Coalizão de artistas independentes processa Google e acusa uso de milhões de músicas para treinar IA
Uma coalizão de músicos independentes entra na Justiça contra Google e afirma que modelo Lyria 3 foi treinado com gravações protegidas sem licença.
Por Nathália Pandeló···4 min de leitura·
Um grupo de músicos independentes dos Estados Unidos formou uma coalizão para entrar com uma ação judicial contra o Google. O processo acusa a empresa de utilizar obras protegidas por direitos autorais para treinar sistemas de inteligência artificial que geram música.
A coalizão de artistas argumenta que a tecnologia da empresa foi construída a partir da cópia de milhões de gravações musicais retiradas da internet, muitas delas hospedadas no YouTube. O caso já é descrito por advogados envolvidos como “uma das ações mais amplas já movidas contra modelos de IA voltados à criação musical”.
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A disputa coloca em evidência uma questão central para a indústria da música: até que ponto as empresas de tecnologia podem utilizar obras existentes para treinar ferramentas de inteligência artificial sem a autorização expressa dos criadores.
Coalizão acusa Google de copiar músicas para treinar IA
De acordo com o processo, o Google teria copiado grandes volumes de gravações e composições protegidas para treinar o modelo de geração musical Lyria 3. Como você leu aqui no Mundo da Música, o sistema foi lançado em fevereiro e permite criar faixas de até 30 segundos a partir de comandos de texto ou imagens dentro do aplicativo Gemini.
Os artistas afirmam que o treinamento do modelo envolveu ao menos 44 milhões de trechos de áudio e cerca de 280 mil horas de música. Esses materiais teriam sido extraídos principalmente de vídeos publicados no YouTube.
Além da suposta cópia das obras, o processo também acusa a empresa de remover informações de identificação de direitos autorais das gravações. Esse tipo de metadado, conhecido como CMI (Copyright Management Information), é usado para indicar quem são os autores e detentores dos direitos de uma obra.
Segundo os advogados da coalizão, a remoção dessas informações dificultaria o rastreamento da origem das músicas usadas no treinamento da tecnologia.
“O Google é dono da plataforma onde músicos independentes distribuem suas músicas. O Google administra o sistema que identifica quem é o dono dessas obras. E depois usou os dois para treinar um produto que compete com os próprios artistas”, afirmou o advogado Ross Kimbarovsky, do escritório Loevy + Loevy.
Papel do YouTube e do Content ID no centro da disputa
Google integra criação musical ao Gemini (Crédito: Divulgação)
Um dos pontos mais sensíveis do processo envolve a posição do Google dentro do ecossistema musical digital. A empresa controla o YouTube, uma das maiores plataformas de distribuição e descoberta de música do mundo. Além disso, a companhia também opera o Content ID, sistema utilizado por gravadoras, editoras e artistas para identificar o uso de suas obras na plataforma.
Os autores da ação argumentam que essa posição oferece à empresa uma vantagem estrutural no acesso a conteúdos musicais. O processo afirma que a base de dados utilizada pelo Content ID inclui mais de 50 milhões de arquivos de referência enviados por detentores de direitos. Para os músicos, isso significa que o Google tinha pleno conhecimento sobre quem são os autores das obras usadas no treinamento dos sistemas de inteligência artificial.
“Os artistas independentes escrevem as músicas, gravam os vocais e constroem suas carreiras com essas obras. O Google copiou o trabalho de milhões deles, removeu seus nomes e lançou um produto concorrente para 750 milhões de pessoas. Isso não é inovação. É roubo em escala”, disse Kimbarovsky.
Lyria 3 aumenta o debate sobre IA e direitos autorais
Crédito: Freepik
O modelo Lyria 3 foi desenvolvido pela divisão Google DeepMind e faz parte de uma série de ferramentas experimentais voltadas à criação musical por inteligência artificial. Disponível dentro do chatbot Gemini, o sistema permite que os usuários gerem pequenos trechos musicais completos, com instrumentos, vocais e letras, a partir de comandos simples.
A empresa afirma que o objetivo da ferramenta não é substituir artistas, mas oferecer novas formas de expressão criativa. Em um texto publicado no lançamento do produto, os gerentes de produto Joël Yawili e Myriam Hamed Torres disseram que a tecnologia foi desenvolvida “com atenção a direitos autorais e acordos com parceiros”.
Os autores do processo contestam essa afirmação. Segundo eles, a empresa nunca especificou quais licenças foram obtidas para o treinamento dos modelos nem apresentou mecanismos para que os artistas autorizassem ou recusassem o uso de suas obras.
A ação foi registrada no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Norte de Illinois e inclui acusações de violação de direitos autorais, fraude, publicidade enganosa e distribuição ilegal de conteúdo.
Entre os músicos que lideram a coalizão estão o cantor Sam Kogon, o produtor Michael Mell, o compositor Magnus Fiennes e integrantes do grupo Directrix. Os autores também pedem que o caso seja tratado como uma ação coletiva, representando potencialmente milhares de artistas afetados.
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