá para afirmar que o modelo é sustentável de forma generalizada — isso depende muito de cada projeto. Artistas consolidados tendem a oferecer menos risco, mas a viabilidade passa diretamente pelo porte e pelo desenho da iniciativa”, afirma.

Por outro lado, o setor enfrenta pressões importantes, argumenta Potyra:
“Aumento de cachês, custos operacionais elevados e impactos cada vez mais imprevisíveis de fatores como a crise climática, que afeta diretamente a presença do público em eventos. O mercado está se reconfigurando e os modelos que funcionavam bem no passado já não se sustentam da mesma forma”, completa.
Brasil se consolida na rota global de turnês
O avanço do setor também está ligado à consolidação do Brasil no circuito internacional de shows. Segundo executivos do mercado, o país deixou de ser uma aposta para se tornar uma parada recorrente nas agendas globais.
“É difícil você ter informação precisa de ranking, mas o fato é que o Brasil definitivamente já está na rota, seja dos grandes shows, das turnês e dos festivais. Em especial nos períodos fora do verão americano e europeu, como início e final de ano, quando esses eventos entram no calendário dos artistas internacionais”, explica Luis Justo, CEO da Rock World.

Esse movimento ajuda a sustentar o crescimento do setor, mas também eleva a concorrência por artistas e pressiona os custos. Para muitos produtores, esse é um dos pontos centrais da discussão atual.
Cachês em alta expõem distorções do mercado
O aumento dos cachês aparece como uma das principais preocupações entre os diferentes agentes do setor. O problema, segundo eles, vai além do valor em si e está ligado à falta de correspondência com a venda de ingressos.

“Hoje existe uma grande distorção entre os valores de cachês praticados e a disposição do público em adquirir ingressos, o que impacta diretamente a sustentabilidade dos festivais como um todo. […] E o que estamos vivendo não é um ajuste pontual. É um desalinhamento estrutural do mercado, que do jeito que está, se mostra insustentável no médio prazo. Isso exige uma revisão real de formatos, escalas e da forma como artistas, festivais e público se relacionam”, afirma Carolina de Amar, cofundadora e diretora artística do Festival Sarará.
A percepção é compartilhada por Potyra Lavor, que aponta uma desconexão entre métricas digitais e resultado financeiro.
“Um dos principais desafios hoje são os altos cachês, que muitas vezes não correspondem à capacidade real de atração de público. Existe um descompasso entre números em plataformas e conversão em venda de ingressos, que, junto a patrocínios e receitas de alimentos e bebidas, ainda sustenta o modelo de festivais”, explica.
Curadoria de eventos se torna uma equação entre risco e identidade
Nesse cenário, a construção de line-ups passa a envolver decisões mais complexas, que vão além da escolha artística e passam por questões financeiras e estratégicas.
“Hoje, esse equilíbrio deixou de ser algo simples, ou até mesmo possível na prática. O Sarará mantém uma identidade muito definida, focada na música brasileira contemporânea, mas o cenário atual tem nos trazido uma tensão real: nem sempre o que constrói cena ou está em evidência é o que sustenta financeiramente um festival. Temos buscado revisitar formatos e escalas para preservar a essência do projeto sem ignorar a realidade econômica”, comenta Carol de Amar.
Na IDW, a curadoria é tratada como um processo que mistura análise e sensibilidade.
“Essa construção exige uma verdadeira engenharia: pensar no fluxo do evento, nos horários, no comportamento do público e na coerência da programação. A curadoria, nesse sentido, é um quebra-cabeça complexo, que envolve análise de dados, mas também sensibilidade. Nem sempre há métricas consolidadas — especialmente com artistas emergentes —, então entram em jogo o repertório, a qualidade musical, o potencial de performance e até o feeling de identificar movimentos que estão ganhando força. Tudo isso precisa ser considerado para garantir a consistência e o sucesso do projeto”, diz Potyra Lavor.
Ecossistema cresce, mas depende de equilíbrio entre agentes
Mesmo com as tensões, o setor segue avançando e ampliando sua estrutura. Segundo a ABRAPE, o segmento de organização de eventos teve crescimento de 149,1% no número de empregos formais desde 2019, enquanto atividades artísticas cresceram 58%.
Para Luis Justo, esse avanço está ligado a um ecossistema que funciona de forma interdependente.
“É um ecossistema importante, com festivais, casas de espetáculo e artistas de diferentes tamanhos. É fundamental ter essa diversidade, porque ela gera consistência de faturamento para os venues e oportunidades para artistas em diferentes fases. No fim, é uma dinâmica em que todos se alimentam e se fortalecem mutuamente”, afirma.
Independentes operam no limite e enfrentam barreiras estruturais
Se por um lado os grandes eventos se beneficiam de escala e inserção global, projetos independentes enfrentam desafios mais diretos para garantir a sustentabilidade.

“A bilheteria e o bar continuam sendo extremamente importantes para viabilidade dos nossos eventos. O patrocínio, como é de conhecimento geral, para projetos de diversidade diminui bastante comparado ao que se movimentava no passado. Nem sempre é suficiente, principalmente se tratando de uma comunidade em que muitas vezes o dinheiro para o lazer e entretenimento é limitado, então realizamos sempre uma grande equação entre as necessidades para fazer um evento de qualidade e o possível para nossa comunidade”, afirma Artur Santoro, sócio e curador da BATEKOO.
A dificuldade de financiamento já levou o projeto a cancelar edições. Para Maurício Sacramento, também sócio da BATEKOO, esse episódio revela um problema estrutural.
“Naquele momento, a conta não fechou principalmente por um desequilíbrio entre custo real de produção e o nível de apoio financeiro disponível, seja de marcas, parceiros ou até poder público. A gente tá falando de um projeto que exige estrutura grande. Equipe, artistas, operação, comunicação, segurança, logística… e, ao mesmo tempo, existe um limite muito claro de até onde dá pra repassar esse custo pro público sem descaracterizar o acesso e nosso público alvo. Então, quando o investimento externo não acompanha essa complexidade, a margem simplesmente some”, explica.
“Esse episódio escancara uma coisa que é estrutural: projetos independentes, principalmente os que nascem de comunidades negras e periféricas, ainda precisam provar o tempo todo o seu valor, mesmo já entregando impacto cultural, formação de mercado e inovação. Existe uma dificuldade real de transformar relevância em investimento contínuo”, complementa.
Entre expansão e ajuste, o mercado busca novo equilíbrio

Mesmo com os indicadores positivos, o setor ainda sente os efeitos da pandemia, especialmente na dinâmica de consumo.
“Hoje, os custos de fornecedores, cachês artísticos, locações, preços de bebidas aumentaram e muitas vezes não condizem com a realidade de muitos eventos. Além disso, notamos que o tempo de conversão de vendas de ingresso está cada vez mais próximo ao dia do evento”, afirma Artur Santoro.
“Vivemos um cenário em que bares, festivais, eventos, festas em geral têm cada vez mais dificuldade de se manterem e a escassez de políticas públicas que possibilitem reerguer o setor ainda são escassas e insuficientes”, acrescenta.
Essas visões, de diferentes pontos da cadeia de eventos, mostram que o retrato do mercado de música ao vivo no Brasil em 2026 é o de um setor em expansão, com forte demanda e impacto econômico relevante, mas que ainda busca um novo ponto de equilíbrio.
Os dados da ABRAPE mostram um crescimento consistente e consolidação do setor como motor de consumo e emprego. Já os relatos dos profissionais indicam um ambiente mais pressionado, em que decisões estratégicas, curadoria e estrutura financeira precisam ser repensadas para garantir sustentabilidade no médio prazo.
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