Até que ponto dados numéricos como engajamento, alcance, número de visualizações e posição nos charts, em uma cena cada vez mais transformada pela IA, de fato refletem o real interesse do público? É essa reflexão, em suma, que Tatiana Cirisano, Vice-Presidente de Estratégia Musical na MIDiA, levanta em artigo publicado no veículo no último dia 15. Para ela, os agentes de IA, como o Instinct, já estão trazendo uma grande dificuldade para a indústria da música no sentido de entender o posicionamento de um fã para com o artista e o que ele realmente está disposto a fazer para cultivar aquela relação.
Indústria da música terá que aprender a coexistir com agentes de IA se quiser entender conexão entre fã e artista a longo prazo
Artigo de Tatiana Cirisano, Vice-Presidente de Estratégia Musical na MIDiA, levanta reflexão sobre o impacto que os agentes de IA já estão provocando na indústria musical e um distanciamento que já causam entre engajamento em números e real interesse do público

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A título de ilustrar seu ponto de vista, a autora traz o exemplo recente da cantora britânica Raye, que alegou ter sido vítima de uma ação de cambistas que teriam colocado chatbots para acessar uma fila virtual para pré-venda de um show. Raye relatou ter recebido cerca de 1,8 milhão de contas cadastradas na disputa por show com capacidade para apenas 5 mil pessoas. Não dá para dizer, então, que 1,8 milhão de pagantes se interessaram pelo show de Raye, já que os números que advêm de pessoas reais se embaralharam àqueles gerados por IA.
“Enquanto as plataformas continuam a aprimorar a tecnologia para eliminar esse tipo de comportamento de ‘bot’, é provável que os fãs reais também queiram usar agentes cada vez mais. Em vez de bloquear os agentes completamente, é mais provável que as plataformas tenham que aprender a interagir com eles”, reflete Tatiana ao se debruçar sobre o exemplo recente de Raye.
Cada vez mais, números deixam de refletir o real interesse do público
Com o avanço acelerado da IA, o surgimento de agentes que fazem uso dela e uma aderência cada vez maior deles que se espera por parte, inclusive, dos fãs – como traz o texto -, ficará cada vez mais dificultoso ter controle sobre as nuances dos números. Um conjunto de dados numéricos terá, dentro dele, o interesse de pessoas reais dividindo espaço com meros comandos dados a agentes de IA. Aí, a mensuração da real conexão entre fã e artista se perde.
“Os exemplos são inúmeros. Promotores de turnês estão descobrindo que um grande número de seguidores nas redes sociais não se traduz necessariamente em alta venda de ingressos. Os usuários nem precisam mais seguir contas para receber conteúdo automaticamente, então muitos simplesmente não o fazem. Músicas podem gerar milhões de visualizações no TikTok sem que os ouvintes necessariamente saibam quem é o artista. Recomendações algorítmicas impulsionam o consumo, mas dificultam a distinção entre o que o público busca e o que simplesmente lhe é oferecido. O resultado é uma crescente desconexão entre consumo e engajamento – e, talvez ainda mais surpreendente, entre consumo e capital cultural. Isso ajuda a explicar por que, ao mesmo tempo em que as assinaturas de streaming e as horas de audição crescem, os dados da MIDiA mostram que a música está desempenhando um papel cada vez menor na identidade das gerações mais jovens“, destaca a autora do artigo.

Foco menor no consumo, mais atenção para conexão
Tatiana defende a ideia de que, se os agentes da indústria musical quiserem compreender a fundo a conexão entre fã e artista no longo prazo, será preciso coexistir com os agentes de IA e as novas ferramentas que vierem a surgir. E, mais importante que isso, reestruturar um olhar que ao longo dos últimos anos foi moldado a focar em números.
“Isso significa deixar de lado o foco excessivo na mensuração de ações individuais e passar a medir a força dos relacionamentos. Como isso se traduziria na prática? Focar menos em ações isoladas e mais em relações longitudinais – compreender padrões de comportamento ao longo do tempo; Priorizar resultados em vez de indicadores de engajamento – não ‘quem se inscreveu na pré-venda’, mas ‘quem compareceu a vários shows’; Aprimorando as maneiras como entendemos e mensuramos as interações físicas na vida real; Reconhecer o valor da fricção intencional – criar experiências que exijam participação significativa, em vez de otimizar cada interação para a conveniência”, pontua a autora, elencando ações que ela julga como primordiais para o presente e futuro da indústria.

A autora conclui sua análise: “Em suma, isso pode ser um sinal para a indústria musical de que precisa moderar sua obsessão por métricas como streams, visualizações e posições nas paradas musicais — ou, pelo menos, evoluir a forma como interpreta esses sinais. A indústria se tornou excepcionalmente boa em mensurar o consumo, mas entender a conexão é outra história”.
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