Guia MM: Como funciona o dinheiro do streaming e por que ele ainda gera tanta confusão

Entender como plataformas de streaming pagam pela música ajuda a explicar por que artistas com bilhões de plays podem receber pouco e onde o dinheiro se perde no caminho.
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Nathália Pandeló
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Quando rankings estimam quanto artistas globais já geraram em receita no streaming, a reação costuma ser imediata. Se alguém soma bilhões de streams ao longo da carreira, o senso comum leva a crer que esse volume se transforma automaticamente em dinheiro no bolso. Foi esse raciocínio que voltou à tona quando Bonnie Tyler entrou para o chamado “clube do bilhão” no Spotify e afirmou, em entrevistas recentes, que praticamente não ganha nada com isso.

O caso viralizou porque parece ilógico. Como uma artista com músicas ouvidas bilhões de vezes não recebe? A resposta está menos em uma falha do streaming e mais em como esse dinheiro circula. O modelo existe, funciona e movimenta cifras altas, mas ele não é intuitivo e ainda gera confusão tanto entre artistas quanto no público em geral.

O erro começa quando o streaming é tratado como preço por play

Uma das ideias mais persistentes é a de que cada play tem um valor fixo. Acontece que as plataformas de streaming não funcionam assim. O modelo dominante hoje é o pro-rata, no qual toda a receita arrecadada em um mês com assinaturas e publicidade forma um montante único. Uma parte fica com a plataforma e o restante é distribuído proporcionalmente de acordo com a participação de cada música no total de execuções daquele período.

Isso faz com que o chamado ‘valor por stream’ seja apenas uma média. Ele muda de acordo com o mês, com o mercado em que o play aconteceu, com o tipo de usuário e até com o desempenho geral da plataforma naquele ciclo. Multiplicar streams por um número ajuda a ter uma noção de escala, mas não explica os ganhos individuais de artista X ou Y. 

Nem todo stream tem o mesmo peso financeiro

Outro ponto pouco compreendido é que dois streams não geram, necessariamente, o mesmo valor. Um play feito por um assinante premium em um país com mensalidade mais alta costuma render mais do que um play vindo de um usuário gratuito em um mercado com forte dependência de publicidade e preços reduzidos.

Na prática, isso significa que o streaming é global em audiência, mas desigual em receita. Artistas com públicos concentrados em determinados territórios podem gerar mais dinheiro com menos streams, enquanto outros precisam de volumes muito maiores para alcançar valores semelhantes.

É por esse motivo que o valor de um stream vindo de um usuário Premium na Índia é drasticamente menor que um vindo dos EUA, devido ao valor da assinatura local e à conversão cambial.

O dinheiro não sai da plataforma direto para quem canta

Caminho do dinheiro na era do streaming
Caminho do dinheiro na era do streaming

Mesmo depois de calculado quanto uma música gerou, o dinheiro não vai direto para o artista. No caso da gravação, o pagamento passa por distribuidoras ou gravadoras, que aplicam os percentuais definidos em contrato antes de qualquer repasse. Até a notificação de “você recebeu um Pix”, há um longo caminho a ser percorrido.

É nesse ponto que as realidades se distanciam. Alguns artistas são donos do próprio fonograma, outros licenciam seus lançamentos, outros cederam direitos em troca de investimento. Cada acordo define quanto do dinheiro efetivamente chega ao intérprete. Por isso, dois artistas com números parecidos de audiência podem ter resultados financeiros completamente diferentes.

Streaming não paga uma coisa só

Informalidade no setor musical - Caixa de guitarra com moedas e notas de dinheiro

Outro erro comum é achar que existe um único pagamento. O streaming remunera direitos diferentes. Há o dinheiro ligado à gravação, que aparece nos relatórios das distribuidoras, e há o dinheiro ligado à composição, que segue outro caminho e depende de cadastro correto da obra.

Quando o artista também é compositor, só recebe essa parte se tudo estiver organizado. Se a música não estiver corretamente vinculada aos códigos e aos sistemas de arrecadação, o dinheiro simplesmente não chega, mesmo que a faixa seja amplamente executada. Isso explica por que muitos artistas recebem pela gravação, mas não veem nada da composição.

Do ponto de vista técnico, o dinheiro ligado à gravação corresponde aos chamados direitos conexos. Eles remuneram quem participa da fixação sonora da música, como o intérprete e o produtor fonográfico. O fonograma é a gravação em si, aquela versão específica que foi lançada nas plataformas. Cada fonograma precisa ter um identificador próprio, o ISRC, que funciona como um código único para aquela gravação. É esse código, o “CPF da música”, que permite que o sistema reconheça qual faixa foi executada e para quem o valor deve ser direcionado.

Já os direitos autorais estão ligados à obra musical, independentemente da gravação. A mesma música pode ter várias gravações diferentes, mas a composição continua sendo a mesma. Para que esse dinheiro seja arrecadado e distribuído corretamente, a obra precisa estar cadastrada com seus autores, percentuais e identificadores próprios. Quando o ISRC do fonograma não está corretamente associado à obra musical nos sistemas de arrecadação, ocorre um desencaixe técnico: a plataforma paga pela execução, mas o sistema não consegue atribuir esse valor ao compositor correto, e o dinheiro fica retido ou sem destino definido.

