Rádio pode ganhar espaço na descoberta musical, aponta MIDiA; meio alcança 79% no Brasil
Com 3h47 de escuta diária no Brasil, o rádio encontra no digital e na curadoria humana novas oportunidades para disputar a descoberta musical.
Por Nathália Pandeló···4 min de leitura·
Com tanta música disponível e recomendações automáticas por todos os lados, o rádio pode voltar a ganhar espaço na descoberta musical. Essa, pelo menos, é a tese apresentada pela MIDiA Research, que coloca a curadoria humana como contraponto à experiência cada vez mais guiada por algoritmos no streaming.
A discussão acontece em um cenário no qual o meio está longe de ter desaparecido. O estudo “Rádio 3.0”, lançado pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (ABERT) em junho de 2026, reúne dados do Inside Audio 2025 e aponta que 79% da população nas 13 regiões metropolitanas pesquisadas escuta rádio. O brasileiro dedica, em média, 3h47 por dia ao meio. Já 92% consumiram algum formato de áudio nos 30 dias anteriores à pesquisa.
Esse panorama fica ainda mais interessante quando observado por cidade. Na Grande Belo Horizonte, o rádio alcança 87% da população; em Porto Alegre e Goiânia, 84%; no Rio de Janeiro, 80%; e em São Paulo, 77%. O Rio registra o maior tempo diário entre as grandes capitais listadas, com média de 4h15 de escuta.
A descoberta pode voltar a ter uma pessoa por trás
Crédito: Eric Nopanen
Para a MIDiA, o diferencial não está simplesmente em recuperar um hábito antigo. O ponto é oferecer algo que os sistemas automatizados têm dificuldade de reproduzir: uma seleção associada à identidade de um DJ, apresentador ou programador. Em vez de prever a próxima faixa com base no histórico do usuário, a curadoria pode apresentar uma música que ele não buscaria sozinho.
A consultoria usa a NTS, rádio online de Londres, como exemplo desse modelo. A programação de nicho, construída por curadores e DJs, criou uma comunidade internacional em torno da emissora. A lógica contrasta com playlists hiperpersonalizadas e também com a descoberta pelas redes sociais, nas quais uma música pode circular como tendência sem necessariamente levar o público a conhecer melhor o artista.
Essa diferença importa para a indústria porque descoberta e acesso deixaram de ser sinônimos. Os serviços de streaming resolveram o acesso a milhões de músicas. O desafio agora é fazer o ouvinte prestar atenção em alguma delas.
O rádio brasileiro também está mudando de endereço
O próprio conceito de rádio já vai além da frequência FM. Os dados reunidos pela ABERT mostram que os canais digitais adicionaram, em média, cerca de 73% de audiência às grandes emissoras no início de 2026 em relação ao público alcançado pelo dial. Em fevereiro, o tempo médio de consumo digital ficou em 1h14. A análise considera streaming, sites, aplicativos e outras extensões das emissoras.
A tecnologia híbrida também começa a aparecer no país. Em junho, a Caiobá FM, de Curitiba, passou a combinar a transmissão tradicional em FM com serviços digitais para carros conectados. A ABERT acompanha iniciativas do tipo como parte da modernização da radiodifusão brasileira.
Esse processo ocorre ao mesmo tempo em que o dial passa por trocas importantes. Em maio, a Eldorado FM encerrou sua operação em 107.3 FM em São Paulo após 68 anos. A frequência passou a ser ocupada pela Rádio Bandeirantes. O Grupo Estado informou, na despedida, que buscaria parceiros para uma eventual continuidade da marca em outra frequência.
No Rio de Janeiro, o movimento foi na direção contrária. A Rádio Manchete passou a operar em 96.1 FM em abril deste ano, chegando ao dial convencional depois de transmitir na faixa estendida de 76.9 FM. A nova fase trouxe uma grade com jornalismo, entretenimento, música, serviços e esportes.
Um novo espaço entre streaming, redes sociais e FM
Esses movimentos ajudam a mostrar por que falar em “fim” ou “volta” do rádio pode simplificar demais a transformação em curso. Algumas operações deixam frequências, outras chegam ao FM, e uma parcela cada vez maior da audiência acompanha as mesmas marcas pelo celular, streaming, vídeo, aplicativos ou carros conectados.
Para artistas e gravadoras, essa mudança pode reposicionar a curadoria radiofônica dentro das estratégias de descoberta. Em um mercado no qual uma playlist automática oferece conveniência e um vídeo curto pode gerar exposição instantânea, o apresentador ou DJ oferece outra moeda: contexto.
A MIDiA pretende aprofundar essa discussão no relatório “Radio’s new role in music discovery”, previsto ainda para este mês. O estudo terá dados de consumidores e entrevistas com profissionais da indústria e ouvintes. A questão será entender se um dos formatos mais antigos da música pode encontrar justamente no excesso de algoritmos uma nova função.
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