Rio2C coloca mercado fonográfico brasileiro no centro da estratégia global
No Rio2C 2026, painel sobre mercado fonográfico mostrou como o Brasil tenta transformar interesse externo em carreira internacional
Por Nathália Pandeló···4 min de leitura·
O mercado fonográfico brasileiro foi tratado no Rio2C 2026 como uma peça cada vez mais estratégica na circulação global da música. No painel “Mercado Fonográfico 2025: Do Nicho à Estratégia Global”, Adriana Ramos, diretora geral da Universal Music Publishing, mediou uma conversa com Douglas Moda, Arthur Fitzgibbon e Alyni Araujo sobre os caminhos que têm levado sons, artistas e repertórios brasileiros para fora do país.
A proposta do painel partiu de dados: o mercado fonográfico brasileiro cresceu 21,70% em 2025 e passou a ser visto com outra atenção pela indústria global. A questão colocada no debate foi menos sobre “se” o Brasil tem potencial internacional e mais sobre como transformar esse momento em planejamento, presença e negócios sustentáveis.
Adriana abriu a conversa situando os três convidados em pontos diferentes da cadeia. Douglas representava a criação, a composição e a produção musical. Arthur trouxe a visão de uma empresa que nasceu no digital, a ONErpm. Alyni, como Artists and Labels Manager do YouTube no Brasil, trouxe a leitura de plataforma audiovisual e comportamento de audiência.
Do estúdio brasileiro ao mapa internacional
Para Douglas Moda, a internacionalização começa nas relações reais de trabalho. O produtor citou sua trajetória acompanhando processos envolvendo artistas como Vitão e Jão, até a criação da We4 Music e os projetos com Luísa Sonza. Segundo ele, o álbum “Doce 22” foi um divisor de águas em sua carreira.
“Quando eu comecei a fazer o Doce 22, que foi o disco da Luísa, meio que mudou a minha vida”, resumiu.
A partir desse processo, Douglas conheceu Roy Lenzo, produtor de Los Angeles que trabalhava no disco de Lil Nas X. A relação começou na quarentena, por troca de mensagens, e depois se transformou em encontros presenciais e colaboração em “Escândalo Íntimo”, álbum de Luísa Sonza. Para Douglas, a abertura para parcerias foi essencial.
“Pra mim, na minha concepção, a produção musical é coletiva, a composição é coletiva”, declarou.
O ponto do produtor ajuda a explicar uma mudança na lógica de exportação. Não se trata só de levar uma música pronta para fora, mas de criar pontes antes, mapear produtores e compositores, iniciar conversas e chegar aos encontros com uma agenda. Douglas citou camps e colaborações no Japão, Coreia do Sul, México, Estados Unidos, Argentina e países da Europa.
“O mercado global tá olhando pro Brasil”, apontou.
Funk, dados e oportunidades fora da rota óbvia do mercado fonográfico
Adriana Ramos, Alyni Araujo, Arthur Fitzgibbon e Douglas Moda (Crédito: Igor Ventura)
Na visão de Arthur Fitzgibbon, a distribuição digital, sozinha, virou uma commodity no mercado fonográfico. A ONErpm nasceu nesse ambiente, mas precisou desenvolver outras frentes, como direct-to-fan, campanhas de redes sociais, vídeo e produção artística. Para ele, trabalhar por gênero se tornou decisivo no digital, porque cada cena exige conhecimento específico.
O funk apareceu como exemplo. Arthur lembrou que a ONErpm acompanhou o gênero desde 2012 e, nos últimos anos, passou a observar a retomada do interesse internacional. O case citado foi a união das unidades de música eletrônica e funk da empresa, em parceria com a Beatport, no projeto “Música Eletrônica Funk do Brasil”.
A proposta do documentário, segundo ele, foi mostrar como o universo eletrônico abraça o funk e como o funk também está inserido na música eletrônica, especialmente pela força dos beats. Essa leitura ajuda a contornar uma barreira antiga para a música brasileira no exterior: a língua. Quando o ritmo e a produção abrem a porta, o idioma deixa de ser o único filtro.
Já Alyni Araujo chamou atenção para uma diferença importante: o Brasil consegue exportar sonoridades, mas ainda tem dificuldade para exportar artistas. Para ela, falta mais disposição de investir tempo em outros mercados, não necessariamente dinheiro. O exemplo citado foi uma dupla sertaneja que, por análise de canal, descobriu um pico inesperado de consumo no Japão.
A movimentação vinha de uma faixa que performava bem no Shorts. A partir disso, a equipe passou a criar conteúdo para aquele público, identificou criadores japoneses usando a música e convidou o maior deles para um show no Brasil. O criador saiu de Kyoto para assistir à dupla em Ribeirão Preto.
“Esse tipo de coisa é uma oportunidade, não é um planejamento. É sobre não perder a oportunidade”, ela contou.
No fim, o painel apontou para um Brasil em evidência, mas ainda diante de um desafio prático, que é o de transformar atenção internacional em presença contínua. O mercado fonográfico brasileiro tem repertório, ritmo e curiosidade global a seu favor. Agora, precisa combinar criação, dados, colaboração e constância para fazer essa janela durar.
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