A Deezer entra em 2026 tentando abrir uma nova frente de crescimento para além da disputa tradicional entre plataformas de streaming. A empresa anunciou nesta quarta-feira, 19 de março, a reformulação da sua oferta de parcerias sob a marca Deezer for Business, movimento que chega logo depois de a companhia divulgar seu primeiro lucro líquido anual da história, de € 8,5 milhões em 2025.
A plataforma quer vender mais do que assinatura de música ao consumidor final. A nova fase passa por licenciamento tecnológico, soluções para marcas, música ambiente para espaços comerciais e até o uso da ferramenta própria de detecção de faixas geradas por inteligência artificial. É uma tentativa clara de transformar a música em infraestrutura para outras empresas, em um momento em que a Deezer busca crescer com mais disciplina financeira e menos dependência de um único tipo de receita.
“Há mais de 15 anos, a Deezer ajuda marcas a se diferenciarem e a construírem relacionamentos significativos com os consumidores por meio do poder da música. Com o lançamento da Deezer for Business, damos o próximo passo nessa jornada, prontos para atender a qualquer necessidade e gerar impacto mensurável para nossos parceiros,” afirma Julien Delbourg, Chief Commercial Officer da Deezer.
“A música não é apenas conteúdo para monetizar; ela carrega significado e emoção e, se usada corretamente, as marcas podem criar conexões genuínas e duradouras com os clientes. Com a Deezer for Business, nossos parceiros têm acesso a um catálogo totalmente licenciado, tecnologia de ponta e décadas de experiência na indústria musical para guiá-los em cada etapa do processo”, completa.
Deezer tenta transformar parceria em motor de negócios

A nova Deezer for Business foi organizada em cinco frentes. A primeira é a de parcerias com empresas que incorporam a Deezer em suas ofertas ao consumidor, caso de nomes como TIM, Itaú, Orange, FNAC Darty, Norlys e Yettel. A segunda é a de música como serviço, voltada a companhias que querem criar uma plataforma própria de streaming com a infraestrutura da Deezer em modelo white label ou grey label.
Há ainda a frente para anunciantes, que oferece publicidade em áudio; a voltada a profissionais e estabelecimentos físicos, com música licenciada para lojas e outros ambientes; e a de detecção de IA, que passa a ser oferecida também a outras organizações do ecossistema musical. Segundo a empresa, a tecnologia identifica músicas geradas por inteligência artificial, retira esse conteúdo das recomendações e ajuda a dificultar fraudes que tentam desviar royalties.
Esse desenho ajuda a entender o tipo de crescimento que a companhia passou a buscar. Em vez de depender apenas da guerra por assinantes, a Deezer tenta monetizar ativos que já tem há anos: catálogo licenciado, tecnologia de distribuição, inventário publicitário e relacionamento com operadoras, bancos, varejistas e marcas. É um caminho que conversa com a necessidade do streaming de encontrar receitas mais variadas em um mercado já maduro em vários países.
O Brasil aparece como peça importante nessa narrativa. A empresa destaca o país como um dos mercados mais relevantes para a estratégia de parcerias, tanto pelo volume de consumo quanto pela relação intensa do público com a música. A leitura é de que a operação local passa a atuar como ponte entre o setor de entretenimento e outras indústrias interessadas em usar música como ferramenta de engajamento.
“O Brasil é um dos mercados mais apaixonados por música do mundo. Isso cria uma oportunidade única para as marcas — não apenas de estarem presentes, mas de construírem conexões reais com as pessoas. A Deezer for Business nasce dessa convicção. Temos o catálogo, a tecnologia e, principalmente, o conhecimento de quem entende profundamente esse mercado há mais de 15 anos. Nosso papel é ajudar as empresas a usarem a música de forma estratégica — para atrair, engajar e reter clientes de forma genuína. Empresas que entendem isso saem na frente”, afirma Rodrigo Vicentini, General Manager da Deezer na América Latina.
Lucro inédito dá fôlego para a nova fase

O anúncio da nova frente de negócios veio um dia depois da divulgação dos resultados financeiros de 2025, que ajudam a explicar o timing da movimentação. A Deezer fechou o ano com receita de € 534 milhões, EBITDA ajustado de € 10 milhões, fluxo de caixa livre de € 10,1 milhões e lucro líquido de € 8,5 milhões. Foi a primeira vez que a plataforma registrou resultado líquido positivo em um ano completo.
Os números mostram uma empresa mais enxuta e tentando provar ao mercado que seu modelo pode ser sustentável. As despesas operacionais caíram € 12 milhões na comparação anual, enquanto a base direta de assinantes cresceu 8,6% na França e 7,7% no restante do mundo. Ao mesmo tempo, a área de parcerias teve impacto da transição do Mercado Livre, embora a empresa destaque a renovação de dez acordos importantes, entre eles TIM e Sonos, além da expansão para novos segmentos.
Outro ponto central é a tentativa de fazer da pauta da IA um diferencial competitivo. A Deezer afirma que cerca de 60 mil faixas geradas por IA chegavam diariamente à plataforma em janeiro de 2026, o equivalente a 39% de toda a música entregue por dia. Segundo a empresa, até 85% dos streams dessas músicas são detectados como fraudulentos, desmonetizados e retirados do bolo de royalties. Esse dado ajuda a explicar por que a Deezer quer licenciar sua tecnologia também para terceiros: além do discurso em defesa de artistas e repertório humano, há aí uma nova linha potencial de receita.
Para 2026, a diretriz é manter a receita no nível de 2025, seguir com EBITDA e fluxo de caixa positivos e acelerar o crescimento direto de assinantes enquanto constrói um segmento B2B rentável. No setor de streaming, onde escala sem margem já não impressiona como antes, a mensagem da Deezer parece ser bastante objetiva: crescer continua importante, mas crescer com lucro virou prioridade.
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