Chartmetric explica por que as músicas estão mais curtas do que nunca

As músicas mais populares estão durando menos, mas a culpa não é só do streaming. Entenda como tecnologia, gêneros e história influenciam essa tendência.
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Nathália Pandeló
Chartmetric mostra a média de duração das músicas nos charts dos Spotify
Chartmetric mostra a média de duração das músicas nos charts dos Spotify (Crédito: Reprodução)

Nos últimos anos, um fenômeno tem chamado atenção na indústria: as músicas que dominam as paradas estão ficando cada vez mais breves. Dados do relatório Chartmetric 2024 Year in Music Report revelam que a média de duração das faixas no Spotify caiu para aproximadamente 3 minutos – uma redução de 15 segundos em relação a 2023 e 30 segundos menor que em 2019. 

Essa tendência se manifesta em casos extremos como “Poland” (1 minuto e 23 segundos) de Lil Yachty, que alcançou a 40ª posição na Billboard Hot 100 e acumula 154 milhões de streams, e em hits indicados ao Grammy 2025, como “Espresso”, de Sabrina Carpenter, e “360” de Charli XCX.

A explicação mais imediata que vem à mente seria a suposta redução da atenção do público na era do streaming e das redes sociais. No entanto, especialistas apontam que o fenômeno é mais complexo. 

Charlie Harding, jornalista musical, professor da NYU e co-apresentador do podcast Switched on Pop, explica ao Chartmetric: 

“Essa tendência é multivariada, com muitas influências. Não é só tecnologia, não é só cultura”. 

Para compreender plenamente essa mudança, é necessário examinar fatores históricos, tecnológicos e artísticos que influenciaram a duração das músicas ao longo do último século.

A influência histórica da tecnologia na duração musical

A relação entre tecnologia e duração musical remonta ao início do século XX. Os discos de 78 rotações por minuto (rpm), formato dominante entre as décadas de 1900 e 1940, apresentavam limitações físicas que influenciavam diretamente a criação musical. Esses discos mantinham qualidade sonora aceitável por apenas 3 a 5 minutos por lado, o que levou ao desenvolvimento da estrutura musical AABA (verso-verso-ponte-verso).

Um exemplo paradigmático dessa estrutura é “Blue Moon” (2:15) do grupo The Marcels, lançada em 1961. A música segue fielmente os 32 compassos tradicionais do formato AABA, com dois versos repetidos (AA), uma ponte contrastante (B) e um retorno ao verso inicial (A). Curiosamente, a música mais curta a vencer o Grammy de Gravação do Ano foi “Days of Wine and Roses” de Henry Mancini em 1963, com apenas 2 minutos e 5 segundos.

A transição para o formato verso-refrão (ABAB) nas décadas de 1950 e 1960 permitiu maior complexidade narrativa. Harding observa: 

“Um dos desafios da forma AABA é que é mais difícil contar uma história. Não há muito espaço. Então a forma verso-refrão começa a contar histórias de maneiras criativas e revolucionárias”. 

Mesmo com essa evolução, as limitações do vinil mantiveram as músicas relativamente curtas até o surgimento de novas tecnologias.

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A revolução tecnológica: do vinil ao streaming

A introdução dos discos de vinil de 12 polegadas (LPs) na década de 1940 e sua popularização nos anos seguintes permitiram cerca de 22 minutos de música por lado. No entanto, foi com o surgimento dos CDs em 1979 (disponíveis comercialmente a partir de 1982) que a duração das músicas teve um salto.

O ano de 1985 marcou um ponto alto nessa expansão, quando “Careless Whisper”, de George Michael, liderou as paradas com impressionantes 6 minutos e 30 segundos – três minutos a mais que o hit número um do ano anterior. Ao longo da década de 1990, a capacidade dos CDs (até 74 minutos) permitiu que a duração média das músicas chegasse a 4 minutos e 14 segundos.

Essa tendência de expansão começou a se inverter com a digitalização da música e o surgimento do streaming. A transição para formatos digitais como MP3 e, posteriormente, plataformas como Spotify, coincidiu com uma nova mentalidade de consumo musical. 

Diferença na duração das músicas por gênero
Diferença na duração das músicas por gênero (Crédito: Reprodução)

A influência do hip-hop e a era dos ganchos

O hip-hop emergiu como força dominante nas paradas musicais, sendo o gênero mais ouvido por cinco anos consecutivos entre 2019 e 2023, segundo dados do Chartmetric. 

Esse domínio trouxe consigo novas abordagens à estrutura musical. Entre 2018 e 2024, o hip-hop apresentou a maior redução na duração média das músicas (29 segundos), seguido de perto pela música latina com a mesma redução.

O streaming acelerou a valorização de hooks (ganchos musicais) instantâneos. “BIRDS OF A FEATHER”, de Billie Eilish, é um exemplo disso: terceira música mais reproduzida na história do Spotify e a mais rápida a atingir 2 bilhões de streams, apesar de estar entre as cinco mais curtas do top 2024. 

O modelo de negócios do Spotify, que conta 30 segundos de reprodução como um play válido para pagamento de royalties, pode estar influenciando os artistas a priorizar impactos imediatos.

Duração versus qualidade: o que realmente importa?

Apesar da tendência geral de encurtamento, exemplos recentes demonstram que músicas mais longas ainda podem alcançar sucesso massivo. “Blinding Lights”, de The Weeknd, a música mais reproduzida na história do Spotify com 4,75 bilhões de streams, apresenta uma introdução de quase 30 segundos antes do primeiro verso. 

Da mesma forma, “Uptown Funk”, de Mark Ronson e Bruno Mars, com 4 minutos e 30 segundos (40 segundos acima da média de 2014), continua acumulando streams anos após seu lançamento, totalizando mais de 2,2 bilhões.

Harding adverte contra a supervalorização da duração como fator determinante: “Se disséssemos que ‘Blue Moon’ é apenas um produto da era do fonógrafo, isso seria tão depreciativo para o valor dessa música”. 

Olhando para o futuro, Charlie especula sobre possíveis contra-tendências: 

“As pessoas querem sair e ter experiências sociais. Elas querem músicas longas e dissociativas que as levem em uma jornada”. 

Esse fenômeno poderia beneficiar gêneros como o rock progressivo ou bandas de jam session como Phish e Grateful Dead.

Independentemente das flutuações nas tendências de duração, uma lição permanece clara: o engajamento dos ouvintes não é uma consequência do comprimento da música, mas da autenticidade e qualidade da expressão artística. 

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