Superfãs e ricos puxam concentração no mercado de shows, diz análise da Bernstein
A análise aponta que os maiores shows ganharam mais peso na bilheteria dos EUA, enquanto eventos menores enfrentam pressão.
Por Nathália Pandeló···4 min de leitura·
Os superfãs e os consumidores de alta renda estão ocupando um espaço cada vez maior na conta do mercado de shows. Uma análise da Bernstein aponta que a indústria de entretenimento ao vivo vive um processo de concentração, no qual grandes turnês, setores premium e pacotes VIP capturam uma fatia cada vez maior da receita.
O diagnóstico descreve um mercado dividido em dois caminhos. De um lado, artistas de arena, experiências exclusivas e ingressos mais caros seguem puxando receitas. Do outro, shows menores enfrentam mais dificuldade para vender ingressos, ocupar salas e sustentar custos de turnê que subiram desde a reabertura pós-pandemia.
Segundo a Bernstein, o 1% dos maiores shows respondeu por cerca de um terço da bilheteria bruta ao vivo nos Estados Unidos no ano passado. Em 2019, essa fatia era de aproximadamente um quarto. O dado mostra que o topo do mercado cresceu e ainda passou a capturar uma parte bem maior da receita total.
Shows disputam consumidores que pagam mais
Na leitura dos analistas, a concentração tem relação direta com a diferença de renda entre os públicos. O grupo mais rico gasta cerca de quatro vezes mais do que o grupo de menor renda no consumo geral, mas essa distância chega a cerca de 12 vezes quando o recorte é entretenimento, taxas e ingressos.
Esse comportamento ajuda a explicar por que setores premium, assentos melhores, pacotes VIP e experiências exclusivas ganharam ainda mais importância na estratégia de arenas, produtoras e empresas de venda de ingressos. Em alguns espaços, segundo a análise, quase um terço do negócio já está voltado a assentos e serviços premium.
A Bernstein estima ainda que os superfãs gastam cerca de 66% mais com shows do que o fã médio. Nos Estados Unidos, 20% dos fãs já seriam classificados como superfãs, ante 18% no ano anterior. Em streaming, a lógica é parecida: 2% dos fãs de um artista responderiam por cerca de 18% de suas reproduções.
A leitura é de que o mercado está tentando vender mais para quem já compra muito. Isso pode melhorar a margem das grandes turnês, mas também muda a régua de competição. Se o público concentra gastos em poucos eventos considerados imperdíveis, os artistas fora do topo precisam disputar uma atenção mais cara e menos previsível.
Spotify e Live Nation miram os fãs mais engajados
Spotify anuncia que irá reservar ingressos para superfãs (Crédito: Divulgação)
A análise também ajuda a entender por que empresas como Spotify e Live Nation olham com mais atenção para os fãs mais engajados. A Live Nation, controladora daTicketmaster, vem investindo em serviços e espaços premium para consumidores dispostos a pagar mais por acesso, conforto e proximidade.
Já o Spotify lançou em maio o “Reserved”, recurso que permite a determinados assinantes Premium comprar ingressos antes da venda geral. A lógica parte dos dados de consumo: a plataforma sabe quem escuta mais determinado artista, acompanha lançamentos e tem maior chance de comprar ingresso.
Essa mudança desloca uma pergunta importante para artistas e empresários: quem controla a relação com o fã? A plataforma de streaming, a tiqueteira, a produtora, a casa de shows ou o próprio artista? Quanto mais valioso o superfã se torna, maior tende a ser a disputa por cadastro, histórico de consumo e acesso direto a essa base.
Para artistas grandes, esse modelo pode aumentar a previsibilidade. Para artistas médios, o cenário é mais complexo. Eles precisam vender ingressos em um ambiente no qual o público compara preços, seleciona menos eventos e concentra gastos em turnês vistas como únicas.
Artistas médios sentem mais a pressão da turnê
A análise da Bernstein também aponta que os shows menores sofrem mais com queda de gastos e assentos vazios. Esse dado conversa com uma questão já conhecida no mercado: fazer turnê ficou mais caro. Transporte, hospedagem, equipe técnica, equipamentos, cenografia, divulgação e aluguel de espaço pesam mais no orçamento.
Para um artista de arena, a alta de custo pode ser diluída em ingressos premium e grandes volumes de venda. Para um artista em fase intermediária, a conta é mais frágil. Um show com ocupação abaixo do esperado pode comprometer a margem da turnê inteira.
Outro ponto da análise é ainteligência artificial. Segundo a Bernstein, a IA tende a pressionar mais a base do mercado, onde há maior volume de música genérica e menor capacidade de criar escassez. Já os grandes shows ganham valor justamente por oferecer algo difícil de replicar: presença física, espetáculo, comunidade e sensação de evento único.
O que fica claro é que a economia dos superfãs saiu do discurso de comunidade e entrou no centro da bilheteria. Isso pode tornar grandes turnês ainda mais rentáveis, mas também aumentar a distância entre artistas que mobilizam desejo imediato e aqueles que dependem de uma base mais sensível a preço.
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