Alice Ruiz recebe Troféu Tradições da UBC, em noite com 10 intérpretes em São Paulo
Em São Paulo, Alice Ruiz recebeu o Troféu Tradições da UBC em noite que reuniu dez intérpretes e destacou a autoria musical brasileira.
Por Nathália Pandeló···4 min de leitura·
Alice Ruiz recebeu o Troféu Tradições da União Brasileira de Compositores (UBC) na noite de quarta-feira (26), na Casa de Francisca, em São Paulo. A poeta, tradutora e compositora foi homenageada em uma homenagem que reuniu dez intérpretes para revisitar músicas escritas ao longo de sua carreira e jogou luz sobre a visibilidade de quem compõe.
Criado pela UBC, o prêmio já homenageou Anastácia, Dona Onete, Lia de Itamaracá, Alaíde Costa e Rosa Passos. Alice foi a primeira vencedora que não atua também como cantora. Ao abrir a cerimônia, ela falou sobre a própria identidade.
“O que eu mais temo é essa pergunta: ‘Quem é Alice Ruiz?’ Um ser em construção, que nasceu do gênero feminino, mas que não se encaixa no que o sistema determinou para o gênero feminino em um monte de coisas; em outras, fica completamente confortável nesse lugar”, resumiu.
Alice Ruiz leva debate sobre autoria ao palco
Ao receber o troféu das mãos de Wilson Simoninha, Fernanda Takai e Tulipa Ruiz, a homenageada relacionou o reconhecimento à pouca presença dos compositores na comunicação em torno das músicas, questão que ganhou ainda mais peso na era do streaming.
“É uma coisa que acontece mesmo nos meios de comunicação: esquecem de falar quem compôs; normalmente, a música parece ser só de quem canta. Muito raro o letrista aparecer. E, com o streaming, ainda mais. Por isso, o que está acontecendo aqui hoje, com vocês, é um presente incrível. Eu estava me acostumando com a invisibilidade, e vocês me tiraram desse lugar”, afirmou Alice Ruiz.
Takai retomou o tema antes de cantar “Ladainha”, parceria de Alice com Alzira E e Estrela Leminski. A cantora também chamou atenção para a diferença entre a remuneração de intérpretes em shows e a dependência dos autores da arrecadação de direitos.
“É difícil as pessoas que não veem os autores no palco entenderem que eles têm um trabalho e que é diferente do trabalho de quem ganha cachê por show. Se ela não faz show, depende da arrecadação de direitos autorais estar sendo feita certinho, de não haver inadimplência. Alice é um ótimo exemplo, porque ela fala disso. E ainda é mulher, disputando esse lugar de respeito com um monte de homens”, apontou Takai.
Dez intérpretes percorrem a obra da compositora
Tulipa Ruiz, Alice Ruiz, Simoninha e Fernanda Takai – Crédito Rafael Real
Tulipa Ruiz interpretou “Se Tudo Pode Acontecer”, escrita por Alice, Arnaldo Antunes, Paulo Tatit e João Bandeira. A cantora destacou como a poesia da homenageada se conecta à construção musical.
“Alice é uma mulher da palavra. Ela investiga a palavra e o sentido dela. E isso faz com que a palavra encontre o som, que está dentro desse significado. Eu entendo completamente essa ligação da Alice com a música, porque a poesia dela tem melodia, tem harmonia, é musical. Então, ela tem excelentes encontros com músicos e tem músicas gigantescas”, lembrou Tulipa.
A direção musical ficou com Gustavo Ruiz, que destacou as estruturas menos convencionais das composições. Ava Rocha cantou “Socorro”, parceria com Arnaldo Antunes, enquanto Chico Bernardes interpretou “Sem Palavras”, escrita com Luiz Tatit.
O repertório ainda passou por diferentes gerações e parceiros da compositora. Evandro Okàn interpretou “Sei dos Caminhos”, parceria com Itamar Assumpção, artista por meio de quem conheceu a obra de Alice já na vida adulta. Luiza Villa cantou “Tristeza Não”, também com Itamar; Catto apresentou “Avesso”, parceria com Ceumar; e Téo Ruiz ficou responsável por “Quase Nada”, escrita com Zeca Baleiro.
Homenagem passa por diferentes gerações da música
A programação teve ainda Rogéria Holtz com “Virtual”, parceria de Alice com José Miguel Wisnik, e Xênia França com “Milágrimas”, outra composição criada ao lado de Itamar Assumpção. Rogéria já havia dedicado à poeta, em 2008, o álbum e espetáculo “No País de Alice”.
A escolha de intérpretes de diferentes gerações ajuda a mostrar como as letras de Alice Ruiz atravessaram circuitos diversos da música brasileira, da Vanguarda Paulista à produção contemporânea. Ao mesmo tempo, a homenagem trouxe para o primeiro plano uma atividade que nem sempre aparece para o público quando uma canção circula: o trabalho de quem escreve.
Para Alice, esse aspecto esteve diretamente ligado ao sentido da premiação. O Troféu Tradições transformou uma celebração de sua trajetória também em uma discussão sobre crédito, direitos autorais e reconhecimento de compositores, temas que acompanham sua atuação dentro da música brasileira.
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