A música gospel está em um momento de grande expansão dentro do streaming brasileiro. A Deezer tem acompanhado de perto esse movimento e revela dados que ajudam a entender por que o gênero já não cabe mais na definição de nicho. O crescimento acelerado, a diversidade do público e a chegada de novas vertentes mostram que o gospel se consolidou como um dos pilares da música no país.
O comportamento de consumo do gospel na Deezer é bastante particular. O pico de audições acontece entre segunda e quinta-feira, enquanto nos finais de semana há uma queda de cerca de 30%. A explicação está no consumo ao vivo: cultos, missas e encontros religiosos concentram a música nesses dias, deixando o digital em segundo plano. A rotina semanal, no entanto, tem feito da plataforma um espaço central para quem busca o gênero como inspiração ou acolhimento.
Um consumo diferente de outros gêneros
O editor sênior de música da Deezer para a América Latina, Daniel Aguiar, aponta que esse padrão mostra uma lógica distinta.
“Definitivamente, o consumo de música gospel tem uma lógica própria dentro das plataformas digitais. Após anos acompanhando os dados de comportamento no streaming, identificamos que o pico acontece entre segunda e quinta-feira, algo bem diferente de outros gêneros”, explica em entrevista exclusiva ao Mundo da Música.
As surpresas não param por aí. Para ele, uma concepção equivocada que persiste é a ideia de que o gospel é ouvido apenas por pessoas religiosas.
“Ainda é comum pensar que esse gênero é consumido apenas por pessoas ativamente ligadas a uma igreja. Isso não é verdade. Muitos brasileiros que não se declaram religiosos também recorrem à música gospel como fonte de espiritualidade, inspiração ou acolhimento.”
Esse entendimento é fundamental para a curadoria da plataforma. Na prática, significa que o gospel já ultrapassou as fronteiras de crença e fé e passou a ocupar um espaço mais amplo dentro da música popular brasileira.
Fenômenos que furam bolhas

Em junho, 18% das músicas mais tocadas na Deezer no Brasil eram cristãs. A playlist “Top 50 Gospel” chegou ao segundo lugar entre as mais ouvidas no país e, nas primeiras semanas de agosto, a participação do gênero no Top 100 chegou a 20%. É nesse cenário que surgem artistas que conseguem furar bolhas, alcançando públicos muito além do esperado.
Um dos casos mais emblemáticos é o da cantora angolana Nair Nany, que registrou crescimento de 96% em streams no último mês e entrou para o Top 20 da Deezer Brasil com a faixa “Melhor Amigo / O Que Seria de Mim (Ao Vivo)”. A canção chegou ao 11º lugar no ranking geral, um feito inédito para uma artista internacional de gospel.
“O caso da Nair Nany é fascinante e um ótimo exemplo de como o gospel tem potencial de furar bolhas no Brasil. Foi extremamente gratificante ver o público abraçar uma artista internacional de gospel com tanta intensidade”, afirma Aguiar.
A trajetória de Nair Nany ilustra o papel da curadoria em impulsionar novos nomes. Ao identificar a ascensão da faixa, Aguiar decidiu dar apoio imediato e ampliar a exposição da artista dentro da plataforma, mostrando como o streaming pode acelerar processos que antes dependiam de anos de estrada.
Espaço para veteranos e novos nomes
O crescimento do gospel no digital também traz o desafio de equilibrar grandes nomes e vozes emergentes. Segundo a Abramus, o gênero já representa 20% do mercado fonográfico brasileiro, o que exige estratégias consistentes para dar visibilidade a diferentes perfis de artistas.
“Um dos pilares do meu trabalho é garantir que tanto artistas consolidados quanto novos talentos recebam a mesma atenção editorial. Nas playlists de grandes sucessos, como a ‘Top 50 Gospel’, celebramos quem já construiu uma trajetória sólida. Mas também criamos espaços dedicados a quem está começando, como a ‘Geração Apaixonada’”, explica Aguiar.
Entre os exemplos de artistas revelados pela plataforma está Isaías Saad, que participou do programa Deezer Next anos atrás e hoje acumula números impressionantes com canções que se tornaram hinos. Para o editor, iniciativas desse tipo ajudam a renovar o gênero e a conectar o gospel a públicos variados.
Trap gospel e o público jovem

Uma das vertentes mais promissoras é o trap gospel, que mistura beats modernos e rimas urbanas com mensagens de fé. O estilo conquistou os jovens e já tem espaço próprio dentro da Deezer.
“O trap gospel é, sem dúvida, uma das expressões mais empolgantes do momento. Na Deezer, tivemos o orgulho de ser a primeira plataforma a dar destaque exclusivo a essa cena, com a playlist ‘Fé no Trap’”, diz Aguiar.
Nomes como Nesk Only, Victin, 2metro, Silas Magalhães e Brunno Ramos se destacam nessa cena. Para Aguiar, a adesão das novas gerações é prova de como o gênero se reinventa.
“Recentemente, conversei com o Nesk Only, um dos nomes mais fortes desse movimento, e ele me contou sobre a força do público formado por adolescentes e até crianças. Por serem letras leves e positivas, muitos pais se sentem seguros em deixar seus filhos consumirem trap gospel.”
Esse fenômeno revela como o gospel tem conseguido dialogar com um público que busca sonoridades contemporâneas, sem abrir mão de valores e mensagens ligadas à espiritualidade.
Do nicho ao centro da indústria
O avanço do gospel no streaming acompanha um movimento mais amplo. Nos últimos cinco anos, o consumo do gênero em plataformas digitais cresceu 240%, de acordo com a Abramus, sendo que 70% desse aumento ocorreu apenas em 2023.
O impacto aparece também fora do ambiente digital: músicas cristãs marcaram presença em grandes eventos, como o Réveillon de Copacabana, e o gênero passou a contar com uma data oficial de celebração, o Dia Nacional da Música Gospel, em 9 de junho.
Para Aguiar, os números atuais confirmam que o gospel já deixou de ser visto como um cenário à parte do mercado nacional.
“Acredito firmemente que o gospel já não pode ser visto apenas como um nicho. Ele é parte fundamental da cultura musical brasileira. O caminho daqui para frente envolve amadurecer ainda mais a estrutura do mercado gospel: escritórios artísticos mais robustos, equipes profissionais bem preparadas e a quebra de preconceitos que ainda existem.”
O fortalecimento da indústria gospel passa, portanto, pela profissionalização dos bastidores, pela integração com diferentes circuitos culturais e pela abertura a novas sonoridades.
Um futuro em expansão
Mais do que os números, o que se desenha é um momento de amadurecimento do mercado gospel. O avanço nas plataformas digitais abre espaço para estruturas mais profissionais, para a circulação de artistas internacionais e para novas formas de expressão ligadas às gerações mais jovens. A consolidação no streaming também ajuda a diminuir preconceitos e reforça que o gospel faz parte da vida cultural cotidiana no Brasil.
Como resume Daniel Aguiar, “o futuro reserva um crescimento ainda maior, consolidando o gospel como um dos pilares centrais da indústria musical no Brasil”.
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