O Carnaval continua sendo um grande laboratório de circulação da música brasileira. Durante poucas semanas, canções de diferentes épocas, gêneros e contextos disputam espaço em blocos de rua, trios elétricos, camarotes, festas privadas, eventos corporativos e campanhas publicitárias. O que antes era tratado apenas como um pico sazonal hoje se consolida como um período estratégico para o mercado editorial, com impacto direto na arrecadação, no licenciamento e na gestão de catálogos.
Carnaval transforma uso da música em motor editorial e impulsiona arrecadação, licenciamento e circulação de catálogos no Brasil
O Carnaval concentra picos de execução pública, ativações de marca e sincronizações, mas também gera efeitos prolongados na vida das obras ao longo do ano.

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Dados recentes do Ecad mostram que o Carnaval de 2025 concentrou uma fatia relevante da arrecadação de direitos autorais no país. São Paulo respondeu por 22% do total arrecadado no período, seguido pela Bahia, com 17%, Minas Gerais, com 12%, e Rio de Janeiro, com 11%. Os números ajudam a dimensionar o peso econômico da festa e indicam que o fenômeno se espalha de forma consistente por diferentes regiões.
Mais do que um momento de alta concentração de execuções públicas, o Carnaval passou a funcionar como um catalisador de usos múltiplos da música. Execução ao vivo, sonorização de eventos, ativações de marca, campanhas publicitárias e conteúdos audiovisuais se sobrepõem, criando um ambiente em que a música deixa de ser coadjuvante e assume um papel central.
Execução pública deixa de ser única fonte de impacto
Para Brenno Casagrande, fundador da Editora Casagrande, a arrecadação do Carnaval hoje vai muito além dos blocos de rua, tradicionalmente associados à execução pública.
“Hoje, a arrecadação do Carnaval vem dos blocos de rua, mas cresceu exponencialmente com eventos privados, camarotes, festas corporativas e ativações de marca. O Carnaval deixou de ser um pico apenas sazonal e passou a ter um impacto mais perene ao longo do ano, especialmente com sua expansão para além da Bahia, o que ampliou o potencial de receita.”
Esse movimento acompanha a própria transformação do Carnaval brasileiro, que se espalhou para capitais como São Paulo e Belo Horizonte, ganhou novos formatos e atraiu marcas interessadas em se associar à experiência coletiva da festa. Ainda assim, Brenno observa que o processo não é homogêneo e que existem desafios relacionados à regularização dos usos musicais, com atuação constante do Ecad para reduzir distorções.
“Existem irregularidades, e o ECAD tem atuado para minimizar esses impactos”, complementa.
Catálogos híbridos e músicas fora do repertório tradicional

Os levantamentos do Ecad ajudam a ilustrar uma mudança importante no perfil do repertório carnavalesco. Rankings de cidades como Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte mostram a convivência entre clássicos históricos, axé, samba, pop e canções lançadas recentemente, muitas delas sem ligação direta com o Carnaval.
Músicas como “Eva”, presente entre as mais tocadas nas quatro capitais analisadas, exemplificam a reativação constante de catálogos. Ao mesmo tempo, novos sucessos dividem espaço com obras consagradas, reforçando a ideia de um repertório híbrido e em permanente renovação.
Para Brenno, esse comportamento não é aleatório.
“Essas músicas costumam ter refrão forte, ritmo envolvente e alto potencial viral, impulsionado por plataformas como o TikTok, que também resgata sucessos de outras épocas. Isso orienta a curadoria para obras mais versáteis e uma gestão estratégica do catálogo ao longo do ano.”
Licenciamento, marcas e narrativa cultural
Do ponto de vista do licenciamento e da sincronização, o Carnaval brasileiro ocupa um lugar muito específico no mercado global. Para Caroline Carneiro, Senior Manager de Sync & Licensing da BMG Rights Management, a combinação de fatores torna o período praticamente único.
“O Carnaval brasileiro é um ‘unicórnio’ que combina três forças importantes ao mesmo tempo: execução pública massiva, ativação de marca e território cultural.”
Segundo Caroline, essa característica diferencia o Carnaval de outros períodos festivos.
“Diferente de outros momentos do calendário, a música não é somente a trilha do evento. Ela é o próprio evento, o que gera um pico relevante de usos.”
Esse protagonismo cria um ambiente favorável para campanhas publicitárias e ações de marca.
“Para marcas e publicidade, existe um storytelling muito forte para aproveitar. Músicas que conectam com temas como celebração coletiva, liberdade, diversidade e brasilidade ganham um contexto que pode potencializar campanhas”, afirma.
O efeito não termina na quarta-feira de cinzas

Um dos pontos mais importantes dessa dinâmica é o efeito prolongado do Carnaval na vida das obras. Para Caroline, o impacto não se encerra com o fim da festa.
“Isso tudo não termina na quarta-feira de cinzas. O impacto é prolongado na vida das obras, com maior visibilidade para os autores, crescimento orgânico do consumo em streaming e, como consequência, aumento da demanda por oportunidades de sincronização.”
Esse efeito de cauda longa ajuda a explicar por que editoras passaram a olhar para o Carnaval como parte de uma estratégia anual, e não apenas como um momento isolado. No caso da Editora Casagrande, Brenno destaca que a previsibilidade financeira depende dessa leitura mais ampla.
“Além da arrecadação do Carnaval, a editora conta com as distribuições regulares do Ecad, como rádio e shows, e também com os direitos digitais (streaming), que ajudam a equilibrar o caixa até a entrada do pagamento do Carnaval, trazendo mais previsibilidade financeira para a editora e para os autores.”
Carnaval como ativo cultural exportável
A leitura da BMG conecta o Carnaval a um movimento maior de valorização da música brasileira no mercado internacional.
“Com o Brasil vivendo um protagonismo cada vez maior na indústria do entretenimento, o interesse pelos nossos ritmos e estética cresce ao longo do ano”, diz Caroline.
Nesse contexto, o Carnaval passa a funcionar como um ativo cultural cada vez mais exportável.
“Ele deixa de ser apenas um evento local e passa a vender essa brasilidade não só durante o Carnaval, mas a partir dele”, afirma.
Ao reunir execução pública massiva, múltiplos usos comerciais e circulação contínua das obras, o Carnaval é, mais do que nunca, uma engrenagem indispensável do mercado editorial brasileiro, capaz de gerar impacto econômico, cultural e simbólico muito além dos dias de folia.
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