Deezer identifica até 85% de fraudes em streams de música feita por IA e passa a licenciar tecnologia de detecção
Deezer divulga novos dados sobre uploads de música feita por IA, detalha impacto da fraude no streaming e anuncia venda de sua tecnologia ao mercado.
Por Nathália Pandeló···5 min de leitura·
A Deezer voltou a revelar dados sobre um dos mais presentes debates da era do streaming. A plataforma divulgou números que mostram como o volume de faixas criadas integralmente por IA continua crescendo em ritmo acelerado e, ao mesmo tempo, como a fraude associada a esse conteúdo se tornou um problema estrutural.
Segundo a empresa, a Deezer recebe hoje mais de 60 mil faixas totalmente geradas por IA todos os dias, o equivalente a cerca de 39% de tudo o que é enviado diariamente à plataforma. Em 2025, foram detectadas e catalogadas mais de 13,4 milhões de faixas desse tipo, um salto expressivo em relação aos números divulgados ao longo do ano passado.
Apesar do crescimento, a participação da música feita por IA no consumo ainda é relativamente pequena. A Deezer estima que essas faixas representem entre 1% e 3% do total de streams da plataforma. O dado que chama atenção está na origem dessas audições: até 85% dos streams de músicas geradas por IA em 2025 foram considerados fraudulentos, impulsionados por bots com o objetivo de receber royalties.
Crescimento acelerado e padrão de fraude
Deezer faz balanço do primeiro ano com ferramenta de detecção de IA (Crédito: Divulgação)
O avanço da música criada por IA não é novidade, mas os números mostram como a escala se intensificou em poucos meses. No início de 2025, a Deezer recebia cerca de 10 mil faixas “totalmente sintéticas” por dia, o que representava 10% dos uploads. Em novembro, esse número já havia saltado para 50 mil faixas diárias, ou 34% do total.
Agora, com mais de 60 mil uploads por dia, a plataforma afirma que a maior parte desse conteúdo tem como principal motivação a fraude. Para efeito de comparação, a fraude no catálogo como um todo respondeu por cerca de 8% dos streams da Deezer em 2025, bem abaixo do índice observado nas faixas feitas por IA.
A resposta da empresa tem sido amplamente divulgada. Todas as faixas identificadas como integralmente geradas por IA são automaticamente excluídas de recomendações algorítmicas e playlists editoriais. Além disso, os streams considerados fraudulentos são desmonetizados e retirados do pool de royalties.
Transparência e proteção a artistas
Alexis Lanternier, CEO da Deezer (Crédito: Divulgação)
Para Alexis Lanternier, CEO da Deezer, a estratégia passa por deixar o usuário informado e proteger quem cria música de forma humana.
“A música gerada inteiramente por IA tornou-se quase indistinguível da criação humana e, com o fluxo contínuo de uploads para plataformas de streaming, nossa abordagem permanece honesta: transparência para os fãs e proteção dos direitos de artistas e compositores. Sabemos que a maioria das músicas geradas por IA são publicadas na Deezer com o objetivo de cometer fraudes, e continuamos a agir”, afirmou o executivo.
Alexis Lanternier acrescenta que a empresa identifica, rotula e retira esse conteúdo das recomendações justamente para dificultar o uso do sistema por fraudadores.
“Detectamos e marcamos como músicas geradas por IA e as removemos das recomendações algorítmicas, para que nossos usuários tenham uma escolha clara sobre o que ouvir, ao mesmo tempo que dificultamos a manipulação do sistema por fraudadores. E, claro, cada reprodução fraudulenta que detectamos é desmonetizada para que os direitos autorais de artistas, compositores e outros detentores de direitos não sejam afetados”, declarou.
Tecnologia passa a ser vendida ao mercado
Além de divulgar os dados, a Deezer anunciou que vai licenciar sua tecnologia de detecção de música feita por IA para outras empresas do setor. Até agora, a plataforma era a única a rotular explicitamente esse tipo de conteúdo e excluí-lo das recomendações.
Segundo Alexis Lanternier, já foram realizados testes com empresas e entidades do mercado, incluindo a Sacem.
“Observamos um grande interesse tanto em nossa abordagem quanto em nossa ferramenta, e já realizamos testes bem-sucedidos com líderes do setor, incluindo a Sacem [Sociedade de Autores, Compositores e Editores Musicais da França]. A partir de agora, estamos licenciando a tecnologia para torná-la amplamente disponível para o mercado. A Deezer continua na vanguarda da promoção de uma experiência transparente para artistas e fãs, com o compromisso de combater a fraude musical por IA em todo o nosso setor”, afirmou o CEO.
A ferramenta da Deezer consegue detectar músicas 100% geradas por modelos populares de IA, como Suno e Udio, e pode ser adaptada para outros sistemas. Em dezembro de 2024, a empresa entrou com dois pedidos de patente relacionados à tecnologia.
Efeito no debate global sobre IA
Rodrigo Vicentini, General Manager da Deezer na América Latina (Crédito: Flavia Vicentini)
A divulgação recorrente de dados pela Deezer tem repercutido em todo o setor. Um levantamento recente da PRS for Music, no Reino Unido, mostrou que 79% dos compositores entrevistados se dizem preocupados com a concorrência da música gerada por IA, ante 74% em 2023.
O estudo também aponta que 76% acreditam que a IA pode afetar negativamente sua renda, um aumento relevante em dois anos. Curiosamente, esse crescimento acompanha um maior entendimento da tecnologia: a parcela de músicos que dizem compreender como a IA funciona na criação musical subiu de 53% para 72%.
Ao transformar sua ferramenta em produto, a Deezer tenta posicionar a detecção e a transparência como caminhos práticos para lidar com um problema que já deixou de ser teórico e passou a impactar diretamente o modelo econômico do streaming.
“Com esta iniciativa, damos mais um passo na nossa missão de equilibrar crescimento tecnológico e sustentabilidade do ecossistema musical. Estamos comprometidos em trazer ao Brasil tecnologia que não apenas detecta conteúdos gerados por IA, mas que também protege os direitos de quem cria e incentiva a criatividade humana como motor principal da plataforma”, destaca Rodrigo Vicentini, General Manager da Deezer na América Latina.
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03 de novembro de 2026
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