A UBC (União Brasileira de Compositores) divulga hoje (09) a edição 2026 do estudo “Por Elas Que Fazem a Música”, que analisa a participação feminina na indústria musical brasileira. O relatório mostra que, apesar de avanços na presença de mulheres no setor, a desigualdade de gênero ainda marca a distribuição de direitos autorais e as condições de trabalho.
Segundo os dados mais recentes, referentes a 2025, as mulheres receberam apenas 10% do total de direitos autorais distribuídos no país. O levantamento reúne informações sobre arrecadação, participação em obras e fonogramas e também relatos de discriminação e assédio enfrentados por profissionais da música.
O estudo ainda mostra que o crescimento do número de mulheres na indústria não se reflete, necessariamente, na renda. Embora mais profissionais estejam registrando obras e participando do mercado, o topo da cadeia de arrecadação segue amplamente dominado por homens.
Mulheres ainda são minoria entre os maiores arrecadadores
Um dos indicadores mais diretos da desigualdade aparece na lista de maiores rendimentos da UBC. Entre os 100 artistas que mais arrecadaram direitos autorais em 2025, apenas 11 são mulheres.
O dado confirma a baixa presença feminina nas faixas mais altas de arrecadação. Ainda assim, houve uma pequena mudança no posicionamento das mulheres que aparecem nesse ranking: a melhor colocação feminina passou do 21º para o 16º lugar.

Quando se observa a distribuição dos rendimentos entre mulheres, o perfil também revela diferenças entre funções dentro da indústria. As autoras concentram 73% de todo o valor recebido por mulheres na entidade. Em seguida aparecem as intérpretes, com 23% da renda feminina.
Já as musicistas executantes representam apenas 2%, enquanto versionistas e produtoras fonográficas somam 1% cada. O recorte mostra que a presença feminina ainda é mais forte na criação das obras do que em áreas técnicas ou de produção fonográfica.
Cresce o número de associadas e registros de obras
Apesar da disparidade financeira, o relatório aponta crescimento na presença feminina na base da associação. Desde a primeira edição do estudo, em 2017, o número de mulheres associadas à UBC aumentou 229%. Esse avanço indica um movimento maior de compositoras, intérpretes e profissionais da música em busca de formalização e reconhecimento de seus direitos autorais.
Outro indicador positivo aparece no registro de obras e fonogramas. O número de fonogramas cadastrados por produtoras fonográficas cresceu 13%, enquanto o registro de obras por autoras e versionistas subiu 12%.

Os dados sugerem que as mulheres estão participando cada vez mais das etapas criativas e de produção da música. Ainda assim, essa presença maior não tem se convertido na mesma proporção de rendimentos.
No recorte das fontes de arrecadação, rádio e shows aparecem como os segmentos mais relevantes para a renda feminina, cada um responsável por 17% do total recebido por mulheres. O streaming responde por 11% da arrecadação feminina, enquanto o cinema aparece na outra ponta, com apenas 0,5%.
Assédio e discriminação seguem presentes no mercado
Além das informações econômicas, o estudo também reuniu depoimentos de profissionais sobre violência e discriminação no ambiente de trabalho. O levantamento contou com mais de 280 mulheres que atuam no setor musical.
Entre as respondentes, 65% afirmaram já ter sofrido algum tipo de assédio no contexto profissional. Dentro desse grupo, o assédio sexual aparece em 74% dos casos relatados, seguido de assédio verbal (63%) e moral (56%).
O estudo também aponta que 35% das mulheres disseram ter enfrentado algum tipo de violência. A violência psicológica foi mencionada por 72% dessas profissionais, enquanto 58% relataram toque físico sem consentimento e 38% citaram violência verbal.
Para 96% das participantes que relataram episódios de assédio ou violência, os autores das situações foram homens. Além disso, 75% afirmaram ter sofrido impacto emocional após essas experiências e metade disse ter se afastado de pessoas ou ambientes de trabalho.