Por que o caso Bonnie Tyler não é exceção

Quando Bonnie Tyler diz que não ganha com o streaming, isso não significa que suas músicas não geraram receita. Grande parte de seu catálogo foi lançada em uma época em que os contratos foram pensados para um mercado de venda física e não para um modelo de execução contínua ao longo de décadas.

Nesses casos, os direitos sobre as gravações muitas vezes pertencem integralmente às gravadoras ou estão vinculados a acordos antigos, com percentuais muito diferentes dos praticados hoje. O streaming não reescreve contratos. Ele apenas distribui o dinheiro conforme as regras já existentes.

Nos últimos anos, as plataformas ajustaram o sistema

Spotify
Crédito: Shantanu Kumar

Com o crescimento do streaming, as plataformas passaram a lidar com novos problemas, como fraudes, execuções artificiais e o envio massivo de músicas criadas apenas para capturar microvalores. Nos últimos anos, as plataformas passaram a adotar critérios mínimos de relevância para que uma faixa participe do rateio de royalties.

Essas mudanças não retiram dinheiro do sistema. Elas devolvem ao bolo geral valores que antes eram pulverizados em pagamentos ínfimos e os redistribuem entre músicas com consumo real. O impacto maior recai sobre catálogos inativos ou estratégias baseadas apenas em volume.

No Spotify, uma das mudanças mais comentadas foi a regra de elegibilidade em que uma faixa precisa somar pelo menos 1.000 streams no período de 12 meses para entrar no rateio de royalties fonográficos. A ideia não é “punir” quem tem pouca audiência, e sim evitar que o sistema distribua centavos para um volume gigantesco de músicas quase inativas, além de reduzir espaço para estratégias que tentam inflar números sem público real. 

Na prática, se uma gravação não atinge esse patamar, ela fica fora da divisão naquele ciclo, e o dinheiro que seria pulverizado em valores mínimos volta para o montante geral que é distribuído proporcionalmente entre as músicas que, de fato, têm consumo “relevante”, dentro desses padrões. Mas, como você já leu aqui no Mundo da Música, essa regra pode estar prejudicando até 65% dos selos independentes.

Por que o dinheiro nunca chega todo ao mesmo tempo

Outra fonte constante de confusão é o tempo do dinheiro. O valor ligado à gravação costuma chegar de forma consolidada via distribuidora, em um único repasse periódico. Já os direitos autorais seguem outro calendário e outro fluxo.

Essa diferença faz com que muitos artistas achem que algo está errado, quando, na verdade, os pagamentos estão apenas acontecendo em momentos diferentes. Entender essa separação ajuda a reduzir a sensação de que o streaming não paga ou paga menos do que deveria.

O que esse modelo ensina, na prática

MIDiA

O modelo de streaming não é intuitivo, e a frustração de muitos artistas não nasce de desconhecimento puro e simples. Ela surge, em grande parte, do choque entre uma lógica antiga de mercado e uma nova forma de consumo. Durante décadas, o valor da música esteve ligado à venda direta de um produto. No streaming, o dinheiro vem da circulação contínua, diluído no tempo, mediado por contratos e por sistemas técnicos que nem sempre são claros para quem cria.

Quando um artista vê sua música alcançar milhões ou bilhões de execuções e não percebe isso refletido em renda imediata, a sensação de desequilíbrio é compreensível. O streaming torna visível a audiência, mas não torna visível, na mesma proporção, o caminho financeiro que aquela audiência percorre. Essa assimetria entre visibilidade e remuneração é uma das maiores fontes de ruído no debate atual.

Ao mesmo tempo, o modelo não é arbitrário nem aleatório. Ele opera de forma consistente dentro das regras que o estruturam: proporção, contratos vigentes e organização de direitos. O problema é que essas regras foram, em muitos casos, herdadas de um mercado anterior ao streaming. Contratos assinados décadas atrás, estruturas pensadas para venda física e pouca transparência histórica ajudam a explicar por que o dinheiro nem sempre chega a quem o público imagina.

Isso faz com que o streaming seja, ao mesmo tempo, uma fonte real de receita e um sistema que expõe desigualdades antigas. Ele não corrige automaticamente contratos ruins, não redistribui direitos de forma retroativa e não simplifica relações jurídicas complexas. Ele aplica, em escala global, acordos que já existiam.

Entender esse funcionamento não invalida críticas ao modelo nem elimina a necessidade de discussão sobre remuneração justa. Mas ajuda a deslocar o debate de uma ideia abstrata de que “a plataforma paga pouco” para questões mais concretas, como quem controla os direitos, como os contratos são firmados e como o sistema pode evoluir para lidar melhor com diferentes perfis de carreira.

No fim, o streaming não é um terreno neutro nem um vilão único. Ele é um espelho de como a indústria se organizou ao longo do tempo. Para artistas e para o público, compreender essa engrenagem não resolve todos os problemas, mas é um passo essencial para fazer críticas mais precisas e construir alternativas mais equilibradas no futuro.

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