O YouTube abriu 2026 com um recado direto ao seu ecossistema: a plataforma vai atuar de forma mais firme contra o que define como conteúdo gerado por IA de baixa qualidade. O tema aparece como uma das prioridades centrais da carta anual assinada pelo CEO Neal Mohan, ao lado do fortalecimento da economia de criadores e da aposta em novos formatos de entretenimento.
O posicionamento ganha ainda mais relevância porque ocorre poucos meses depois de um movimento que afetou diretamente a leitura do mercado musical. No fim de 2025, o YouTube Music deixou de compartilhar dados com a Billboard, ficando fora dos rankings oficiais. A decisão deixou claro que, mesmo ajustando suas políticas internas, o YouTube não pretende alinhar seus critérios às métricas usadas pelos charts tradicionais.
Na carta “Do CEO: O que vem por aí no YouTube em 2026”, Mohan parte da ideia de que a plataforma se consolidou como um centro de cultura, negócios e consumo audiovisual. Ao mesmo tempo, reconhece que a popularização das ferramentas de inteligência artificial trouxe um desafio: o crescimento acelerado de vídeos repetitivos, automatizados e com baixo valor criativo.
O que o YouTube chama de conteúdo gerado por IA de baixa qualidade
Ao abordar o tema, Mohan dedica um trecho específico da carta ao problema. Em um dos momentos mais diretos do texto, ele escreve que o avanço da inteligência artificial “levantou preocupações sobre conteúdo de baixa qualidade”, expressão usada para descrever vídeos produzidos em larga escala, com pouca originalidade e foco apenas em volume e engajamento automático.
Em seguida, o CEO contextualiza a posição histórica da plataforma. Ele afirma que, como ambiente aberto, o YouTube sempre permitiu uma ampla gama de formatos e estilos, desde que respeitadas as regras básicas de convivência. No entanto, segundo ele, garantir que o público “se sinta bem passando o tempo” na plataforma passou a exigir um cuidado maior com a experiência oferecida.
Mohan também lembra que muitas tendências hoje populares foram vistas com estranhamento no início. Em um trecho da carta, ele escreve que, ao longo de duas décadas, a empresa aprendeu a não impor visões pré-concebidas ao ecossistema de criadores. A diferença, agora, é equilibrar essa abertura com a responsabilidade de evitar que conteúdos automatizados comprometam a qualidade geral do consumo.
Sistemas, rótulos e proteção de identidade
Para enfrentar esse cenário, o YouTube aposta em estruturas que já fazem parte do seu funcionamento. Mohan explica, em outro trecho do texto, que a empresa está “construindo ativamente sobre sistemas estabelecidos que tiveram muito sucesso no combate a spam e clickbait”, com o objetivo de reduzir a circulação de vídeos repetitivos e de baixa qualidade.
Além disso, conteúdos criados com ferramentas próprias de inteligência artificial passam a ser identificados de forma mais clara. O CEO afirma que o YouTube rotula materiais produzidos com seus produtos de IA e remove qualquer mídia sintética considerada prejudicial ou que viole as Diretrizes da Comunidade.
A carta também destaca a preocupação com o uso indevido de imagem. Mohan escreve que a plataforma está desenvolvendo novos recursos para que os criadores possam controlar o uso de sua aparência em conteúdos gerados por IA, usando mecanismos já conhecidos, como o Content ID, agora adaptados ao contexto de inteligência artificial.

IA como apoio criativo, não substituição
Apesar do tom mais rígido em relação ao excesso de conteúdo automatizado, a carta não trata a inteligência artificial como um problema em si. Mohan faz questão de diferenciar uso criativo de produção massiva sem curadoria. Ao invés disso, ele compara a IA a outras tecnologias que transformaram a indústria criativa.
Segundo o CEO, assim como sintetizadores, softwares de edição de imagem e computação gráfica mudaram a forma de criar som e imagem, a inteligência artificial pode beneficiar criadores dispostos a incorporá-la ao processo criativo. Para sustentar o argumento, ele informa que, em média, mais de 1 milhão de canais usaram diariamente ferramentas de criação com IA em dezembro.
Ainda assim, Mohan estabelece um limite claro. No texto, ele afirma que, ao longo dessa evolução, a IA seguirá como uma ferramenta de expressão, e não como substituta de artistas, criadores ou do trabalho humano que sustenta a plataforma.
Fora da Billboard, mesmo com ajustes internos
Independentemente do esforço para organizar sua experiência interna, o YouTube continuará fora dos rankings da Billboard em 2026. A decisão foi tomada após o CEO do YouTube Music, Lyor Cohen, manifestar discordância com a forma como streams gratuitos são ponderados nas paradas.
Na prática, o episódio evidencia uma separação clara entre governança da plataforma e reconhecimento externo. Enquanto o YouTube busca reduzir ruído e automatização excessiva, a Billboard perde acesso a uma parcela relevante do consumo musical global, o que pode alterar a leitura de tendências e sucessos.
A carta de Mohan termina com uma visão de longo prazo. Ele escreve que o criador mais importante dos próximos anos provavelmente ainda é desconhecido e está começando seu canal agora. A frase resume a lógica defendida pela empresa: manter o palco aberto, mas com regras mais claras para que quantidade não substitua relevância.
Leia mais:
- YouTube coloca combate a conteúdo gerado por IA de baixa qualidade entre as prioridades de 2026 e explicita limites para os charts musicais
- Exclusivo: Antdot assina com a WME para representação internacional de shows fora do Brasil
- Entrevista: André Gress, diretor criativo do Aviões Fantasy, conta bastidores da festa que ganha um audiovisual
- Latin Grammy anuncia duas novas bolsas de estudo para 2026 em parceria com Frost School of Music e Gibson Gives
- Por Dentro da Estratégia: como a Scalene criou a plataforma Superfans para recuperar autonomia sobre dados, comunicação e receita