Os relatos anônimos reunidos pela pesquisa ajudam a ilustrar essas situações. Uma profissional contou:
“Um produtor de um grande festival do Nordeste, num cumprimento passou a mão com vontade na minha cintura e subiu até o seio. Na hora fiquei sem reação. Meu companheiro viu a cena e ficou perplexo. Não me manifestei para não fechar uma porta, para que no momento oportuno, eu use a minha voz no palco.”
A letrista Iara Ferreira também relatou uma experiência vivida no início da carreira.
“Um músico 30 anos mais velho que eu, que eu admirava e super celebrado no meio, me convidou para compormos juntos. Quando cheguei a sua casa, havia uma cena preparada para um encontro amoroso (vinho, flores…) e ele se ‘declarou’ dizendo que ele mesmo já tinha feito a letra que tinha me pedido pra fazer, e era dedicada a mim. Me senti completamente desrespeitada e humilhada como profissional. Passei um bom tempo duvidando de minha capacidade, pensando que os homens que se aproximavam de mim dizendo que gostavam de meu trabalho, na verdade o faziam com segundas intenções. Essa foi apenas uma de várias situações ao longo desses 15 anos trabalhando como letrista.”
UBC destaca mudanças internas na liderança feminina

Enquanto o relatório mostra desigualdades no setor musical, a UBC também destaca mudanças internas relacionadas à presença feminina na entidade. Hoje, 59% da equipe da organização é composta por mulheres e elas ocupam 57% dos cargos de liderança. Além disso, todas as filiais da associação são atualmente gerenciadas por mulheres.
Em 2023, a entidade também passou por uma mudança histórica ao eleger Paula Lima como sua primeira diretora-presidenta, que destaca a importância do estudo como um instrumento de transformação:
“O relatório Por Elas Que Fazem a Música 2026 revela que o crescimento da presença feminina na UBC é resultado de um processo contínuo de transformação e de um compromisso real com a equidade. O crescimento acumulado de 229% traduz não apenas a ampliação de oportunidades e realizações, mas representa para além de números, histórias, trajetórias e conquistas de mulheres que há anos lutam por espaço, reconhecimento e voz. É o reconhecimento do papel essencial das mulheres na construção da música brasileira. Fazer parte dessa caminhada e presidir a UBC neste momento histórico é, para mim, uma honra profunda e uma grande responsabilidade. Significa reafirmar o compromisso de fortalecer políticas de inclusão, valorizar o talento feminino e contribuir para a construção de uma indústria musical cada vez mais diversa, justa e verdadeiramente representativa.”
Para a diretora Fernanda Takai, os dados reforçam a necessidade de mudanças estruturais no setor.
“Chegamos a mais um relatório sobre a presença feminina da UBC e temos a certeza de que há um caminho enorme a percorrer. Embora os números estejam se expandindo e constatamos recortes muito claros sobre concentração geográfica e também etária. Abrimos 2026 mirando um futuro que espelhe nossa cultura interna, onde as mulheres ocupam 59% no quadro geral de funcionários e maioria absoluta nos cargos de liderança. A indústria da música precisa ser mais representativa e não vamos perder esse foco.”
A gerente de comunicação e marketing da entidade, Mila Ventura, também destaca o papel do estudo na discussão sobre o tema.
“A importância do Relatório Por Elas Que Fazem a Música, não só na nossa indústria, mas na sociedade como um todo, nos motiva a seguir acompanhando e fomentando a presença feminina na música. Ele transforma em números o que vivemos diariamente. Ao amplificar vozes e gerar um espaço seguro para o compartilhamento de questões de violência, de todos os tipos, e discriminação, multiplicamos a nossa força e também nos reconhecemos em sutilezas desconfortáveis, lugares em que, infelizmente, toda mulher já esteve ao menos uma vez na vida, e que precisam ser ditos e debatidos. A UBC segue na sua missão de valorizar, fortalecer e ampliar a equidade de gênero na indústria musical.”
Os dados reunidos pelo estudo mostram que o aumento da presença feminina na indústria musical ainda não se traduz em igualdade de renda e oportunidades. Mesmo com mais mulheres registrando obras, participando da criação musical e se associando à entidade, a concentração de rendimentos e a baixa presença feminina entre os maiores arrecadadores indicam que as barreiras estruturais continuam presentes no setor. Ao reunir indicadores econômicos e relatos de profissionais, o relatório evidencia que a discussão sobre equidade de gênero na música brasileira ainda passa por mudanças profundas na forma como o mercado distribui reconhecimento, oportunidades e remuneração.
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