Udio fecha parceria com a Merlin após acordos com Universal e Warner

Udio avança no licenciamento de inteligência artificial ao firmar parceria com a Merlin, abrindo o diálogo com selos independentes após acordos com majors.
Foto de Nathália Pandeló
Nathália Pandeló
Udio

A Udio anunciou nesta terça-feira (20) uma nova parceria estratégica com a Merlin, organização que representa selos independentes em mais de 70 países. O acordo estabelece uma estrutura formal de licenciamento para o uso de gravações no treinamento de modelos de inteligência artificial, marcando mais um passo da empresa na consolidação de relações comerciais com a indústria musical.

A movimentação acontece após parcerias firmadas com Universal Music Group e Warner Music Group no fim de 2025, que encerraram processos movidos pelas gravadoras contra a plataforma por infração de direitos autorais. Agora, ao incluir o setor independente nesse diálogo, a Udio sinaliza uma mudança de postura clara: sair do campo jurídico e estruturar sua atuação a partir de contratos licenciados.

Segundo comunicado conjunto, apenas os membros da Merlin que optarem por participar terão seus catálogos utilizados. A compensação financeira será direcionada aos selos e artistas envolvidos, respeitando critérios de consentimento e controle sobre o repertório.

Como funciona o acordo entre Udio e Merlin

O acordo permite que a Udio utilize gravações de selos associados à Merlin exclusivamente para o treinamento de sistemas de inteligência artificial. A adesão não é automática, e cada detentor de direitos decide se quer ou não integrar o modelo.

As empresas afirmam que o contrato inclui salvaguardas para proteger o valor da criação humana. Na prática, isso envolve limites claros de uso do conteúdo e mecanismos de remuneração aos titulares dos direitos, seguindo uma lógica semelhante à já aplicada em licenciamentos digitais tradicionais.

A Merlin responde por cerca de 15% do mercado global de música gravada e atua como negociadora de licenças em nome de seus membros com plataformas como Spotify, Apple Music, Meta e YouTube. A entrada da inteligência artificial nesse portfólio mostra como o tema passa a ser tratado como mais uma frente formal de negociação no setor.

Charlie Lexton, CEO da Merlin, afirmou:

“À medida que a IA se desenvolve, é fundamental para a Merlin trabalhemos com parceiros que respeitem os artistas, o seu trabalho e a exigência de licenciamento musical. Há algum tempo que Merlin a Udio mantêm conversas centradas numa base de consentimento e remuneração justa. Estamos entusiasmados com a visão da Udio e com a forma como respeitam e valorizam claramente os nossos membros e os seus artistas.”

Charlie Lexton é o novo CEO da Merlin
Charlie Lexton é o novo CEO da Merlin (Crédito: Divulgação)

O histórico recente de disputas judiciais

Antes de anunciar a parceria com a Merlin, a Udio esteve no centro de um embate jurídico com as principais gravadoras do mundo. Em 2024, a Recording Industry Association of America (RIAA) entrou com ações contra a empresa e contra a plataforma concorrente Suno, alegando uso não autorizado de obras protegidas por direitos autorais.

No caso da Udio, os processos envolvendo Universal e Warner foram encerrados após acordos firmados em outubro e novembro de 2025. A Sony Music, no entanto, ainda não anunciou uma parceria com a empresa, o que faz do acordo com a Merlin um passo relevante rumo a um pacote quase completo de licenças no mercado global.

Enquanto isso, a Suno segue enfrentando ações judiciais não apenas das majors, mas também de entidades de gestão coletiva, como a dinamarquesa Koda e a alemã GEMA.

Merlin logo

O papel dos artistas independentes no modelo da Udio

Andrew Sanchez, cofundador e CEO da Udio, destacou que os artistas independentes estão no centro da nova parceria.

“Os artistas independentes são a força motriz desta parceria. Ao nos associarmos à Merlin, garantimos que eles mantenham o controle sobre o seu trabalho e sejam recompensados pela sua criatividade. Juntos, estamos construindo uma plataforma que oferece aos fãs e criadores ferramentas incomparáveis, poder real e uma conexão mais profunda com a música que amam. Não estamos apenas imaginando o futuro da criação musical — estamos garantindo que os artistas independentes nos ajudem a liderá-lo.”

A empresa pretende lançar ainda em 2026 uma plataforma de criação musical baseada nesses modelos licenciados, voltada tanto para criadores quanto para fãs.

IA como nova frente de negociação para selos

Para a Merlin, o acordo com a Udio se soma a outras iniciativas recentes no campo da inteligência artificial. Em 2025, a organização firmou parceria com a empresa de áudio ElevenLabs, voltada à geração de música a partir de comandos de texto.

Na ocasião, a entidade defendeu que acordos licenciados são o caminho mais seguro para inserir a IA no mercado musical sem comprometer direitos autorais. A mesma lógica aparece agora no discurso de Lexton, que assumiu o cargo de CEO no início de 2026, após a saída de Jeremy Sirota.

“A nossa parceria demonstra que a Merlin está empenhada em participar na criação das oportunidades que a IA promete, em vez de simplesmente reagir ao seu desenvolvimento.”

Próximos passos da Udio no mercado

Além dos acordos de licenciamento, a Udio começa a estruturar sua relação direta com artistas e profissionais da indústria. A empresa publicou recentemente uma vaga para Head of Artist Partnerships, com base em Los Angeles ou Nova York, voltada à gestão de relações com artistas, selos, managers e editoras.

A Udio conta com investidores como a16z, Redpoint, Hanwha, will.i.am, Steve Stoute e Kevin Wall. O avanço nos acordos indica que a empresa busca consolidar sua base regulatória antes de expandir comercialmente suas ferramentas de criação musical baseadas em IA.

Leia mais: