Bad Bunny leva identidade latina ao intervalo do Super Bowl e explicita novas dinâmicas do pop global

Bad Bunny apresentou um show quase todo em espanhol no Super Bowl e expôs como música, pertencimento e mercado hoje operam juntos em escala global.
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Nathália Pandeló
Bad Bunny no Super Bowl
Bad Bunny no Super Bowl (Crédito: Reprodução)

O intervalo do Super Bowl LX colocou Bad Bunny no centro do maior evento da televisão americana em um formato pouco habitual para o histórico do jogo. Em cerca de 13 minutos, o artista apresentou um espetáculo quase integralmente em espanhol, estruturado a partir de referências porto-riquenhas e latinas, diante de uma audiência estimada em mais de 100 milhões de pessoas.

Mais do que uma ruptura estética, o show evidenciou como a música pop hoje circula entre camadas culturais, políticas e mercadológicas sem que essas dimensões precisem ser separadas. O Super Bowl, tradicionalmente associado a uma ideia de neutralidade cultural e a um repertório anglófono, serviu como palco para uma apresentação que não buscou tradução, adaptação ou explicação.

A mensagem não foi direta nem discursiva. Ela se construiu por meio de signos de pertencimento, imagens reconhecíveis por uma comunidade específica e uma operação de escala compatível com o tamanho do evento.

Música como linguagem de pertencimento

Desde a abertura, o show deixou claro que não se tratava de uma narrativa universalizante. Cenários que remetiam a áreas rurais e urbanas de Porto Rico, personagens do cotidiano, referências à diáspora latina e elementos simbólicos da história da ilha funcionaram como fio condutor da apresentação.

Essa escolha dialoga com uma leitura cada vez mais presente na música pop contemporânea: a de que a música não ocupa mais um único lugar. Ela pode ser entretenimento, afirmação identitária, espaço de acolhimento e também veículo de posicionamento político, muitas vezes tudo isso ao mesmo tempo.

No caso de Bad Bunny, esse movimento não é novo. Ele aparece de forma consistente em seus discos, videoclipes e apresentações ao vivo. O que muda no Super Bowl é a escala. Os mesmos códigos que já circulavam entre fãs e comunidades específicas passam a operar no maior palco do entretenimento de massa.

Escala e operação

Bad Bunny no Super Bowl
Bad Bunny no Super Bowl

Do ponto de vista técnico, o show do intervalo do Super Bowl LX seguiu o padrão das grandes produções do evento, mas com uma densidade simbólica pouco comum. A apresentação mobilizou dezenas de dançarinos, banda ao vivo, múltiplos cenários móveis e áreas de atuação simultânea no gramado, exigindo precisão extrema em um tempo reduzido.

Estruturas como “La Casita”, postes de energia cenográficos e espaços que simulavam ruas e campos foram integradas a uma coreografia pensada tanto para o público presente no estádio quanto para a transmissão televisiva. Tudo isso aconteceu diante de cerca de 75 mil pessoas no local e de uma audiência global que, sozinha, rivaliza com grandes eventos esportivos internacionais.

No ambiente digital, Bad Bunny já opera nessa lógica de escala. O artista soma cerca de 89 milhões de ouvintes mensais no Spotify, liderou rankings globais ao longo de 2025 e lançou recentemente um álbum em espanhol amplamente consumido fora do eixo latino – tanto que, no domingo anterior, recebeu o Grammy de Álbum do Ano. O Super Bowl não cria esse alcance, mas o torna visível em um espaço historicamente restrito.

Música como ferramenta de ativismo e política

Embora o contexto político dos Estados Unidos tenha amplificado a repercussão do show, a apresentação de Bad Bunny evitou declarações explícitas. O posicionamento apareceu na escolha do idioma, na valorização de símbolos ligados à história de Porto Rico e na presença de convidados que reforçam laços culturais e geracionais.

As participações de Ricky Martin e Lady Gaga cumpriram papéis distintos dentro dessa lógica. Ricky Martin reforçou uma memória coletiva porto-riquenha, enquanto Lady Gaga funcionou como ponto de contato com o pop anglófono, sem deslocar o eixo da narrativa.

As críticas feitas por Donald Trump ajudaram a intensificar o debate público, mas não alteraram o desenho do espetáculo. O show mostrou que, no atual cenário de crise global, música e política tendem a se cruzar menos por confronto direto e mais por afirmação de pertencimento.

O que a noite explicita sobre a música em espanhol no mercado global

O principal efeito do show do intervalo do Super Bowl LX está em deixar evidente o lugar que a música em espanhol ocupa hoje na lógica global do pop. Ao sustentar uma apresentação quase integralmente nesse idioma, em um evento historicamente associado ao inglês, Bad Bunny tornou visível algo que já vinha acontecendo fora da televisão: a centralidade da música em espanhol no consumo global.

Outro ponto relevante é que o show ajudou a desmontar uma leitura simplificadora ainda recorrente no mercado internacional, a de que “música latina” funciona como um gênero único. Ao longo da apresentação, Bad Bunny transitou por diferentes matrizes sonoras, como bomba e plena, ritmos tradicionais de Porto Rico, além de reggaeton, salsa e variações contemporâneas do pop urbano. A diversidade não apareceu como demonstração didática, mas como prática musical concreta, incorporada à estrutura do espetáculo.

Esse recorte importa porque desloca a música em espanhol do campo da exceção ou da tendência passageira. O que se viu no Super Bowl não foi um gênero representando uma região, mas um conjunto de linguagens sonoras com histórias, origens e públicos distintos, operando em pé de igualdade com qualquer outro repertório do pop global.

Nesse sentido, a noite funcionou como uma síntese. Ela condensou, em poucos minutos e em escala massiva, um processo que já estava em curso nas plataformas de streaming, nas turnês internacionais e na circulação cultural: a música em espanhol deixou de ser tratada como segmento e passou a ocupar um espaço estrutural no mercado global.

Esse contexto ajuda a entender os próximos movimentos da agenda de Bad Bunny. Após o Super Bowl, o artista segue para três apresentações na Argentina, nos dias 13, 14 e 15, antes de chegar ao Brasil, onde tem shows marcados para os dias 20 e 21. Mais do que um ponto fora da curva, a noite do Super Bowl LX funciona como um retrato do momento atual do pop global, em que música, identidade e mercado operam juntos, sem a necessidade de ocupar um único lugar.

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