Rio2C coloca em debate os códigos da música no storytelling em painel com BMG, EA e Day Limns
No Rio2C, painel da BMG sobre música no storytelling discutiu games, audiovisual, licenciamento e colaboração entre artistas e marcas.
Por Nathália Pandeló···5 min de leitura·
A música no storytelling foi o ponto de partida do painel “Os Códigos Secretos da Música no Storytelling”, realizado nesta quarta-feira, 27 de maio, no palco Soundbeats III by Mundo da Música noRio2C. A conversa reuniu Megan Goldstein, VP de Sync Licensing da BMG, Raphaella Lima, diretora global de Música & Marketing da Electronic Arts, e Day Limns, cantora e compositora, com mediação de Mario Di Poi, sócio e produtor executivo da INPUT POST.
A proposta do encontro foi olhar para a música para além da trilha sonora como acabamento de uma obra audiovisual. No debate, ela apareceu como parte da construção narrativa, da experiência do público e da estratégia de circulação de projetos em filmes, séries, games e conteúdos de marca.
O painel também tratou de um ponto central para o mercado criativo: uma música não entra em uma produção apenas porque “combina” com a cena. A decisão passa por visão artística, direitos, orçamento, licenciamento, público-alvo, marketing e negociação entre diferentes partes envolvidas no projeto.
Música como camada narrativa
Megan Goldstein no painel da BMG no Rio2C (Crédito: Igor Ventura)
Ao longo da conversa, a música foi apresentada como uma camada capaz de mudar a relação do público com uma história. Em um filme, uma série ou um game, ela pode ajudar a criar tensão, afeto, memória e identidade. Para quem trabalha com supervisão musical, isso significa entender que a escolha de uma faixa não é apenas estética, mas também funcional.
No audiovisual, esse processo exige uma escuta atenta à visão de direção. A música precisa servir à obra e à intenção criativa do projeto. Isso envolve compreender o clima da cena, o arco dos personagens, o ritmo da montagem e o que aquela canção precisa provocar no público. Quando essa escolha funciona, a música deixa de ser um elemento externo e passa a fazer parte da narrativa.
Nos games, a discussão ganha outra camada. Diferente do cinema e da televisão, o jogador não apenas assiste à história. Ele participa dela. Por isso, a música pode acompanhar uma ação, sinalizar uma mudança de ambiente, criar imersão ou virar ponto de descoberta para novos artistas.
Raphaella trouxe a perspectiva de quem trabalha em uma empresa global de games, em que trilhas e campanhas precisam dialogar com públicos de diferentes países. Nesse contexto, a música também se torna uma ponte cultural. A menção a projetos com artistas brasileiros e latino-americanos indicou como o setor olha para cenas locais como parte de estratégias internacionais.
Games, descoberta e experiência
Raphaella Lima no painel da BMG no Rio2C (Crédito: Igor Ventura)
Um dos pontos mais fortes do painel foi a ideia de que os games podem funcionar como espaços de descoberta musical. Uma canção inserida em um jogo pode chegar a milhões de pessoas em diferentes mercados, muitas vezes dentro de uma experiência mais intensa do que a escuta passiva em uma plataforma.
Essa lógica ajuda a explicar por que trilhas de jogos, eventos dentro de ambientes virtuais e performances digitais passaram a fazer parte da estratégia de artistas e gravadoras. Em vez de apresentar uma música apenas como lançamento, o game permite criar um mundo ao redor da faixa, com narrativa, interação e participação do público.
Day Limns apareceu nessa discussão a partir da experiência artística. A cantora comentou um projeto em que uma música ganhou um jogo desenvolvido para seu site, em vez de seguir apenas pelo caminho tradicional de um videoclipe ou visualizer. A dinâmica acompanhava a duração da faixa e fazia o público atravessar a história da música “Sol” por meio da interação.
Esse exemplo ajuda a entender uma mudança importante: o storytelling deixou de ser a história contada sobre uma música. Ele também pode ser a forma como o público entra nessa história. Quando uma canção vira jogo, ação visual ou experiência digital, a divulgação passa a ter outro tipo de envolvimento.
Licenciamento, orçamento e colaboração
Day Limns no painel da BMG no Rio2C (Crédito: Igor Ventura)
O painel também trouxe para o centro da conversa a parte menos visível desse processo. Para uma música entrar em um filme, série, game ou campanha, é preciso lidar com direitos, autorizações, custos e prazos. Essa etapa costuma ser invisível para o público, mas pode definir se uma ideia sai do papel ou precisa ser adaptada.
Megan, pela perspectiva da BMG, conectou a discussão ao universo do licenciamento. A escolha de uma música envolve negociação com titulares de direitos e análise de viabilidade. Mesmo quando há uma ideia criativa forte, o orçamento pode impor limites. Nesses casos, a solução passa por encontrar alternativas que preservem o sentido da cena sem romper as condições do projeto.
A conversa também apontou que colaboração não é apenas uma palavra bonita nesse mercado. Ela é uma necessidade prática. Artistas, supervisores musicais, produtores, marcas, editoras, gravadoras e equipes de marketing precisam alinhar expectativas desde o início. Quanto mais clara for a comunicação entre esses lados, maior a chance de a música cumprir sua função dentro da narrativa.
O painel mostrou que os “códigos secretos” da música no storytelling não estão em uma fórmula única. Eles aparecem na leitura do projeto, na escolha da música certa, na negociação possível e na capacidade de conectar criação, estratégia e execução. Em um mercado em que audiovisual, games e música se cruzam cada vez mais, entender essas camadas virou parte essencial do trabalho criativo.
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